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Egito: o fiel da balança para Israel e Irã

por Viviane Vaz, em Jerusalém — publicado 07/02/2011 16h00, última modificação 08/02/2011 10h47
Premiê israelense promete aceitar construções palestinas em Jerusalém Oriental; o líder religioso iraniano, Ali Khamenei, garante que o protesto no Egito é “despertar islâmico”. Por Viviane Vaz, de Jerusalém

O premiê israelense, Benjamin Netanyahu, acena aos árabes e promete aceitar construções palestinas em Jerusalém Oriental; o líder religioso iraniano, Ali Khamenei, garante que o protesto no Egito é “despertar islâmico”

Israel e Irã, dois países no Oriente Médio formados por uma maioria de não-árabes, observam com atenção à crise política no Egito. Por um lado, o governo do premiê israelense, Benjamin Netanyahu, teme que a queda da ditadura do egípcio Hosni Mubarak abra caminho para um governo radical islâmico que dê fim ao tratado de paz entre Israel e Egito, um dos poucos países árabes que reconheceu suas fronteiras. Por outro, de olho na oposição interna, o regime islâmico do Irã tenta convencer o mundo de que a onda de protestos no Egito se deve “ao acordar do Islã” no Oriente Médio. “Os faraós costumam ouvir a voz da nação quando já é muito tarde”, disse no fim de janeiro o líder da oposição iraniana, Mir Hossein Mousavi, para quem o atual sistema em Teerã também correria o risco de ser derrubado.

Procurado pela Carta Capital, o analista iraniano residente em Tel Aviv, Meir Javendanfar, destacou que o fato de milhares de egípcios desafiarem as forças de segurança e irem para as ruas para exigir mais posto de trabalho “deve ter deixado os líderes iranianos nervosos”. “A situação econômica no Irã está se deteriorando. Mudanças recentes no programa de subsídios aumentaram o preço dos alimentos e de outras commodities”, diz Javendanfar. No âmbito político, o analista iraniano recorda que o presidente Mahmud Ahmadinejad foi reeleito em um processo controverso, visto por milhões como fraudulento. “Há um número crescente de iranianos que também consideram viver sob uma ditadura”, compara.

Em Israel, a preocupação da coalização de governo de Netanyahu é com a segurança das fronteiras. Em entrevista à CNN na quinta-feira, o porta-voz da Irmandade Muçulmana no Egito, Mohamed Morsy, se esquivou de afirmar se o grupo opositor à ditadura de Mubarak estava de acordo em manter o tratado de paz do Egito com Israel, mencionando apenas que Israel falhou em honrar o tratado.

Em artigo publicado pelo Asian Times, o embaixador indiano M.K Bhadrakumar ressalta que o acordo de paz entre Israel e Egito assinado em 1979 permitiu a Israel aumentar os gastos com defesa e concentrar as forças armadas “no chamado front norte --Síria, Líbano e Irã-- e nos assentamentos palestinos”. “A incerteza no Egito os leva a necessitar um maior deslocamento de forças no sul, especialmente no corredor entre o Sinai e Gaza, que as guerrilhas palestinas utilizam como fonte de abastecimento”, afirma Bhadrakumar. O fornecimento de gás é outro tema que preocupa Israel. Na sexta-feira, Netanyahu garantiu que as reservas de Leviatã e Tamar satisfaziam as necessidades do país para os próximos 10 anos, mas reconheceu que ainda dependiam do gás proveniente do Egito. No dia seguinte, desconhecidos explodiram o gasoduto egípcio que fica no monte Sinai e abastecia Israel.

Islã na política

Para o filósofo esloveno, Slavoj Žižek, cujo artigo foi publicado na íntegra pela Carta Capital, as revoltas na Tunísia e no Egito refletem a “conspícua ausência do fundamentalismo muçulmano”. “Na melhor tradição secular democrática, o povo simplesmente se revoltou contra um regime opressor, sua corrupção e pobreza, e exigiu liberdade e esperança econômica”, diz. No entanto, nas palavras do supremo líder religioso do Irã, aiatolá Ali Khamenei, os eventos no norte da África, Egito e Tunísia tem um “significado especial”. “É o mesmo que o 'despertar islâmico', que resultou na vitória da grande revolução da nação iraniana”, disse Khamenei hoje, de acordo com a agência de notícias oficial Irna.

Para o professor de Ciências Políticas da Universidade de Teerã, Mohamed Marandi, a Irmandade Muçulmana é atualmente o ator político mais organizado do Egito. “A Irmandade Muçulmana é o grupo opositor mais importante no país e tem desempenhado um papel chave no atual levante. Então, obviamente eles jogarão um papel central no futuro político do Egito”, disse Marandi em entrevista à Carta Capital. “Se o atual regime cair, eles provavelmente liderarão o Egito para longe da hegemonia ocidental e americana e advogarão uma maior independência cultural e intelectual do Ocidente”, completou.

Marandi considera ainda que os iranianos veem os eventos no Egito, Tunísia e Líbano como o enfraquecimento da hegemonia ocidental no Oriente Médio e no norte da África e fortalecer os laços do Irã na região. Os iranianos esperam melhorar o diálogo com o Egito após a queda do ditador. Em telegramas diplomáticos vazados pelo Wikileaks em 2010, Mubarak teria dito que os líderes iranianos são “grandes, gordos mentirosos” e que apoiariam o terrorismo.

Netanyahu, por sua vez, tenta evitar o completo isolamento e acena melhorar o diálogo de Israel com os árabes palestinos. Em encontro com o Quarteto para o Oriente Médio (EUA, Rússia, União Europeia e ONU) na sexta-feira, mesmo sem o apoio do chanceler Avigdor Lieberman, Netanyahu concordou com a proposta de construção de mais residências para palestinos na parte leste de Jerusalém e aliviar o bloqueio em Gaza para entrada de materiais de construção. Hoje, o secretário de Defesa britânico, Liam Fox, explicitou o argumento de que a “solução de dois Estados – um seguro e universalmente reconhecido Israel, junto como o estado palestino contíguo – é importante para dissipar a influência política maligna do Irã na região”.

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