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Tunísia

É o outono do Jasmim?

por Gianni Carta publicado 16/02/2013 09h45, última modificação 19/02/2013 03h52
Com a Primavera em xeque, o futuro é incerto depois do assassínio de Belaid

Governada pela legenda islâmica Ennahda desde as eleições legislativas de 2011, a Tunísia era a prova de que um sistema democrático é compatível com líderes fiéis ao credo de Maomé. Além disso, esse país, que desde sua independência em 1956 é o mais laico de todos aqueles com maioria muçulmana, foi o berço da chamada Primavera Árabe. Após menos de um mês de protestos, em janeiro de 2011 o ditador Zine el-Abidine ben Ali, então no poder havia 23 anos, foi deposto.

No entanto, em uma Tunísia onde os embates têm sido menos sangrentos que em outros países árabes, aqui o menosprezo e a violência contra os menos favorecidos ou os opositores são uma constante. Se já sabemos o desfecho da história do jovem Mohamed Bouazizi, cuja autoimolação em protesto contra o confisco do seu carrinho de legumes provocou a Revolução de Jasmim, por outro lado ainda é uma incógnita o futuro da Tunísia após o assassinato, na quarta-feira 6, do advogado e líder oposicionista de esquerda Chokri Belaid, de 48 anos.

O país está polarizado. De um lado, a oposição acusa o governo de querer reislamizar a Tunísia por meio de intimidação da oposição com a ajuda de milícias como a Liga de Proteção da Revolução, tida como responsável pela morte de Belaid pela própria família do falecido. E além da endêmica corrupção nos sistemas judiciário e administrativo, permanecem ruins os indicadores econômicos. Por exemplo, o nível de desemprego é de 17% (e ainda mais elevado entre os jovens). Do outro lado do tablado político, um dos defensores do Ennahda, Karim ben Ali,  líder do Conselho da Liga de Proteção da Revolução do bairro histórico de Bab el-Khadra, diz para CartaCapital: “Os oposicionistas são antirrevolucionários a serviço de uma agenda ocidental”.

Enquanto isso, o premier Hamadi Jebali, secretário-geral do Ennahda, pretendia formar um governo de tecnocratas apolíticos, mas na quinta 14 fracassou na tentativa. Jebali ameaçava renunciar em caso de malogro. Seu objetivo era acelerar a redação da nova Constituição pela Assembleia, nomear uma comissão eleitoral independente e organizar as próximas legislativas.

O maior obstáculo de Jebali é Rached Ghannouchi, o fundador e presidente linha-dura do Ennahda. Para Ghannouchi, a crise é política e deve ser solucionada por um governo político, não tecnocrata. Jebali parecia disposto a aceitar algum gênero de compromisso, enquanto Ghannouchi afirmava que o partido continuará unido e insistia na necessidade de um gabinete “misto”.

O consenso não prevaleceu, ao menos por hora, ao passo que os três ministros do Congresso pela República (CPR), um das duas legendas de centro-esquerda da coalizão governista (e partido do presidente Moncef Marzouki), resolveram não mais renunciar. Os ministros do CPR se mostravam contrários à formação de um governo tecnocrata, mas continuam a pedir a cabeça de dois colegas do atual governo.

“O governo tecnocrata só serve aos interesses do Ennahda, portanto, a luta continua”, resume Abdel Naceur Aouini, advogado e ativista de direitos humanos, de 40 anos. Aouini é tido como um dos guardiães da Revolução de Jasmim. No dia 14 de janeiro de 2011, ele foi o primeiro a sair pelo centro de Túnis para chamar às ruas os cidadãos entrincheirados em suas casas por causa de um toque de recolher. Pela Avenida Habib Bourguiba, no centro da capital, ele repetia: “Tunisianos, venham às ruas, vocês agora são cidadãos livres, o ditador Ben Ali deixou o país”.

Para Aouini, a morte de Belaid, que liderava o Partido dos Patriotas Democratas, uma das dez agremiações a compor a coalizão esquerdista Frente Popular (FP), “foi um divisor de águas”. Azzouna Jalloul, secretário-geral do Partido do Povo pela Liberdade e Progresso, que integra a Frente Popular, diz: “Exigimos a demissão do premier, de seu governo e dos outros partidos seculares da coalizão”. A FP quer um governo de Saúde Nacional, uma data precisa para eleições e um claro programa socioeconômico. Preços terão de ser fixados para controlar a inflação, uma moratória para a dívida externa deverá ser declarada, e, para evitar a fuga de capitais e discrepâncias sociais, uma eficaz justiça fiscal será implementada.

