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E o Irã chega pelo mar

por Gianni Carta publicado 01/03/2011 09h18, última modificação 06/06/2015 18h17
O chanceler de Israel fala de “provocação” e “iranização”
E o Irã chega pelo mar

O chanceler de Israel fala de “provocação” e “iranização”. Por Gianni Carta, de Gaza e Ramallah. Foto:Charles Dharapak/AP

O chanceler de Israel fala de “provocação” e “iranização”

As novas não são bem-vindas para Israel, nem para a ocupada Palestina. Dois navios de guerra iranianos atravessam, pela primeira vez em mais de três décadas, o Canal de Suez, e se impõem no Mediterrâneo, em clara demonstração de força à vista de Jerusalém e Washington. Avigdor Lieberman, chanceler israelense, fala em “provocação” por parte de Teerã e na “iranização” do Oriente Médio.
Enquanto isso, da Faixa de Gaza, de onde se pode avistar as manobras iranianas, a questão a inquietar é outra. Washington vetou a Resolução do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, que condena os assentamentos israelenses em territórios ocupados em Jerusalém Leste e na Cisjordânia. Em miúdos, as críticas de Washington aos assentamentos – condição para os palestinos voltarem à mesa de negociações – eram conversa para árabe ver. Com o veto, o primeiro-ministro conservador Benjamin Netanyahu recebeu sinal verde para continuar expandindo o território israelense.
 O clima em Gaza permanece tenso. No dia 16, três pescadores palestinos foram mortos ao norte, na fronteira com Israel. As Forcas de Defesa Israelenses (FDI) garantem que se tratava de militantes fundamentalistas. E na quarta-feira 23, as FDI revidaram contra o grupo de militantes da Jihad que havia lançado, na mesma noite, dois foguetes Grad na cidade de Be’er Sheva, a 20 quilômetros de Gaza. Não houve mortes ou maiores danos. Em contrapartida, três militantes ficaram feridos na cidade de Gaza. Horas antes, um tanque israelense feriu dez pessoas, das quais três eram crianças. E houve uma morte. Segundo a ONU, nos primeiros dez meses de 2010, ano considerado calmo em termos de violência, 54 palesti nos foram mortos e 216 feridos em Gaza.
O doutor Asaad Abu Sharekh, professor de Linguistica da Universidade de Al-Azhar, diz não ter ficado surpreso com o veto americano, oficializado no sábado 19. Ex-aluno de Noam Chomsky, seu mentor de tese o doutor Asaad acentua: “Barack Obama pode ter uma oratória mais sofisticada que a de seu antecessor, mas continua a política pró-Israel de George W. Bush”. Na verdade, continua o professor, “Obama é pior que Bush porque pelo menos o jogo do ex-presidente, apesar de igualmente sujo, era claro”.
 Indago se, após o veto  americano, Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestina (atualmente a governar de forma semiautônoma a Cisjordânia) voltará a negociar com Israel. “Abbas não tem credibilidade, e depois de 20 anos de negociações não chegamos a nada.” Abbas “tem seus dias contados”. E no caso de eleições, haveria a possibilidade de uma reunificação do Hamas, em Gaza, e do Fatah, agremiação a dominar a Cisjordânia? Vale recapitular: desde que venceu eleições democráticas em janeiro de 2006 e não pôde formar um governo nos Territórios Ocupados da Palestina, o Hamas, agremiação de orientação sunita e com braço armado, passou a dominar Gaza. E após escaramuças em 2007, o Fatah, partido de Abbas, foi expulso para a Cisjordânia. O doutor Asaad pondera: “Para que realizar eleições sob a tutela dos israelenses?”
De qualquer forma, Hamas e Fatah, garante o professor, estão prontos a se unir. Isso porque está havendo uma mudança nas lideranças do Fatah. Estão, diz, inspirados por esse tsunami a varrer déspotas do mundo árabe. “E essas novas lideranças palestinas concordam que a luta armada, com base no estatuto original da criação da Organização de Libertação da Palestina (1964), é a única solução para reavermos nossas terras com as fronteiras dos tempos do Mandato Britânico (1914-1939).” A OLP, lembra o professor, representa 11 milhões de palestinos espalhados pelo mundo.
