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Oriente Médio

Egito e Israel: a instabilidade vem do Sinai

por José Antonio Lima publicado 16/07/2013 16h07, última modificação 17/07/2013 08h52
Egípcios preparam operação contra extremistas na Península do Sinai, mas o desfecho deve ser o agravamento da violência no país
AFP
Tanque de guerra Sinai

Tanque de guerra do Exército do Egito chega em El-Arish, antes do início de uma grande operação militar na região do Sinai

Um ataque contra um ônibus que transportava funcionários de uma fábrica de cimento, nas primeiras horas da segunda-feira 15, pode ter levado a um novo patamar o crescente conflito entre o Exército do Egito e os grupos radicais da Península do Sinai, no noroeste do país. A região, que vem experimentando uma escalada de violência desde a derrubada do ex-presidente Mohamed Morsi, no dia 3, é um ponto sensível no Oriente Médio. A península abriga a tríplice fronteira entre Egito, Israel e a Faixa de Gaza, controlada pelo Hamas, e pode se tornar foco de grande instabilidade no curto prazo.

De acordo com as informações da imprensa egípcia, o ônibus foi atingido por granadas lançadas a partir de foguetes manuais quando passava por El-Arish, capital do governorado do Sinai do Norte. Na explosão, pelo menos três pessoas morreram e 17 ficaram feridas. Um porta-voz do Exército do Egito afirmou que o alvo do ataque era um carro de polícia que passava perto do ônibus, mas ninguém foi preso. A veracidade da informação passada pelas Forças Armadas não pode ser verificada, mas o fato de os militares estarem preparando uma grande operação na região, segundo relatou a agência AFP na terça-feira 16, indica que o conflito deve crescer.

Conquistada por Israel na Guerra do Yom Kippur (1973), a Península do Sinai é habitada majoritariamente por beduínos, um povo árabe habitante do deserto, muito ainda parcialmente nômades. Após a desocupação israelense (1979), o governo do Egito prometeu uma série de benesses para essa população, mas quase nada foi feito. Apenas os balneários do sul da península, como Sharm el-Sheikh, cresceram, mas os ganhos ficaram concentrados nas mãos de ex-militares e ricos empresários ligados ao regime, que receberam licenças para construir os resorts e outras instalações turísticas na região. Para o resto da população beduína, o abandono do Estado é a regra, assim como o preconceito dos moradores de grandes cidades, como o Cairo e Alexandria. Hoje, cerca de 90% dos beduínos não têm emprego.

Durante a ditadura de Hosni Mubarak, o Exército do Egito mantinha uma presença intensa na região, mas com a instabilidade provocada pela chamada Primavera Árabe, o controle militar arrefeceu. No vácuo de segurança, grupos extremistas, inclusive estrangeiros, se instalaram entre os beduínos e passaram a atacar interesses do governo.

A eleição de Morsi e a chegada da Irmandade Muçulmana ao poder reduziram levemente a tensão, pois os extremistas do Sinai, apesar de verem os irmãos muçulmanos e até mesmo os ultraconservadores salafistas como “moderados demais", tinham certa simpatia ideológica por esses grupos. A derrubada de Morsi, entretanto, abriu as portas para a violência, e alguns desses extremistas prometeram pegar em armas para defendê-lo.

Nos últimos dez dias, os extremistas mataram ao menos dez militares e policiais egípcios, além de dois cristãos coptas (maior minoria do Egito, com cerca de 10% da população). Um dos cristãos foi decapitado e o outro, um padre, foi fuzilado. Alguns dos ataques mostraram a audácia desses militantes. Além de dutos de gás que abastecem Israel e a Jordânia, estavam entre os alvos o aeroporto de El-Arish e um prédio do governo na mesma cidade.

Israel. A violência no Sinai é particularmente preocupante para Israel, por dois motivos. Em primeiro lugar, porque seus interesses também são alvo dos extremistas. Em agosto de 2012, já no mandato de Morsi, 16 guardas de fronteira egípcios foram assassinados por extremistas. Os militantes roubaram seus veículos e cruzaram a fronteira, mas acabaram mortos pelo Exército israelense. Na segunda-feira 15, antes do ataque contra o ônibus em El-Arish, dois homens mascarados atiraram contra a fronteira com Israel, sem deixar feridos. Para Israel, a instabilidade no sul obriga o governo a realocar parte das tropas para a região. Durante o governo Mubarak, isto não era necessário pois o tratado de paz entre Egito e Israel prevê que o Sinai seja uma região desmilitarizada.

O segundo ponto de preocupação de Israel é o Hamas. Aliado ideológico da Irmandade Muçulmana, o grupo ganhou força política com a chegada de Mohamed Morsi ao poder. Sua derruba e a ascensão dos militares egípcios, hostis ao Hamas, têm causado dificuldades ao grupo. Centenas de túneis clandestinos que ligam a região do Sinai à Faixa de Gaza foram destruídos nos últimos dias e um helicóptero do Egito chegou a cruzar a fronteira com o território palestino na semana passada, num sinal de que o Hamas não terá vida fácil no Egito pós-Mubarak. As reações do Hamas à nova onda de pressão são ainda imprevisíveis.

Futuro. Para conter os ataques, as Forças Armadas do Egito têm realizado diversas operações no Sinai. Segundo informou uma fonte militar à agência oficial egípcia Mena no domingo, 37 pessoas, supostamente extremistas, foram mortas e 42 ficaram feridas em combates com os militares nos últimos 15 dias. A nova operação, divulgada pela AFP, deve ser de grande monta. O Egito está enviando dois batalhões militares para El-Arish e Sharm el-Sheikh após conseguir a anuência do governo de Israel, condição prevista no tratado de paz. A não ser que os militares estejam planejando um massacre, o reforço das operações de combate no Sinai tende apenas a acirrar o conflito, aumentar a violência e aprofundar o ressentimento da população local com o governo central.

A solução a longo prazo para os problemas daquela isolada região passa pelo distante Cairo. O extremismo religioso floresce na pobreza, na impossibilidade de trabalhar e abrir os próprios negócios e no respeito aos direitos sociais de populações abandonadas. Para desestabilizar as bases do radicalismo, seria preciso lidar com essas questões. Ocorre que só um processo político capaz de conciliar secularistas e os adeptos do islã político permitirá a formação de um governo estável, responsável por prover serviços eficientes não apenas para as grandes cidades egípcias, mas também para a Península do Sinai.

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