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Revolta

E depois?

por Envolverde — publicado 23/03/2011 18h26, última modificação 23/03/2011 18h26
Alguns analistas criticam a intervenção militar dos EUA na Líbia, rejeitam o argumento de que é para evitar uma crise humanitária, e que acontece no contexto de uma guerra civil. Por Aprille Muscara, da IPS

Por Aprille Muscara, da IPS

“A pergunta de um milhão é para onde vai isto, e creio que ninguém sabe com clareza”, disse à IPS o analista Charles Kupchan, do Conselho de Relações Exteriores, referindo-se à intervenção militar de uma coalizão internacional na Líbia. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, reiterou, no dia 21, a necessidade de mudança de regime na Líbia, em entrevista coletiva no Chile, segundo destino de sua viagem, esta semana, por três países da América Latina.

“A política de Washington quer que o líder líbio saia. Temos um leque de ferramentas além da operação militar para conseguir isso”, afirmou. “Seguiremos com elas, mas, no tocante às ações militares, apoiamos a resolução 1973 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que, especificamente, se refere a uma tarefa humanitária. Vamos nos ater a esse mandato”, disse Obama.

Alguns analistas criticam a intervenção militar dos Estados Unidos na Líbia, rejeitam o argumento de que é para evitar uma crise humanitária, e que acontece no contexto de uma guerra civil. Outros apoiam a derrubada de Gadafi por meios militares com o argumento de que foi avalizado por uma resolução da ONU.

Gadafi não está entre os objetivos da primeira fase da intervenção da coalizão internacional “Operação Odisseia ao Amanhecer”, disseram altos funcionários do Pentágono, como o vice-almirante Bill Gortney, diretor do Estado Maior Conjunto, e o general Carter Ham, comandante da força dos Estados Unidos na África. As operações norte-americanas na Líbia se concentram na proteção de civis, mas aliados como França e Grã-Bretanha também defendem uma mudança de regime.

“Os Estados Unidos tentam se concentrar em objetivos humanitários, ou seja, em deter a matança de rebeldes pelas forças de Gadafi, e não fica claro o que acontecerá depois”, explicou Kupchan. Segundo Ham, “a missão é muito clara e franca e o que se espera que façamos é viabilizar a zona de exclusão aérea, proteger os civis e tirar de Bengasi as forças terrestres do regime líbio. Estamos conseguindo nossos objetivos”.

Navios e submarinos britânicos e norte-americanos no Mediterrâneo dispararam 136 mísseis de longo alcance Tomahawk desde o começo da operação, no dia 19. Não foram observados aviões militares líbios, cessou a atividade naval e as forças em terra detiveram seu avanço sobre Bengasi, reduto da oposição, disse o general. “Sabemos que as forças do regime localizadas no entorno de Bengasi têm pouca ou nenhuma capacidade de reiniciar a ofensiva”, anunciou Ham.

Os Estados Unidos lideram a primeira fase das operações militares, destinada a deixar fora de ação as defesas aéreas de Gadafi e implementar e patrulhar a zona de exclusão de voos, que vai de Sul a Leste de Bengasi, em uma área de, aproximadamente, mil quilômetros. As etapas seguintes, que acontecerão em “questão de dias”, segundo Obama, estarão a cargo da coalizão.

Os primeiros países envolvidos nas operações militares na Líbia foram Dinamarca, Espanha, França, Grã-Bretanha e Itália. No dia 21, aderiram Bélgica e Canadá, e se dirigem à área de confronto forças do Catar, informou Ham. Membros da Liga Árabe preveem se incorporar nos próximos dias. A Casa Branca insistiu na “participação e liderança árabe” no esforço internacional para conter os ataques de Gadafi contra seu povo. O apoio da Liga Árabe a uma zona de exclusão aérea foi um dos principais elementos da participação dos Estados Unidos.

O apoio árabe pareceu fraquejar no dia 19, quando o secretário-geral da Liga condenou a intensidade do ataque aéreo, apesar de, no dia seguinte, reafirmar o apoio à zona de exclusão aérea. Conforme são definidos os detalhes sobre como se estruturará a liderança da coalizão, fica claro que as partes devem agir com cuidado em razão das políticas e intenções das nações envolvidas.

“Uma possibilidade é que a liderança fique a cargo de França e Grã-Bretanha, e outra é recorrer à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), disse no dia 20 o secretário da Defesa dos Estados Unidos, Robert Gates. “A Liga Árabe tem certos pudores em agir sob o guarda-chuva da Otan. A questão é se poderá trabalhar sob seu comando e controle, sem que seja uma missão da aliança militar e sem usar sua bandeira”, afirmou. “Basicamente, terá que ser decidido pelos próprios líbios”, ressaltou Gates. Envolverde/IPS

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