tamanho da fonte minímo médio máximo

Internacional

Reinaldo Canto

Opinião

16.02.2011 16:21

É a comida, estúpido

Ao lado de fatores políticos, o aumento no preço dos alimentos não pode ser visto como secundário nos protestos do mundo árabe. Por Reinaldo Canto. Foto: Mohammed Abed/ AFP

O mundo, assim denominado “rico e democrático”, comemorou a queda de persistentes e longevas ditaduras na Tunísia e no Egito. Esse mesmo mundo “rico e democrático” também exultou, recentemente, os sinais da retomada do crescimento global no Fórum Econômico de Davos.

Como diria a música da Blitz, “tudo muito bom, bom, tudo muito bem, bem”, se não fosse uma questão que vem sendo tratada de maneira bastante marginal dada a sua importância e urgência: a crise mundial de alimentos!

Quem acompanhou a cobertura passo a passo das manifestações que tomaram, primeiramente, as ruas de Túnis capital da Tunísia e até dias atrás as ruas e a agora globalmente conhecida Praça Tahrir, no Cairo, viu, ouviu e leu, os líderes da oposição e a própria população declararem estar fartos de corrupção, repressão e ávidos por liberdade.  Mas esse contundente, basta! ocorreu, no caso da Tunísia, 23 anos depois da tomada do poder de Zine El Abidine Ben Ali e no caso do Egito após 30 anos da ditadura de Hosni Mubarak. E por que só agora?

Ao lado de fatores políticos, sociais e tecnológicos (redes sociais, internet e celulares contribuíram para disseminar as informações sobre os protestos), o aumento no preço dos alimentos é algo que não pode ser visto como secundário nos protestos.

Segundo a Organização para Agricultura e Alimentação (FAO, na sigla em inglês), em dezembro de 2010, os preços do trigo, óleo, milho, arroz, carne e leite tiveram aumentos recordes. O milho sofreu reajuste de 60%, o trigo de 43% e o açúcar aumentou 77%.  

O aumento no preço dos alimentos afeta a todos, mas os países africanos estão entre os que importam a maior parte da comida consumida por seus povos. O Egito se destaca como um dos maiores importadores do mundo, principalmente cereais. Como em outros países árabes ao lado do Egito, entre eles a Tunísia e a Argélia, as famílias gastam de 40% a 50% da renda na compra de alimentos.

A comida mais cara agravou o problema do desemprego, já crônico entre os jovens dos países citados. E esses fatores estão muito longe de se restringir apenas as nações já convulsionadas por rebeliões. A situação ainda tende a se agravar.

Além da redução das áreas de plantio em razão da degradação do solo e das mudanças climáticas, além do uso de terras agricultáveis para a produção de biodiesel, a China aparece como outro grande fator de desestabilização. A previsão é a de que o gigante asiático irá importar 8 milhões de toneladas de milho e, tal volume deverá dobrar até 2015.

Será coincidência que tenha sido exatamente no continente africano, o mais afetado pela escassez e subida de alimentos, o palco de duas revoluções quase simultâneas?

Alguém acredita que, subitamente, a população egípcia decidisse derrubar Mubarak por apenas almejar a democracia. Adoraria acreditar que sim, mas tenho cá minhas dúvidas.

Até mais grave que o problema dos preços e da escassez dos alimentos está a incapacidade de nossas lideranças de enxergar os caminhos que busquem as soluções. Quando tentam, invariavelmente, reduzem a uma questão em defesa de interesses de fronteiras ou blocos.

É o caso da proposta do presidente francês, Nicolas Sarkozy, de controlar o preço das commodities.  Felizmente, essa ideia não avançou quando apresentada no Fórum de Davos, o que traria ainda maiores problemas, pois o prejuízo seria grande para os países pobres exportadores de alimentos. 

Como dito anteriormente, pensar o mundo em blocos e fronteiras é no mínimo burro. Todos os dias nos chegam sinais mostrando que a vida no planeta depende de visões e soluções globais. A sustentabilidade precisa parar de ser vista como utopia e sonho de ambientalistas. Ou trabalhamos em busca de um mundo mais sustentável ou teremos um futuro incerto e perigoso.

Enquanto assistimos a queda de ditaduras vemos motivos para comemorar e nos solidarizar com esses povos, mas o fato é que a crise de alimentos não vai se restringir aos países autoritários. Mesmo as democracias não estarão seguras se as pessoas não tiverem o que comer.

O título do artigo é uma adaptação livre para o bordão “É a economia, estúpido!” usado na disputa presidencial de 1.992 nos Estados Unidos pela campanha vitoriosa de Bill Clinton. Naquele ano Clinton derrotou Bush pai que tentava a reeleição, ao chamar atenção para as reais preocupações do povo norte-americano.

Enviar para um amigo Enviar para um amigo Imprimir: Compartilhar:
Mais...

Sua opinião

  1. Bruna K. disse:
    O que mais impressiona nesse quadro é o fato de que o problema não é escassez de oferta de alimentos, mas sim problemas de renda e de distribuição de capital no mundo. Nesse sentido, caberia citar os entraves das negociações da Rodada Doha da OMC - em que os países desenvolvidos (EUA, UE) teimam em proteger financeiramente um pequeno grupo de agricultores, em detrimento de milhões de famintos -, que realmente distorcem preços e fluxos comerciais agrícolas, e não a produção de biocombustíveis, como aqueles defendem nos foros multilaterais, pressionando os países em desenvolvimento a acabarem com sua produção de energia renovável.
  2. Celso Bacarji disse:
    Concordo com você, Reinaldo. Já houve revoltas semelhantes ou até maiores que estas antes da internet e do facebook. E a causa na grande maioria delas é a fome, a pobreza, o desemprego. Me lembro da grande greve dos operários da Polônia, em 1980, que derrubou o primeiro ministro e o secretário-geral do PC polonês. Não havia internet e o regime era talvez muito mais fechado que o Egito de hoje, mesmo assim, em menos de dois meses mais de 150 mil operários se mobilizaram, criaram sindicatos livres, comitês e literalmente "conquistaram o poder", com Lech Walesa. E qual era o foco da crise? Alta do custo de vida, arrocho salarial. Aliás, o movimento começou com uma alta de 60% no preço da carne. É a comida, companheiro! E ela ficará ainda muito mais rara e cara. Quem viver verá.
21mai

Partido fundado por comediante elege prefeito de Parma

Federico Pizzarotti, do Movimento Cinco Estrelas, gastou apenas 6 mil euros em sua campanha

21mai

Irã expulsa diplomata acusado de abuso sexual

Hekmatollah Ghorbani foi demitido do Ministérios das Relações Exteriores do Irã após acusações de molestar quatro meninas

21mai

Justiça francesa abre investigação por supostos estupros em caso ligado a DSK

A Procuradoria de Lille (norte da França) pediu nesta segundaque seja aberta uma investigação sobre fatos possivelmente classificados de estupro em grupo, ocorrido em 2010

21mai

Otan vai passar responsabilidade pela segurança aos afegãos em 2013

Organização passará a ter um papel de apoio até a retirada das tropas internacionais do país no final de 2014