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Gianni Carta

Egito: Revolução inacabada

por Gianni Carta publicado 22/11/2011 16h08, última modificação 23/11/2011 09h36
Às vésperas de legislativas, conflito entre Conselho militar e manifestantes secularistas deixou dezenas de mortos. Se o pleito ocorrer a contenda poderá ser religiosa
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Seu objetivo é ficar no poder a qualquer preço. Foto: AFP

A revolução no Egito continua. Na praça Tahir, no Cairo, onde em janeiro teve início o movimento que derrubaria o ditador Hosni Mubarak, os embates continuavam nesta terça-feira 22.

A contenda, travada na mesma praça Tahir desde sexta, acontece às vésperas das primeiras legislativas desde a queda de Mubarak, em fevereiro. Marcado para 28 de novembro, é possível que o pleito não ocorra.

Afetada pelos distúrbios, a Bolsa de Cairo anunciou uma suspensão temporária das suas atividades nesta terça após uma queda de 4,48% de seu índice de referência EGX-30. O pregão acabou fechando em baixa de 4,77%.

Os manifestantes lutam contra os militares do CSFA (Conselho Supremo das Forças Armadas). Dezenas de pessoas já morreram, centenas ficaram feridas.

A repressão não poupa civis, jornalistas, blogueiros e trabalhadores em greve. Segundo a Anistia Internacional, 12 mil civis já foram processados em tribunais federais. Pelo menos 13 foram condenados à morte.

Para muitos daqueles a protestar, os generais no poder são uma extensão do velho regime de Mubarak. E estão cobertos de razão. Por exemplo, o chefe do CSFA responde por marechal Hussein Tantawi. Durante duas longas décadas ele foi o ministro da Defesa de Mubarak.

O Conselho militar, parece límpido, quer se manter no poder a qualquer preço. Não somente os militares não mantiveram as promessas de reformas, mas também continuam a usar a mesma brutalidade contra a oposição à imagem das forças de Mubarak.

Por exemplo, o povo é contrário ao fato de os militares quererem manter certos poderes após o governo interino ser entregue a um presidente civil. Pior: a eleição presidencial deveria acontecer em 2013, e não em abril, como quer o povo.

Os militares, como é de praxe, falam no perigo de “forças invisíveis”. Quem são essas forças invisíveis? Os radicais islâmicos, ou, para sermos mais específicos, a Irmandade Muçulmana.

No entanto, a Irmandade Muçulmana tornou-se muito mais moderada do que, por exemplo, os salafitas. O problema dos militares é outro: a Irmandade Muçulmana tem grandes chances de vencer as legislativas – de novo, se elas acontecerem – no dia 28.

Criada em 1928, a Irmandade Muçulmana foi perseguida por Mubarak. No passado, ela lutou contra a ocupação britânica e tentou assassinar o ex-presidente Gamal Abdel Nasser, em 1954.

Ao longo dos anos tornou-se mais democrática, nos moldes do AKP, partido islâmico no poder na Turquia. É contrária à violência, mobilizou milhões de seguidores através de ONGs e sindicatos.

E não está participando dos protestos.

Para numerosos egípcios, a Irmandade Muçulmana poderia trazer estabilidade ao país.

Mas os militares não pensam da mesma forma. E nem Washington. O apoio do Tio Sam é fundamental para o governo interino. Washington envia anualmente US$1,3 bilhão em ajuda econômica ao Egito. Essas remessas continuarão caso o “Secretário de Estado se certificar que o governo do Egito não esteja controlado por uma organização terrorista”.

A estratégia do CSFA é, segundo o semanário norte-americano The Nation, no mínimo perigosa. O Conselho está dando maior espaço político para salafitas e outros grupos muçulmanos radicais. O motivo? Criar uma rixa entre muçulmanos moderados e extremistas para, assim, justificar seu controle sobre o país.

Se por ora o confronto é entre militares e secularistas, em breve, caso haja eleições e a Irmandade Muçulmana saia-se vencedora, o conflito poderá se tornar religioso.

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