Seu tio, continua, era prefeito de Ashkelon, cidade ao sul de Israel. “Por que eu e milhões de palestinos não podemos retornar para nossas terras?” E acrescenta: “Essa luta faz parte da minha humanidade”. Enfim, finaliza: o Estado Palestino será democrático. Os judeus que quiserem terão o direito de ficar. Difícil imaginar como se dará, ou se daria, essa negociação.
Com 1,5 milhão de habitantes, dos quais dois terços vivem em campos de refugiados, o Estreito de Gaza tem apenas 40 quilômetros de extensão por 10 de largura. Desde a Guerra de 1967, Gaza está sob controle de Israel. Em 2005, quando, por questões demográficas, tropas e colonos israelenses deixaram o território, esperava-se o fim da ocupação. Israel, contudo, controla as fronteiras, o espaço aéreo e as águas territoriais de Gaza. Atualmente, só entram e saem de Gaza jornalistas, voluntários de ONGs, palestinos com passaporte estrangeiro ou, em casos raros, estudantes e palestinos gravemente enfermos.
O bloqueio da Faixa teve início em junho de 2006 com a captura do soldado Gilad Shalit por militantes do Hamas. Foi intensificado em 2007, quando o Hamas expulsou o Fatah do território. Israel invadiu Gaza no fim de dezembro de 2008, após militantes do Hamas lançarem foguetes caseiros Qassam contra o território israelense. A ofensiva, denominada Operação Chumbo Fundido, durou 22 dias: 1.390 palestinos foram mortos, segundo a ONG israelense B’Tselem. Desses, 759 não teriam tomado parte nas hostilidades e 318 dos mortos tinham menos de 18 anos.
 Conforme dados da ONU, 20 mil pe ssoas ficaram sem teto. A B’Tselem alega que se, por um lado, “o Hamas cometeu sérias violações referentes à lei humanitária internacional”, isso “não legitimiza toda a ação militar israelense durante a operação”. O Relatório Goldstone, realizado a pedido da ONU, mostrou-se crítico em relação às FDI e aos militantes palestinos. Ambos cometeram crimes de guerra, e possivelmente crimes contra a humanidade.
Desde meados de 2010 , quando a marinha israelense atacou seis embarcações da Flotilha da Liberdade, que carregavam toneladas de ajuda humanitária rumo à Faixa de Gaza, deixando nove turcos mortos, a pressão internacional forçou Israel a arrefecer o cerco. Assim, alguns bens de consumo, como roupas e chocolate, puderam entrar no pequeno território. Mas vários produtos, com potencial para uso militar, continuam na lista negra. Materiais de construção, fundamentais para a reconstrução de moradias e mesquitas destruídas, são proibidos.
Ex-marceneiro, Bashir Abed Rabu, 34 anos, tem seis filhos. Sofre de câncer de pele, diabetes, teve derrame cerebral que o deixou manco da perna esquerda. “Não tenho dinheiro sequer para tomar ônibus para o hospital”, diz Abed Rabu. Durante a última invasão a Gaza, ele, a mulher e os seis filhos, de 4 a 16 anos, foram viver numa escola durante os bombardeamentos. Sua casa foi tomada pelos soldados das FDI. No teto fizeram um buraco, ainda visível, para os franco-atiradores. Destruíram paredes, Abed Rabu penou para reconstruí-las, faltavam dinheiro e materiais de construção.
Sentados em cadeiras de plástico que ele e as crianças limparam e colocaram rapidamente na sala sem móveis e onde à noite dormem em colchões surrados, Abed Rabu, observa: “Entende por que falo com o senhor? Porque quero que o mundo saiba como vivemos na miséria, humilhados e sem nenhuma perspectiva”. Visto que não pode mais trabalhar por causa do seu precário estado de saúde, seu filho de 16 anos empregou-se como operário, mas a desgraça ronda: devido ao bloqueio e à subsequente falta de importação e exportação de produtos, inúmeras fábricas, inclusive a do filho de Abed, estão inativas. Oficialmente, 40% é o índice de desemprego em Gaza.
