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Carta de Portugal

Eleições de ficar por casa

por Eduarda Freitas — publicado 02/02/2011 09h53, última modificação 02/02/2011 11h57
Mais de metade dos portugueses não votou nas eleições presidenciais. Foi a maior percentagem de abstenção de sempre na história da democracia portuguesa: 54,37 por cento. Mas…Portugal tem um novo presidente da República, que é precisamente o mesmo que era. E siga o fado!

Mais de metade dos portugueses não votou nas eleições presidenciais. Foi a maior percentagem de abstenção de sempre na história da democracia portuguesa: 54,37 por cento. Mas…Portugal tem um novo presidente da República, que é precisamente o mesmo que era. E siga o fado!

Ainda não eram sete da manhã e já o carro rompia pela estrada da serra até Pedras Salgadas, uma vila onde o apelo à abstenção tinha sido feito do povo para o povo.
O visor do carro contava cinco graus negativos. O frio ria-se à minha frente e eu com as mangas da camisola a tapar os dedos, fui fazendo contas às contas que mais tarde não prometiam surpresas. Nas Pedras o povo quase não votou. Assim o tinha prometido. A vila argumentou que o governo e uma empresa privada faltaram aos compromissos. Que ambos deram o dito pelo não dito, e não cumpriram com o projeto de requalificação do histórico e centenário Parque Termal, o mesmo de onde nasce a conhecida Água das Pedras, indispensável na ajuda à digestão, assim garantem muitos. Oito da manhã e só estava quem tinha de estar junto às mesas de voto. Ao lado, a senhora do café serviu-me um pão com manteiga, ainda quente. “E já todos sabem porque não votamos”, dizia-me enquanto encolhia os ombros. Noutro canto do país, outro protesto: sem rede de telemóvel, não há votos para ninguém. E vai daí, um boi e uma vaca foram os únicos a comparecer junto da Assembleia de voto. Talvez porque não se comunicam via telemóvel. Mais à hora de almoço, as televisões mostravam centenas de pessoas que não sabiam onde votar, porque com o novo documento de identificação dos portugueses - o cartão de cidadão – alguns locais de voto foram alterados e ninguém perguntou a quem onde e como. A tempo. “É ver na Internet”, diziam na televisão. A Internet não aguentou. Bloqueou com tanta pressão. Uma amiga liga-me a perguntar:
“Onde é que eu voto?”. E eu não sabia. “ Olha, vai à Internet!”. Foi mas ficou à porta. “Não consigo entrar…voto na segunda volta...”. Se a houvesse. Não houve. Uns e outros encolheram os ombros. Uns já sabiam quem ganhava, outros quem perdia. E, portanto, em terra em que todos sabem tudo, o melhor é não fazer nada. De diferente. Até porque, todos sabemos, a culpa nem sequer é nossa: é do outro que está ao lado. Ou como diz o velho ditado: em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão. O país do descontentamento contentou-se com o mesmo. Ganhou o antigo professor de finanças. O poeta ficou aquém das palavras prometidas. O médico independente chegou mais perto da surpresa. O senhor de coelho debaixo do braço arrancou gargalhadas da cartola, o outro médico defensor dos touros, não obteve grandes apoios entre os humanos. O meu país tem de novo o presidente da República que já tinha, o menos votado de sempre em Portugal, numas eleições onde tantos e tantos ficaram em casa e deram voz à maior percentagem de abstenção de sempre. E até os mortos deram uma ajuda, porque cerca de 10 por cento da população que conta para a abstenção já morreu. E esses, sim, são vítimas do sistema.

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