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Documento precioso

por Revista Brasileiros — publicado 25/03/2011 13h07, última modificação 25/03/2011 13h07
No Japão arrasado por terremotos e tsunamis, o jornalismo voltou aos tempos do papel e caneta. Por Fernando Figueiredo Mello

Por Fernando Figueiredo Mello

O PAPEL E A TINTA
Certo dia, uma folha de papel que estava em cima de uma mesa, junto com outras exatamente iguais a ela, viu-se coberta de sinais. Uma pena, molhada de tinta preta, havia escrito uma porção de palavras em toda a folha.
- Será que você não podia ter me poupado esta humilhação? Disse, furiosa, a folha de papel para a tinta.
- Espere! Respondeu a tinta. - Eu não estraguei você. Eu cobri você de palavras. Agora você não é apenas uma folha de papel, mas sim uma mensagem. Você é a guardiã do pensamento humano. Você se transformou num documento precioso.
E, realmente, pouco depois, alguém foi arrumar a mesa e apanhou as folhas de papel para jogá-las na lareira. Mas subitamente reparou na folha escrita com tinta, e então jogou fora todas as outras, guardando apenas a que continha uma mensagem escrita.
A fábula acima foi escrita pelo gênio Leonardo da Vinci há mais de 500 anos. Está na página 15 do livro Fábulas e Lendas, da editora Círculo do Livro.

Em tempos de internet rápida, e-mails, redes sociais e smartphones, a folha de papel voltou a ser um documento precioso. Pelo menos por alguns dias.

Uma reportagem de segunda-feira (21) do jornal Washington Post, publicada nesta quarta-feira (23) no Estadão, mostra como duas cidades japonesas voltaram aos tempos do papel e da caneta para transmitirem informações importantes às populações locais.

Assinada por Andrew Higgins, a matéria relata como repórteres do único jornal da pequena Ishinomaki, o Hibi Shimbum, se viraram para levar informações às pessoas. Por dois dias, Hiroyuki Takeuchi, chefe de reportagem do jornal, e sua equipe, escreveram e editaram os artigos para depois copiarem as matérias à mão e distribuírem à população de Ishinomaki.

"As pessoas que sofrem uma tragédia como essa precisam de alimentos, água, mas também de informação. Elas estavam habituadas a se informar pela TV e pela internet, mas, quando não há eletricidade, a única coisa que têm é o nosso jornal", disse Takeuchi, que por dez dias dormiu na redação do jornal, pois teve o andar térreo de sua casa inundado.

O Hibi Shimbum voltou a ser impresso, já que a eletricidade foi restabelecida para, pelo menos, um terço dos 160 mil habitantes da cidade, mas a internet segue fora do ar. Por enquanto, nada de e-mail ou navegação na web para a pequena Ishinomaki.

Já em Sendai, cidade mais próxima do epicentro do maior terremoto da história do Japão, com população de mais de 1 milhão de pessoas, o papel também foi fundamental. O estrago por lá não foi tão grande quanto em Ishinomaki. Segundo a reportagem do Washington Post, o colapso energético provocou desligamento dos computadores e aparelhos de TV, mas o Kahoku Shimpo, principal jornal da cidade, continuou sendo publicado.

"Em condições como essas, nada tem o poder do papel", disse Masahiko Ichiriki, presidente e dono do jornal. O veículo forneceu não somente notícias sobre a tragédia, mas também informações imprescindíveis, como o fornecimento de alimentos nas lojas, as estradas liberadas para tráfego, os bancos com dinheiro nos caixas, entre outros serviços.

Em Ishinomaki e Sendai, o jornalismo voltou aos tempos do papel e da caneta.

*Matéria publicada originalmente na Revista Brasileiros

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