Aouini concorda com o programa da Frente Popular, mas o ativista não descarta uma reação ainda mais sangrenta do que aquela a preceder a queda de Ben Ali. “Lutas sangrentas não fazem parte da nossa mentalidade na Tunísia, mas agora queremos a demissão de um regime violento e, portanto, esse será um confronto diferente.” A julgar pelas manifestações durante o funeral de Belaid, o povo está pronto para “continuar a luta”. A morte do líder oposicionista, em plena luz do dia, chocou porque ele simbolizava o secularismo. Na noite anterior ao seu assassinato, ele criticou o governo e o terror disseminado pelas Ligas de Proteção da Revolução em um programa televisivo.

A maneira como foi morto também chocou. Um desconhecido lhe deu três tiros à queima-roupa diante de sua casa em um subúrbio de Túnis. Em seguida, pulou na garupa de uma moto e fugiu. Para a mulher, o irmão de Belaid e a vasta maioria da oposição, os responsáveis poderiam ser também salafistas radicais, os religiosos ultraconservadores favoráveis a um retorno às velhas práticas do Islã como a sharia (códigos da lei islâmica). Os salafistas radicais teriam, como aqueles a integrar a Liga, elos com o governo. Arbaoui, do Ennahda, rebate: “Não temos elos com a Liga e concordo que existem salafitas radicais”. E argumenta: “Estranho a oposição e a família de Belaid pedirem a demissão do governo, em vez de, antes de tudo, exigirem uma enquete para saber quem matou o líder”.

A morte de Belaid foi o estopim para confrontos entre manifestantes e policiais em Gafsa, no centro do país, e Tunísia afora. Em Túnis, um policial perdeu a vida. Outro se encontra em estado de coma. Na sexta-feira 8, dia do funeral de Belaid, uma greve geral, convocada pela União Geral Tunisiana do Trabalho (UGTT) e por diversas agremiações, foi a primeira desde 1978.

Cerca de 50 mil pessoas, segundo o Ministério do Interior, e centenas de milhares de acordo com os organizadores, repetiam em uníssono, na capital: “O povo exige a queda do regime”, o slogan usado em todos os países árabes que depuseram seus ditadores. Gritavam também Allahu akbar (Deus é grande) e entoavam o Hino Nacional.

“Pela primeira vez, mulheres de todas as classes sociais, com ou sem véu, que não participam de funerais, apareceram em massa e de forma espontânea”, lembra Bochra Hamida, advogada feminista e ativista de direitos humanos da legenda Nida Tounes. Embora na Tunísia a educação da mulher seja compulsória, não haja poligamia e mulheres tenham a opção de viver com liberdade como em países europeus, vozes na Assembleia começam a se alçar para limitar os direitos femininos.

Não surpreendeu o sistema de segurança em Túnis e em outras cidades durante a greve geral. Helicópteros do exército sobrevoavam a capital na sexta-feira 8. As ruas estavam repletas de militares e homens encapuzados com cassetetes. O mesmo esquema foi montado pelo governo em torno do cemitério. Mesmo assim, carros foram incendiados e edifícios públicos e sedes do Ennahda vandalizados. As forças de segurança revidaram com gás lacrimogêneo. Centenas de manifestantes foram presos.

“Não foi nenhuma surpresa o assassinato de outro líder oposicionista, no caso o de Belaid”, concorda com Aouini e Jalloul o professor Hatem M’Rad, da Faculdade de Ciências Jurídicas Políticas e Sociais de Túnis. M’Rad recorda outro assassinato de um líder da oposição, este em outubro. Segundo o Ministério do Interior, Lofti Naqdh, da agremiação Nida Tounes, teria sofrido um ataque cardíaco. No entanto, reportagem realizada pela rede de tevê Al-Jazira deixou claro que a vítima morreu por causa de golpes fatais, inclusive de um dos líderes de uma Liga local.

