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Egito: podemos desprezar a Irmandade Muçulmana, mas um golpe é um golpe

por The Observer — publicado 21/08/2013 08h31
Europa e EUA precisam aceitar que a Irmandade Muçulmana pode ser detestável, mas não aboliu a democracia
Mahmoud Khaled / AFP
Egito

Quando um Estado massacra 600 manifestantes, não assassina apenas seus próprios cidadãos. Também mata a possibilidade de um acordo. Os perpetradores querem deixar claro que não há como voltar atrás

Por Nick Cohen

Quando um Estado massacra 600 manifestantes, não assassina apenas seus próprios cidadãos. Também mata a possibilidade de um acordo. Os perpetradores querem deixar claro que não há como voltar atrás. Quando eles matam, têm plena consciência de que estão derramando sangue demais para que a política normal entre em ação e permita que as diferenças sejam emendadas e acordos, alcançados.

Os assassinos têm a arrogância de gângsteres. "Sabemos que estamos burlando todos os critérios básicos do comportamento civilizado", parecem dizer. "Sabemos que as pessoas vão nos odiar até o dia de nossa morte pelo que fizemos hoje. Mas, sabe de uma coisa? Não nos importamos."

O resto do mundo pode não se importar com o terror revolucionário, ou contrarrevolucionário, no Egito -- e, por motivos, nossa incapacidade de chegar a um acordo sobre como chamá-lo fala alto. Todo mundo, de políticos a cidadãos preocupados, diz se importar, é claro. Mas até onde? Confesso que, embora eu lamente o assassinato de manifestantes e a suspensão da democracia, não consigo sentir qualquer identificação visceral com os homens e mulheres reacionários da Irmandade Muçulmana.

Não é como se os militares de Mianmar tivessem prendido Aung San Suu Kyi, cerceado os líderes da Liga Nacional pela Democracia e restaurado a junta. Então eu saberia como me sentia e como reagir -- do mesmo modo que, suspeito, centenas de milhões de pessoas ao redor do mundo. Mas, quando a mesma coisa acontece no Egito, compreendo o que está errado na teoria, mas não posso sentir uma verdadeira raiva na prática.

Estamos habituados a revoluções que tiraram as pessoas boas da cadeia, para usar uma linguagem infantil: Mandela, Havel, Suu Kyi. Elas ocorreram em toda parte, exceto no Oriente Médio, onde a opção é entre autoritários seculares, ou ocasionalmente seculares, e islamitas -- entre "fascistas de uniforme e fascistas com Corão", como diz a feminista egípcia Mona Eltahawy, com um leve toque de exagero. Essa não é uma opção.

Mesmo os elementos pró-islamitas da esquerda europeia, que envergonham a política radical há uma década, hoje estão calados. As ruas de Londres, Paris e Berlim não estão cheias de manifestantes a pedir que o processo democrático seja seguido e a vontade da população egípcia (embora por uma pequena maioria), respeitada.

Quando interessa, quando existe a menor possibilidade de que a reação internacional faça uma diferença, eles encolhem os ombros e ficam em casa, como todo mundo. Quem pode culpá-los? Que pessoa decente pode sentir qualquer afinidade com um movimento obscurantista e sectário? Antes de sua remoção do poder, a Irmandade mostrou sua mentalidade ao denunciar uma iniciativa da ONU para pôr fim à violência contra as mulheres.

Enquanto a mídia liberal se esquece de cobrir essas histórias, deixe-me compensar seus pecados de omissão e indicar que a Ikhwan (Irmandade) descreveu as proibições da ONU contra o estupro marital, e seus pedidos de liberdade para as mulheres viajarem, trabalharem e usarem anticoncepcionais sem a autorização de seus maridos como "ferramentas destrutivas que se destinam a minar a família como uma instituição importante... subverter toda a sociedade e arrastá-la para a ignorância pré-islâmica".

Se você adota a crença racista, como muitos falsos liberais, de que é "imperialismo cultural" preocupar-se com os direitos de mulheres de pele escura, veja como a Irmandade forçou a aprovação de uma Constituição que deixou de mencionar os direitos da minoria cristã (assim como os das mulheres) e ofereceu proteções frágeis à liberdade de expressão. Decidido a remover as restrições legais e ilegais ao seu poder, o hoje ex-presidente Mohamed Morsi se colocou além da força da lei. Seus seguidores disseram que os bancos do Judiciário egípcio estavam cheios de adversários da Irmandade, e não havia muita verdade nisso. Mas existe um pouco de verdade na acusação dos conservadores britânicos de que as fileiras do Judiciário inglês estão cheias de liberais do establishment com uma preocupação excessiva por direitos humanos. Se David Cameron colocasse seu governo além do regime da lei, porém, você teria um bom motivo para temer pela liberdade britânica. Você poderia até pensar que a direita britânica estava encenando um golpe de Estado próprio.

Todo mundo deveria compreender por que tantos egípcios disseram que a ideia de democracia da Irmandade era "uma pessoa, um voto, uma vez" e por que eles disseram aos duvidosos: "Hitler também foi eleito". Eu e provavelmente você teríamos protestado na Praça Tahrir contra Morsi se fôssemos egípcios. Poderíamos ter aderido aos milhões do inspirador movimento Tamarod. Certamente teríamos sentido que a revolução egípcia fora traída. Depois de tanta esperança em um futuro melhor, ver os homens perversos e ignorantes da Irmandade assumirem o poder.

Mas, devidamente anotadas as objeções legítimas, a Irmandade ainda não é o partido nazista. Pode ser um movimento religioso de direita detestável, mas não aboliu a democracia ou tornou a oposição ilegal. E contar com os militares para removê-lo é extremamente ingênuo. O exército egípcio suprimiu a dissidência desde 1952. Para acrescentar o roubo ao assassinato, ele construiu um complexo militar-industrial que mantém os egípcios pobres ao impedir que novas empresas concorram com os monopólios de elite que ele controla.

Ziad El-Alemi, um líder dos social-democratas egípcios, acreditava que depois do golpe de algum modo os progressistas egípcios poderiam contar com o exército para refrear a Irmandade e ao mesmo tempo levar os defensores do aparelho de segurança de Mubarak a responder por seus muitos crimes. Os social-democratas estavam tão convencidos de que conseguiriam tudo isso, que ocuparam lugares no governo de transição. Eu me pergunto se, depois da exibição de força bruta na semana passada, ainda acreditam que eles ou qualquer outra pessoa possa conter os militares.

Por mais difícil que seja dizer isso, os governos da União Europeia e dos Estados Unidos têm de afirmar seus princípios e chamar um golpe de golpe. A ajuda e as relações diplomáticas normais devem depender da libertação de prisioneiros políticos, da restauração das liberdades civis e do retorno à democracia, mesmo que isso signifique uma volta de Morsi ao poder até a próxima eleição. Os liberais ocidentais também deveriam se mexer. Escrevi antes sobre seu fracasso em escutar os liberais do mundo árabe -- ou mesmo reconhecer sua existência. Mas o tráfego deve correr nos dois sentidos.

Não é falta de respeito ou condescendência lhes dizer que a ideia de uma boa sociedade construída nas costas de um governo dominado por militares é sempre improvável. No caso dos militares egípcios não é improvável, é simplesmente impossível.

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