Você está aqui: Página Inicial / Internacional / Do Facebook ao Tomahawk

Internacional

Líbia

Do Facebook ao Tomahawk

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 05/04/2011 17h31, última modificação 07/04/2011 10h39
A incompetência dos rebeldes cria um dilema para o Ocidente: abandoná-los ou assumir a guerra?
Do Facebook ao Tomahawk

A incompetência dos rebeldes na Líbia cria um dilema para o Ocidente: abandoná-los ou assumir a guerra?. Por Antonio Luiz M. C. Costa. Foto: AFP

A “coalizão ocidental” repete na Líbia os erros do Iraque. O que se pretendia uma intervenção rápida e fácil, econômica e politicamente proveitosa para seus protagonistas ameaça tornar-se outro terrível atoleiro e destruir o futuro eleitoral dos líderes comprometidos, notadamente os açodados Nicolas Sarkozy e David Cameron. Mesmo tendo agido com apoio da maior parte da oposição, como foi também o caso de Bush júnior e Tony Blair.

Ao propor a zona de exclusão aérea e conseguir o apoio dos Estados Unidos, os líderes europeus pareciam pensar que Muammar Kaddafi só se mantinha em Trípoli e avançava na Cirenaica por causa da superioridade aérea sobre os rebeldes. Bastaria eliminá-la e cortar o acesso da Líbia a novas armas para derrubar o regime em dias. O mesmo se pensava de Saddam Hussein em 1991, cujo regime resistiu a 12 anos de exclusão aérea e embargo total. Mas “desta vez vai ser diferente”, claro. O Conselho de Segurança da ONU votou, em 17 de março, a resolução que lhes permitiu inutilizar a Força Aérea líbia, “proteger” civis ameaçados e embargar a venda de armas. Dois dias depois, a puseram em prática.

Passadas duas semanas, a situação é quase a mesma. As forças de Kaddafi recuaram da Cirenaica e os rebeldes chegaram às portas de Sirte, cidade natal do ditador, mas o governo recuperou áreas rebeladas na Tripolitânia, como Bani Walid, Zawiyah e Zuwarah, e, em 29 e 30 de março, retomou Bin Jawad, a estratégica refinaria de Ras Lanuf e o porto petrolífero de Brega numa contraofensiva que outra vez pôs os rebeldes em fuga desordenada para Bengazi.

Na quarta-feira 30, Kaddafi sofreu mais uma deserção, do chanceler Moussa Koussa, mas controlava todo o Fezã (sudoeste, 23% da área e 8% da população do país), a maior parte da Tripolitânia (noroeste, 28% da área e 64% da população, incluindo a capital) e avançou sobre Brega, dentro da Cirenaica. Os rebeldes retêm o restante da Cirenaica (leste, 49% da área e 28% da população, incluindo Bengazi, 670 mil habitantes e sede do setor petrolífero transnacional) e tentam resistir em um último reduto importante na Tripolitânia, a cidade de Misurata (550 mil habitantes).

Embora se dissesse desde os primeiros dias da revolta que boa parte do exército aderira à oposição, os rebeldes se mostram espantosamente incompetentes. Em 5 de março, invadiram Bin Jawad pela primeira vez sem encontrar resistência, mas resolveram voltar a Ras Lanuf por não encontrarem onde comer e dormir. Quando acordaram, as forças especiais de Kaddafi tinham tomado Bin Jawad e os estavam escorraçando de Ras Lanuf.

Quinze dias depois, não tinham aprendido a lição. Quando os ocidentais bombardearam os governistas que sitiavam Bengazi e os obrigaram a fugir para Ajdabiya, os rebeldes, em vez de persegui-los, foram tirar fotografias dos destroços e saquear o que sobrava das provisões nos caminhões. No dia 21, quando finalmente tentaram avançar, foram facilmente repelidos. Segundo um jornalista do britânico Guardian, havia lá dois comandantes, intitulados capitão Idrisi e major Hassi. O major disse que avançar tinha sido um desatino do capitão. “Por que não mantiveram contato?”, perguntou o repórter. “Não temos equipamento de comunicação”, respondeu. “Mas o capitão estava ali de pé, a poucos metros!”, apontou-lhe o jornalista. “Não falo com ele”, cortou o major.

