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E o rico Israel, perplexo

por Gianni Carta publicado 23/02/2011 10h12, última modificação 06/06/2015 18h17
Dúvidas, temores, esperanças misturam-se na reação dos judeus
E o rico Israel, perplexo

Dúvidas, temores, esperanças misturam-se na reação dos judeus. Por Gianni Carta, de Tel-Aviv. Foto: Jack Guez/ AFP

Dúvidas, temores, esperanças misturam-se na reação dos judeus

O clima, quente para uma estação invernal, parece embalar os habitantes de Ramat Gan, centro industrial hoje bastante comercial nas cercanias da opulenta Tel-Aviv, espécie de pequena Nova York com a vantagem de ser acariciada pelas águas do Mediterrâneo. Lojas, cafés e restaurantes lotados especializados em kebabs. E abundância de hommus, grão-de-bico, o único aparente sólido elo a dar sabor aos kebabs e a unir israelenses e árabes. Não parece que a inesperada revolta tunisiana, e seu efeito dominó agora a varrer o mundo árabe, inclusive o Egito, onde foi deposto o aliado de Israel e do Ocidente, o presidente Hosni Mubarak, afete, pelo menos de maneira evidente, a vida dos transeuntes nas calçadas da Rua Biliak, em Ramat Gan.
Mas a realidade é outra. Na noite de quarta 16, três palestinos de 20 e poucos anos foram mortos por soldados israelenses em uma zona proibida e ocupada por Israel. Aconteceu na fronteira de Gaza. Parentes dizem que os jovens, desarmados, buscavam conchas. O Hamas, movimento político eleito em 2006 em Gaza, e desde 2007, quando impedido de formar governo no controle do Estreito de Gaza, não havia, pelo menos até a quinta 17, reconhecido os jovens como integrantes do movimento.
Ao mesmo tempo, o Hezbollah, movimento xiita do Líbano, com presença no Parlamento libanês e um braço armado, ameaça, segundo Israel, atacar a Galileia. Quatro embaixadas israelenses fecharam as portas durante a semana por causa do terceiro aniversário da morte de um líder do Hezbollah. Imad Mughniyeh, que, segundo- a versão dos seus correligionários, foi assassinado pelo Mossad.
Sorvendo café em Ramat Gan, Philip Zundeloyitch, comentarista de uma rádio local, diz: “Essas pessoas que você vê na rua comportam-se dessa forma descontraída porque são resilientes, já passaram por vários conflitos, guerras”. Ramat Gan, onde agora estamos sentados, foi bombardeada, em 1991, por Scuds- iraquianos. Zundeloyitch está preocupado com o futuro. “Essa incerteza quanto ao destino político do Egito, do Irã e de outros países árabes suscita em nós uma enorme ansiedade.”
As inquietudes de Zundeloyitch foram confirmadas em outras entrevistas realizadas por CartaCapital. O governo militar egípcio de transição de fato respeitará o acordo de paz assinado entre Israel e o Egito, em 1978? Segundo as autoridades interinas egípcias, elas se dizem prontas a respeitar todos os acordos internacionais, não somente com Israel.
A embaixadora brasileira em Tel-Aviv, Maria Elisa Berenguer, diz que, “como observadora”, constatou um real- interesse por parte de autoridades israelenses num processo democrático no Egito. E não se pode descartar um novo governo egípcio, continua a embaixadora, incapaz de estabelecer uma “democracia válida”, isenta de “solidez para lidar com uma contrarrevolução”. Isso porque por anos a fio Mubarak oprimiu a oposição, hoje talvez mal preparada para assumir o poder.
Para Erin Schrode e Sarina Bang, duas- estudantes da New York University em Tel-Aviv, assusta o Irã, em nova revolta após aquelas a contestar a legalidade das eleições presidenciais no país em 2009. Isso a despeito de o novo movimento naquele país ser, como dois anos atrás, laico, da mesma forma que se deu na Tunísia e no Egito. Na sua retórica de eliminar Israel do mapa, dizem as estudantes, Teerã quer, após ironicamente ter aplaudido reformas no mundo árabe, impor a pena de morte aos seus dois maiores opositores. “Levando em conta a repressão contra os manifestantes em 2009, desta vez o quadro poderá ser ainda pior”, sustenta Schrode, de 19 anos.
No Knesset, o Parlamento israelense, o premier Benjamin Netanyahu abordou, na semana, os diversos conflitos dentro do seu país. Tratou com maior cautela, porém, o mais premente deles, aquele entre árabes-israelenses, judeus-israelenses e israelenses e palestinos. Netanyahu preferiu dar ênfase às “oportunidades que o Egito poderia trazer” ao Oriente Médio. E acrescentou, sempre se referindo ao Cairo: “Quanto mais fortes os fundamentos democráticos, mais fortes os fundamentos para a paz”.
Contudo, martelou Netanyahu, o problema é que Teerã quer transformar o Egito em outra Gaza. E esse seria, segundo o premier, o cerne da questão: o futuro do Egito será determinado pela composição de um novo governo, talvez incluindo a Irmandade Islâmica, prima do Hamas.
Caso o Hezbollah, a Irmandade Muçulmana e o Hamas dominem o quadro, sob os auspícios do Irã, argumenta Netanyahu, teremos “vários anos de -instabilidade pela frente”. Ainda segundo o premier, do partido conservador Likud, essas “imensas revoluções, essas mudanças dramáticas, esse terremoto, nada disso tem a ver conosco”. Mas tais “questões centrais” o premier preferiu discutir em outra ocasião. Netanyahu achou mais conveniente falar sobre a “luta pela paz” e pela “segurança” de Israel. E, como seus antecessores, o premier enfatizou a questão de Israel estar preparado militarmente.
