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Oriente Médio

Egito: uma revolução à beira da autodestruição

por The Observer — publicado 02/07/2013 09h04
Os egípcios falam em uma "segunda revolução" para concluir a primeira, mas o país pode perder tudo o que ganhou
Khaled Desouki / AFP
Manifestação no Egito

Manifestantes anti-Morsi realizam protesto em frente ao palácio presidencial, no Cairo

Editorial

Milhões de egípcios ocuparam as ruas do Cairo e outras grandes cidades no domingo 30 para exigir que o presidente Mohamed Morsi, eleito há exatamente um ano, renuncie e abra caminho para algum tipo de governo de transição. Outras centenas de milhares, muitos deles (mas não todos) seguidores da Irmandade Muçulmana, no governo, armam contramanifestações pedindo que o presidente Morsi continue de qualquer modo. Diante das paixões despertadas em todos os lados, e da natureza rígida e maximalista da agenda da oposição, está montado o cenário para um confronto físico de proporções possivelmente épicas. Surtos de violência mortífera já foram registrados. Líderes religiosos advertiram sobre uma "guerra civil". Teme-se que esses choques possam pressagiar e precipitar uma ruptura mais geral e anárquica.

Nada poderia ser mais contrário ao interesse nacional do Egito, nem mais desastroso para a causa do "pão, liberdade, justiça social" – o grito do povo na revolução de 2011. Nada poderia agradar mais aos criminosos sanguinolentos do regime sírio de Bashar al-Assad, justamente renegados pela liderança egípcia. Nada poderia encorajar mais as conspirações regionais perniciosas e antidemocráticas dos conservadores religiosos do Irã, nem decepcionar mais os aspirantes a democratas, da Líbia ao Bahrein. Pois o Egito, esse país orgulhoso, berço de uma antiga civilização e atualmente o lar de 85 milhões de pessoas, há muito tempo é considerado, com razão, o líder natural do mundo árabe. Quando os egípcios se ergueram de modo irresistível para derrubar a ditadura de 30 anos de Hosni Mubarak, transformaram um conceito nebuloso, a Primavera Árabe, em uma realidade inspiradora para povos oprimidos em toda parte (e não apenas árabes). Se o Egito caísse hoje em um tumulto desordenado, as implicações para a região como um todo, e para aquela esperança comum de libertação, seriam desanimadoras.

O assunto de que mais se fala no Egito é uma "segunda revolução" para continuar ou concluir a primeira. Mas o perigo é que, ao buscar aperfeiçoar ou redirecionar a transformação que começaram de maneira gloriosa, os egípcios, apanhados em uma tempestade de discórdia que pode degenerar em violência, possam perder os ganhos conquistados e ser varridos para trás, contra a maré da história, para os becos sem saída do autoritarismo, da repressão e do silêncio forçado. O que foi conquistado pode ser perdido. O que virá a seguir poderá ser muito, muito pior.

Falando ao exército na semana passada, o general Abdel Fattah al-Sisi advertiu sobre um "túnel escuro" à frente e pediu que as facções rivais busquem um consenso. Desta vez, os militares, que inclinaram a balança contra Hosni Mubarak, mas cuja independência virtual hoje é fortalecida pelas garantias constitucionais do presidente Morsi, parecem não querer um papel tão central. Mas o general Sisi foi claro ao dizer que se a nação for ameaçada ele não hesitará. O resultado de mais um golpe militar poderia não ser tão relativamente benigno, nem tão breve, quanto em 2011. A perspectiva é principalmente desanimadora, apesar dos gestos e acenos mal interpretados de líderes da oposição secular como Mohamed El Baradei. Mas também não é o caso, apesar das enxurradas de retórica zombeteira de todos os lados, de que o "consenso" do general Sisi seja impossível. Se fizessem uma pausa para respirar, os egípcios poderiam descobrir que todos concordam de maneira veemente com um princípio unificador: querem o melhor para seu país. A única pergunta, embora complexa, é como alcançar isso e ao mesmo tempo permanecer fiel aos ideais da revolução.

