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Eleição em Portugal testa disposição dos europeus a seguir austeridade

por The Observer — publicado 05/10/2015 17h56 Portugal à Frente
Coalizão de centro-direita manteve o poder na eleição geral, num raro caso de país socorrido pelos órgãos internacionais que reelege seu governo
Portugal à Frente/Facebook
Pedro Passos Coelho e Paulo Portas

Pedro Passos Coelho e Paulo Portas na Arruada e Comício de Encerramento da Coligação Portugal

A coalizão de centro-direita que governa Portugal manteve o poder em uma eleição geral considerada como um referendo sobre suas políticas de austeridade, mas os resultados quase finais da apuração indicavam a perda da maioria absoluta no Parlamento.

O primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, da coalizão Portugal à Frente, obteve 38,6% dos votos, segundo resultados parciais, contra 32,4% dos socialistas de oposição, do ex-prefeito de Lisboa Antonio Costa.

Costa, que fez campanha com a promessa de abrandar algumas das dolorosas reformas impostas ao país mais pobre da Europa ocidental, rapidamente admitiu a derrota, mas descartou renunciar à liderança do partido. "O Partido Socialista não atingiu seus objetivos declarados, e eu assumo a plena responsabilidade política e pessoal", disse a apoiadores na capital. Mas acrescentou: "Não vou renunciar".

A vitória da centro-direita no domingo 4, depois de quatro anos de uma severa austeridade que fez o desemprego e a emigração dispararem, marca um raro caso de um país socorrido pelos órgãos financeiros internacionais que reelege seu governo.

Mas a coalizão entre os social-democratas do primeiro-ministro e o Partido Popular, conservador, parece destinada a não conseguir os 116 assentos necessários para controlar a câmara de 230 integrantes, deixando-os em minoria contra os socialistas e deputados de partidos menores. Quatro assentos a serem preenchidos por votos do exterior serão decididos até 14 de outubro.

O Bloco de Esquerda, partido irmão do Syriza grego, contrário às medidas de austeridade, parecia prestes a conseguir seu melhor resultado, de 10,2% dos votos e 19 assentos, contra sua marca anterior de 8.

Um governo de minoria poderia representar um grande desafio para Portugal, onde nenhum governo minoritário isolado sobreviveu a uma legislatura completa desde que o país voltou à democracia em 1974.

A coalizão de Coelho aplicou aumentos de impostos e cortes de gastos, mas afirmou durante a campanha que o país começa a ver os frutos das medidas, com uma recuperação gradual após três anos de recessão.

A eleição em Portugal é uma das várias neste ano que testarão a disposição dos eleitores europeus a seguir planos de austeridade destinados a restaurar as finanças públicas depois de crises da dívida soberana. No mês passado, os gregos reelegeram seu primeiro-ministro, Alexis Tsipras, mesmo depois que ele engoliu os duros termos do socorro financeiro antes rejeitados, e os espanhóis irão às urnas em dezembro.

A vitória do governo era impensável até alguns meses atrás, quando todas as pesquisas davam uma sólida vantagem à oposição socialista, de centro-esquerda, que prometera abrandar a austeridade e restituir a disponibilidade de renda às famílias. A eleição geral foi a primeira desde que Portugal saiu do plano de socorro internacional no ano passado.

Na última eleição geral, em 2011, os dois partidos governantes conseguiram 50,3% dos votos, garantindo um governo estável de maioria. Os socialistas ficaram com 28%.

A formação do governo poderia depender do presidente Anibal Cavaco Silva, cujo dever é indicar o próximo primeiro-ministro. A Constituição não especifica, porém, como o presidente deve escolher o vencedor, se pelo número de votos ou o número de legisladores eleitos ao Parlamento.

"Estou confiante no trabalho que fiz. [...] É um dia de esperança, porque os próximos quatro anos serão muito diferentes dos últimos quatro", disse Coelho à imprensa depois de votar nos arredores de Lisboa, pedindo que as pessoas saíssem de casa para votar apesar do clima ruim.

A economia de Portugal recuperou um tímido crescimento no ano passado, depois de uma recessão de três anos, e o crescimento está se acelerando.

Ao se aproximar a eleição, os investidores estavam plenamente confiantes em que Lisboa manterá suas reformas. O rendimento dos títulos portugueses se manteve na sexta-feira pouco acima dos baixos níveis das últimas sete semanas.