Abed Rabu olha para Abud, de 4 anos, aos seus pés. E diz acariciando a cabeça do filho: “Veja, meu filho ficou vesgo por causa de uma pedaço de telhado que caiu na sua cabeça, dizem os médicos que sofreu traumas”. Segundo a ONU, 56,6% das crianças têm problemas moderados de traumas psicológicos. Cerca de 11% padecem de graves problemas psicossomáticos.
No mercado da Cidade de Gaza, Khaled, de 28 anos, vende sandálias das 7 da manha às 7 da noite. Custam entre 8 e 12 shekels, a moeda israelense. “O preço varia dependendo se os túneis, centenas deles, estão abertos ou fechados.” Contrabandistas trazem a mercadoria por esses túneis, maior fonte de emprego no setor privado, com comunicação principalmente no Egito, e monopolizam os preços. “Se não existisse o bloqueio, não haveria túneis”, resume Khaled. O dele não é emprego fácil. Segundo a ONU, 43 palestinos em 2010 morreram trabalhando em túneis e 85 ficaram feridos.
 A saída pelo check point, um vasto terminal, para Erez, em Israel, não é passeio no parque. Uma caminhada de 15 minutos num corredor entre grades leva o cidadão para uma sucessão de catracas. Luzes verdes e vermelhas e vozes ao microfone, oriundas de soldados instalados em guaritas envidraçadas, guiam o visitante. Passei duas vezes por uma máquina de raio X, daquelas que examinam até a genitália. Uma voz feminina, e percebo a sua origem no cubículo que fica logo acima, me insta a seguir as setas. E logo adiante me pedem para tirar a camisa.
Agora enfrento a última  catraca, à espera do sinal verde. A mesma voz feminina, mas desta vez concitada, avisa tanto a mim quanto um voluntário americano. Temos de regressar ao centro do terminal. Vemos do lado de fora soldados no chão, metralhadoras apontadas para diferentes direções. O processo leva um quarto de hora. Uma vez livre, a soldada num guichê examina meus documentos. Sorriso nos lábios, convida: “Divirta-se em Israel”.
Em Ramallah, relaxo tomando cerveja num bar com Magid Shihade, da Universidade de Birzeit. Ao contrário de Gaza, onde o álcool é proibido, aqui estamos no centro cultural dos Territórios Ocupados e talvez do mundo árabe. Indago a Shihade como vê a chegada dos navios iranianos em um porto na Síria. Ele dá um trago e retruca: “Por que aviões e navios de guerra israelenses podem violar o espaço aéreo e as águas territoriais de outros países, como o fazem também os Estados Unidos, e ficam alarmados quando navios de um país islâmico atravessam legalmente o Canal de Suez?” Segundo os acordos de Constantinopla de 1888, a passagem de navios, inclusive de guerra pelo Canal de 193 quilômetros de extensão é legal. A condição é que o navio em causa não seja amigo de um país em estado de guerra com o Egito.
Comento que Israel está, como Gaza, cada vez mais isolado. O fato de o Egito ter deixado passar os navios iranianos de guerra pelo Canal de Suez para o Mediterrâneo é simbólico. Hosni Mubarak teria procurado evitar esse transtorno a Israel. Por sua vez, a União Europeia está preocupada com o fato de Lieberman, o chanceler, ter proposto inquéritos do Knesset, o Parlamento de Israel, relativos a ONGs e grupos de esquerda. Mais: a UE se inquieta, ainda, com a maneira como a minoria árabe-israelense (20% da população) é tratada por Lieberman, ex-leão de chácara nascido na Moldávia. E, além do mais, ao vetarem a Resolução do Conselho de Segurança, que condenaria os assentamentos israelenses em Territórios Ocupados da Palestina, os EUA foram os únicos a votar contra a Resolucão entre os 15 países a integrar o Conselho de Segurança.
Shihade participou da última, a quarta, manifestação em Ramallah nesse último mês contra o veto dos EUA. Mas, segundo o cientista político, o povo também condena a Autoridade Palestina, disposta a negociar com um governo israelense, o qual, aparentemente, não quer a paz. Pondera Shihade: “Qualquer que seja o final dessa história, a estrutura global baseada na hegemonia dos Estados Unidos na região terminou”.

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