Certamente é verdade que o presidente Morsi fez, de modo geral, um mal uso do cargo que lhe foi entregue cautelosamente, com muita incerteza, e mal conseguiu 51% dos votos nas eleições do ano passado. O imperativo de evitar uma violenta implosão não é um argumento, muito menos uma justificativa, para que seu governo continue. O presidente deixou de construir a administração inclusiva que prometeu, com coptas e mulheres, e decepcionou os eleitorados. Promoveu uma Constituição que foi indulgente demais com os militares, e islâmica demais em caráter, para a tranquilidade dos habitantes seculares ou não religiosos do Egito. Ele atacou, ou pareceu atacar, o Judiciário e a mídia independente. Deixou de conter uma polícia às vezes brutal, que caiu totalmente em desgraça em Port Said em janeiro. E fez algumas nomeações lamentáveis, como a do governador de Luxor, de curto mandato, um ex-jihadista ligado ao grupo extremista que em 1997 assassinou dezenas de ocidentais naquele famoso destino turístico.

Respondendo aos críticos, o presidente tornou-se cada vez mais parecido com Mubarak, preferindo encontrar conspirações de "inimigos do Egito" a abordar a substância de seus argumentos. Nessas avaliações equivocadas ele foi apoiado pela Irmandade Muçulmana, que parece incapaz de administrar sua passagem de grupo de pressão proscrito a autoridade governante. Apesar do apoio confuso e intrometido que lhe deu o governo Obama, a renúncia do presidente Morsi não daria necessariamente um golpe fatal na jovem democracia egípcia. Fora dos EUA, primeiros-ministros e presidentes renunciam todos os dias e convocam eleições quando sentem que perderam a confiança do público. Dependendo do que acontecer nos próximos dias, o presidente Morsi poderá sentir que esse é o rumo honroso e responsável.

Mas a demissão de Morsi, novas eleições, um governo transitório de tecnocratas, uma Constituição revisada e todas as outras polêmicas reformas da "segunda revolução" conjurada por seus críticos dependem crucialmente de um comportamento também honroso e responsável das forças díspares de oposição. Isto não aconteceu até agora. Os antigos defensores do regime, nacionalistas de direita, seculares liberais, revolucionários puristas e os salafistas linha-dura que manobram nas laterais da Irmandade Muçulmana parecem concordar em pouca coisa além de seu desdém pelo presidente. Se a atual campanha de Tamarod (rebelião) conseguir removê-lo, é totalmente obscuro como uma autoridade civil interina poderia ser constituída ou atuaria. Isso não quer dizer que não se deva tentar, se a população o quiser. Mas a massa popular, na maior parte, continua forçosamente mais preocupada de modo fundamental com a vida cotidiana, com a crescente crise econômica do Egito. Os preços dos alimentos disparados, a falta de combustível, de empregos e de oportunidade educacional, a queda das reservas do governo e do crédito, e todos os problemas que acompanham a crescente pobreza são questões prementes para as quais a oposição, assim como o presidente Morsi, não tem respostas prontas e verossímeis. Mas este é sem dúvida o desafio existencial mais urgente do Egito.

Nesse contexto maior, cronicamente instável, parece inegável a necessidade de se alcançar um consenso sobre um caminho a seguir que envolva todas as diferentes facções, assim como o presidente Morsi e a Irmandade, de um compromisso nacional histórico, embora confuso e insatisfatório, de um esforço coletivo para levar o país à próxima etapa de seu desenvolvimento pós-revolução. O Egito literalmente não tem condições de lutar. O mundo árabe aguarda sua opção. A Primavera Árabe, aquele frágil brotamento, aguarda seu exemplo. O mantra da revolução, "pão, liberdade, justiça social", deve ser honrado. Mas o pão vem primeiro.

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