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Internacional

Sequestro no Egito

Duas brasileiras sequestradas: instabilidade no Sinai

por Redação Carta Capital — publicado 18/03/2012 18h01, última modificação 18/03/2012 18h13
O sequestro de duas turistas brasileiras e seu guia egípcio por beduínos no caminho do mosteiro de Santa Catarina é o terceiro incidente deste tipo nesta região desde o início de fevereiro
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Detenção durante manifestação de beduínos no dia 7 de outubro de 2007 no Sinai. Foto: AFP

DaAgência France Press

O cerco por beduínos a um campo de uma força internacional de paz e a multiplicação de sequestros de turistas na península do Sinai são exemplos da impotência do poder militar egípcio em estabelecer sua autoridade nesta região, um ano após a queda de Hosni Mubarak.

Neste domingo, duas turistas brasileiras e seu guia egípcio foram sequestrados por beduínos no caminho do mosteiro de Santa Catarina, o que constitui o terceiro incidente deste tipo nesta região desde o início de fevereiro, segundo fontes de segurança.

O Itamaraty confirmou o caso. A Embaixda brasileira no Egito comunicou que as duas estavam em um grupo de 45 pessoas. Negociações para libertar as jovens já estão em curso. Autoridades egípcias afirmaram que a libertação das jovens deve ocorrer ainda neste domingo 18 de março.

Os beduínos sitiaram durante oito dias o campo da Força Multinacional de Observadores no Sinai (FMO) e levantaram o cerco na sexta-feira, dando um mês às autoridades para libertar membros de suas tribos, alguns acusados de terrorismo. O exército prometeu examinar os pedidos.

Ataques visaram recentemente a polícia, assim como trabalhadores estrangeiros, retidos por longas horas, ao mesmo tempo em que foi sabotado por 13 vezes, em um ano, o gasoduto que alimenta Israel.

O Sinai, onde estão concentrados os pontos turísticos mais lucrativos do Egito, é povoado em grande parte por beduínos, durante muito tempo negligenciados pelo regime de Hosni Mubarak; acham que não foram beneficiados com a revolta, apesar de terem apoiado o movimento com suas armas.

 

A península representa, além disso, uma rota de passagem para o tráfico de drogas e de seres humanos e de imigração clandestina para Israel, além de passar por aí o contrabando de armas para a Faixa de Gaza. Também é utilizada como base para atentados contra Israel.

O Exército, no poder desde a queda de Mubarak, encontra dificuldades para tirar os grupos radicais desta região desértica e montanhosa, onde a população beduína possui armas pesadas e os soldados são poucos, devido à desmilitarização do setor, prevista pelo acordo de paz egípcio-israelense.

Após uma tentativa no ano passado, o exército tenta, hoje, a negociação com esta parte da população local e os islamitas radicais.

Durante décadas, a solução militar agravou o problema. Entre 2004 e 2006, dezenas de turistas foram mortos em atentados e as forças de Mubarak detiveram milhares de beduínos; alguns foram torturados, segundo ONGs.

"A raiz dos atritos no Sinai remonta há muitos anos, e a autoridade do governo sempre foi fraca lá", afirma Michael Wahid Hanna, um especialista egípcio do centro de estudos americano The Century Foundation. "Há um certo grau de discriminação, uma relação de diversidade com os beduínos".

O Egito conta com o turismo nesta península para ter dinheiro em caixa. Mas os beduínos, que são menos da metade dos cerca de 500.000 moradores da região, aproveitam pouco. Em geral, são pobres e analfabetos.

As autoridades "dizem que o Sinai é egípcio, mas não acho que elas acreditem nisto realmente", afirma o militante beduíno dos direitos humanos Yahya Abou Nasira, que ficou preso durante 30 meses durante a era Mubarak. Elas "duvidam sempre de nossa lealdade".

Para Mohammed Fadel Shosha, ex-governador da região, a violência não cessaria senão com o desenvolvimento.

Mas as infraestruturas e o desenvolvimento agrícola são difíceis e "caros" nesta região, disse ele, destacando a necessidade de construir novos canais de irrigação e de instalar bombas para levar água às zonas montanhosas, o que custaria mais de 400 milhões de dólares, segundo ele.

Os investidores "dispõem de capital, mas têm medo", acrescentou Shosha.

Apesar das promessas das autoridades militares de desenvolver a região, "nada aconteceu desde a revolução. A situação até se deteriorou. O Sinai é um navio sem capitão", lamenta Abu Nasira.

*Leia mais em AFP

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