Para recapitular, segundo as posições de Israel, a revolução que derrubou Mubarak foi realizada por jovens em busca de emprego, melhores condições de vida e dignidade. E, na esteira, como na Tunísia e no Egito, e em outros países árabes, luta-se pela dignidade, por democracia e contra ditadores a enriquecer enquanto o povo vive na miséria. Gideon Levy, editorialista do diário israelense de esquerda Haaretz, sublinha que esses tiranos financiados pelo Ocidente garantiam um certo grau de estabilidade. Escreve Levy: “Na sua pobreza e opressão esses países são, ou alguns eram, estáveis”.
Segundo Gal Levy, diretor do programa da New York University em Tel-Aviv e pesquisador da Open University, Netanyahu se apropria de duas existentes noções do imaginário israelense. Israel é um país que busca a paz. E está, ao mesmo tempo, constantemente ameaçado por forças externas. O Exército esta acima de tudo, o soldado é glorificado, é o herói. Essa cultura de “amantes da paz” e, em contemporânea, militaristas é forjada por anos de educação escolar. E depois no serviço militar para mulheres e homens.
“A suposição intrínseca é que somos os amantes de paz, portanto, ninguém se interessa e se aplica no projeto para a obtenção da paz como nós israelenses”, me diz Gal Levy. Mas, quando a ameaça externa aumenta, como pode ou não ser o caso, Israel tem de se defender. O cientista político pondera: “Mas por que não pensar de um modo diferente?”
Como assim? “A maior parte das pessoas, na maioria dos casos, não está interessada na criação de guerra ou paz. Está interessada nas suas próprias vidas.” Normalmente são os governos “que arrastam as pessoas para guerras”, acrescenta Levy. Indago se ele acredita, visto que houve manifestações em Gaza e na Cisjordânia, em solidariedade aos eventos pró-democracia no mundo árabe, incluindo parte dos 20% de palestinos, mas com cidadania em Israel. “Não quero ser profético, mas palestinos-israelenses e palestinos não permanecerão imóveis”, retruca Levy. “Boa parte deles acredita que esses movimentos no mundo árabe poderão beneficiá-los.”
Em Ramallah, Cisjordânia, sou recebido pelo professor Magib Shihade, ex-professor da Universidade da Califórnia, entre outras, e atualmente na Universidade de Birzeit, próxima a Ramallah. Shihade escolheu um café que ostenta uma bandeira brasileira pregada numa das paredes abaixo da televisão. O dono do bar, homem robusto e afável, nasceu no Brasil, e lá viveu um ano. É fã de Ronaldo e lamenta a aposentadoria do Fenômeno. “Mas vai ver era hora”, me diz em inglês com sotaque dos Estados Unidos, onde viveu 20 anos.
A situação na Cisjordânia, como em Gaza, é crítica. Divididos, os dois territórios palestinos buscam há décadas o reconhecimento como Estados soberanos e independentes. Enquanto o Hamas domina Gaza, na Cisjordânia o partido forte é o Fatah. Diante da crise a varrer o mundo árabe, a Autoridade Palestina (AP), a qual deveria estar acima de todos os partidos, anunciou eleições presidenciais, parlamentares e locais, em setembro.
Shihade diz que os motivos são dois: “Mahmoud Abbas, o presidente da AP, quis absorver o choque das revoltas no mundo árabe”. No entanto, “o senhor Mahmoud Abbas não tem legitimidade porque transcendeu seu mandato”, argumenta Shihade. Mais: “Abbas quer mostrar que não é corrupto, e acredita em democracia; e depois dos vazamentos da rede de tevê Al-Jazira, de que negociadores como Saeb Erekat, estariam dispostos a fazer concessões, era importante realizar, finalmente, as eleições’’. Erekat, segundo a Al-Jazira teria oferecido concessões aos seus homólogos israelenses em relação a milhões de palestinos expulsos de suas terras, e mais outras terras em Jerusalém, consideradas sagradas por comunidades muçulmanas (e também judaicas e cristãs).
Mas o Hamas já avisou que em Gaza não haverá eleições. Shihade elenca motivos. De saída, a Palestina continua ocupada. “Por que o Hamas faria eleições supostamente democráticas sob o jugo de Israel?’’ Alem disso, continua o professor, “Israel jamais aceitaria a participação do Hamas num governo na Palestina”.
Em Tel-Aviv, Etgar Keret, enfant terrible da literatura israelense, e também cineasta, está preocupado com o Egito e o Irã. Pergunto de que forma Israel o inspira na sua criatividade. “Israel é um lugar maravilhoso para um escritor exercer sua profissão, mas talvez não o seja para viver”, retruca. Keret, 43 anos, emenda: “Aqui temos judeus de diferentes origens vivendo num lugar minúsculo”. O irmão dele luta pela legalização da maconha, a irmã tem 11 filhos, vota em partido ultraortodoxo.
Keret: “Veja, tudo que eu te disser sobre Israel eu posso dizer o contrário. Somos um velho país que remonta a tempos bíblicos. Mas nascemos em 1948”. E ainda: “Temos um sistema judiciário fantástico, mas nossa democracia ocupa os territórios palestinos”.
Leia a entrevista com o cientista política israelense Gal Levy, .

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