Para M’Rad, o Ennahda dissemina a violência por meio da Liga e dos salafistas radicais, dependendo da situação. Em maio, salafistas atacaram bares onde bebidas alcoólicas, permitidas na Tunísia, são vendidas. Recentemente, a sede de um sindicato foi bombardeada. Em setembro, salafistas atacaram a embaixada norte-americana.

Após terem sido oprimidos por Ben Ali – vários salafistas passaram décadas na prisão –, esses religiosos foram anistiados após a Revolução de Jasmim. Abou Ayad, ex-combatente no Afeganistão ao lado dos talebans e condenado em 2003 a 43 anos de prisão, hoje é o líder da organização salafista chamada Ansar el-Charia. Ayad é procurado pela polícia. Existe, de fato, uma união entre os salafistas radicais da Tunísia, do Egito e da Líbia. Vários deles estariam lutando, entre outros países, na Síria e no Mali.

M’Rad sublinha, porém, que o ambíguo diálogo entre o Ennahda e salafistas radicais não é obra de Jebali, este um chefe de Estado que busca uma solução para a crise. Por sua vez, Ghannouchi, teólogo de linha-dura, é quem traz “a crise de identidade entre o partido Ennahda e o governo”. E, é claro, é Ghannouchi quem faz o discurso ambíguo com os salafistas.

Wassim Jabeur, engenheiro de 28 anos que no último dia da Revolução de Jasmim foi hospitalizado após ter sido surrado por seis homens das forças de segurança de Ben Ali, concorda com M’Rad. Jabeur lembra a existência de dois vídeos nos quais Ghannouchi fala com um salafista tunisiano sobre a eventual supressão do Código de Estatuto Tunisiano, adotado em 1956 e segundo o qual foram abolidas, entre outras, a poligamia e a idade mínima para o casamento.

É fácil perceber como pensam os salafistas radicais em Intilaka, bairro popular nos subúrbios de Túnis. “A relação entre os salafistas e os integrantes do partido governista Ennahda inexiste”, garante um homem encapuzado, a trajar túnica marrom. “Nós, salafistas, separamos a religião da política. Nosso objetivo é estabelecer a sharia e basta.” Indagado como os salafistas pretendem implementar a sharia senão por meio da política, o jovem de 23 anos com uma espessa barba negra retruca: “Não o faremos através da violência, como a mídia quer fazer crer, mas convidando as pessoas a participar de nossa crença”.

Observo, no entanto, que em setembro de 2012 salafistas atacaram a Embaixada dos Estados Unidos e teriam participado de outros ataques, inclusive no Egito. Ainda estariam lutando com a Al-Qaeda no Mali. Calmo, o salafista rebate: “Essas são informações fabricadas pela mídia e, se o senhor escrever o que acaba de dizer, estará validando mais esse mito”.

“As únicas vítimas dessas escaramuças somos nós, os pobres”, diz Noureddine, comerciante de 54 anos, em Intilaka. “Não temos nada a propor, se eles quiserem nos matar de fome graças aos seus cargos e egos, morreremos de fome.” Segundo Noureddine, desde a Revolução de Jasmim, os preços subiram “dez vezes”. “Antes as pessoas compravam aos quilos, agora levam dois legumes. Noureddine dá uma tragada em seu cigarro e conclui: “Sabe, vou dizer algo que poderá chocar você: o regime de Ben Ali era melhor. Podíamos comer e beber. Faz tempo que não tomo uma cerveja”.

Se Noureddine não diz em quem votou, Moncef, articulado programador de informática de 43 anos, declara: “Votei no Ennahda, como a maioria da população, mas não o faria novamente”. O motivo? “A Constituição, que está sendo redigida, não menciona a sharia.” Mas um governo de tecnocratas seria, no momento, a melhor solução, pelo menos até as próximas eleições, avalia Moncef.

Segundo M’Rad, o cientista político, “a boa notícia” é que o  Ennahda contou com 1,5 milhão de eleitores no pleito de outubro de 2011. Mas esse é o limite da legenda, e os 2,5 milhões restantes dispersaram seus votos entre 16 partidos oposicionistas e não tão bem organizados como o partido islâmico. E como 4 milhões de potenciais eleitores ainda podem se inscrever “o mais provável é que o Ennahda suma do mapa”.

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