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Tensão no Egito pode provocar violência generalizada?

por José Antonio Lima publicado 20/06/2012 18h55, última modificação 06/06/2015 17h36
Por conta de irregularidades, comissão eleitoral adia a divulgação dos resultados da eleição presidencial
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Apoiadores de Morsi se reúnem em protesto na praça Tahrir, no Cairo, na terça-feira. Foto: Mohammed Abed / AFP

No Egito, as teorias da conspiração florescem com uma velocidade impressionante. Em questão de dias, às vezes horas, um fato anunciado pela imprensa ganha inúmeras versões, nas quais Israel, os Estados Unidos, militares e o grupo fundamentalista Irmandade Muçulmana aparecem costumeiramente como os principais "culpados". Nesta quarta-feira 20, a Comissão Eleitoral, responsável pela divulgação do resultado da eleição presidencial do último fim de semana, criou um novo fato para alimentar os teóricos da conspiração. O anúncio oficial do novo presidente, programado para esta quinta-feira 21, está adiado, possivelmente para sábado ou domingo. A notícia é preocupante pois tanto o fato em si quanto os boatos ao redor dele devem ajudar a acirrar ainda mais os ânimos no Egito.

O adiamento foi provocado pelas cerca de 400 denúncias de irregularidades cometidas nas eleições. As acusações têm como alvo os dois candidatos, o islamista Mohammed Morsi e o ex-militar Ahmed Shafik. Desde segunda-feira, os dois lados reivindicam a vitória com veemência. A "certeza" é tanta que a campanha de Shafik, ex-primeiro-ministro do ditador Hosni Mubarak (que está à beira da morte), chegou a divulgar um resultado (favorável a Shafik) no qual ambos candidatos tinham mais de 50% dos votos, uma impossibilidade matemática. O Partido Liberdade e Justiça, braço político da Irmandade Muçulmana, também é assertivo ao "garantir" a vitória de Morsi. Por trás da confiança exagerada dos dois lados está o medo mútuo. Para os irmãos muçulmanos (e muitos setores não religiosos da sociedade egípcia), a chegada de Shafik ao poder representa a continuidade da ditadura de Mubarak. Para os apoiadores de Shafik, a Irmandade quer transformar o Egito numa teocracia semelhante à do Irã. Nenhuma das duas teorias parece ter razão de ser. A junta militar que controla o Egito há 16 meses não tem interesse em nenhum dos dois desfechos.

Ainda assim, o temor de que o anúncio dos resultados provoque violência existe. Nesta quarta, Khairat al-Shater, o principal líder da Irmandade Muçulmana, afirmou ao jornal Egypt Independent que seu grupo não recorrerá a armas. "A violência não é a abordagem da Irmandade", disse. "Podemos estar em desacordo com as autoridades, mas não com o povo", afirmou. Ainda assim, membros do grupo reconhecem que há temores. "O adiamento vai trazer mais tensão às pessoas, eles deveriam divulgar amanhã (quinta-feira)", disse Nader Omran, porta-voz da campanha de Morsi à rede de tevê britânica BBC.

Além do poder dos militares, que provavelmente tentariam evitar um desfecho violento para a transição "democrática" do Egito, outros três fatores indicam que a violência generalizada não deve estar no destino egípcio. Em primeiro lugar, o Egito não tem grandes divisões sectárias, como a Síria e o Líbano, maior combustível para os massacres no Oriente Médio. Pode-se alegar que a Argélia, etnicamente homogênea como Egito, embarcou numa terrível guerra civil nos anos 1990, após uma vitória eleitoral de partidos islâmicos, mas aqui entram dois outros fatores. Os grupos fundamentalistas armados do Egito se extinguiram após aterrorizar o país nos anos 1980 e 1990. Uma dessas facções, o Grupo Islâmico, se tornou partido político. A Irmandade Muçulmana rejeitara a violência antes disso, ainda nos anos 1970. Assim, não é tão óbvio que uma guerra civil pode começar a qualquer momento. Outro fator a ser levado em consideração é a rejeição da sociedade egípcia à violência, o que surgiu exatamente por conta do banho de sangue dos anos 1980 e 1990. Uma campanha de ataques contra as autoridades falharia em obter apoio popular.

O caminho do Egito é árduo, e recentemente sofreu um grande retrocesso com a dissolução do Parlamento e o golpe branco da junta militar, que assumiu os poderes legislativos. A "batalha" no Egito deve se dar de forma institucional, com a formação de um novo Legislativo, a luta da sociedade por reformas no Judiciário de forma a torná-lo independente e inúmeras disputas a respeito de aspectos da vida civil, como o papel das mulheres e da religião. Não será um futuro simples, mas se realmente não for marcado pela violência generalizada, pode trazer bons frutos a longo prazo.

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