A cúpula rebelde também desperdiça energia em atritos entre o “presidente” Mustafá Abdul Jalil, ex-ministro da Justiça de Kaddafi, e o “primeiro-ministro” Mahmoud Jibril, ex-presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Econômico, responsável por programas de privatização e liberalização que reabriram o regime às transnacionais e previam demitir 400 mil de 1 milhão de servidores públicos em cinco anos.

Se o regime de Kaddafi perdeu a legitimidade, a oposição não fez por merecê-la. Sarkozy arriscou-se a reconhecer o “Conselho Nacional de Transição” como único governo legítimo da Líbia e propôs sua participação na Conferência Internacional de Londres sobre a intervenção no país (rejeitada pelos demais aliados, que insistem em afetar neutralidade enquanto exigem a renúncia de Kaddafi), mas a maioria dos supostos 31 integrantes têm os nomes mantidos em segredo. Dos dez conhecidos, todos (inclusive o ex-ministro de Kaddafi) são da Cirenaica e alguns são parentes do rei Idris, deposto em 1969 por Kaddafi, o que faz duvidar de sua representatividade e de seu caráter democrático – não, é claro, de sua boa vontade para com o capital ocidental.

O manifesto do “governo interino” intitulado “Uma Visão de uma Líbia Democrática”, suspeitam jornalistas do Guardian, foi redigido no Foreign Office de Londres, onde foi lançado e distribuído em perfeito inglês britânico (e conceitos perfeitamente ocidentais), antes da versão- árabe, que parece ser sua tradução. E por incrível que pareça, a acusação de Kaddafi de que os rebeldes são militantes da Al-Qaeda apoiados pela Otan é ligeiramente mais verdadeira que as tentativas de Bush júnior de vincular Saddam ao 11 de Setembro. O almirante James Stavridis, comandante da Otan na Europa, admitiu que “um pequeno número” de terroristas faz parte das forças rebeldes.

Os rebeldes, no início, diziam não querer ajuda ocidental, depois exigiram apoio aéreo e agora imploram por armas modernas. Até agora, os aliados recusaram, mas a ação aérea já viola a resolução da ONU, apontam juristas britânicos. Não se limita a proteger civis, mas bombardeia bases e arsenais na retaguarda de Kaddafi, longe do conflito – em Trípoli, por exemplo, onde matou pelo menos 40 civis, segundo o Vigário Apostólico na cidade, dom Giovanni Martinelli  – e assume papel ofensivo, como ao bombardear governistas em Sirte, quando sitiada por rebeldes. Obama “não descarta” fornecer armas – nova violação, pois o embargo proíbe fornecê-las a qualquer dos lados. Há pelo menos 2,2 mil marines a postos em navios dos EUA ao largo da costa e o presidente autorizou “operações secretas” para ajudar os rebeldes (possivelmente armas e sabotagem) e Khalifa Haftar,  militar líbio exilado nos EUA desde os anos 90 e ligado à CIA, os comandará. Qual o limite da hipocrisia?

Os rebeldes protestaram contra o termo “guerra civil” quando esta se configurou: “O povo líbio está unido contra Kaddafi. Quem luta com ele são seus capangas e mercenários estrangeiros”. Obviamente, não é bem assim. Enquanto conhecidos capangas do ditador se tornaram cabeças de proa da oposição com suspeita rapidez, o governo parece ter apoio de setores talvez não majoritários, mas importantes, e diz estar distribuindo “1 milhão” de armas, em Trípoli e imediações. Seria surpreendente não haver governistas, pois o regime, apesar de autoritário, modernizou e melhorou as condições sociais e emprega a maior parte da força de trabalho do país.

Ou a Otan deixa como está e corre o risco de um furioso e vingativo Kaddafi  voltar a controlar todo o país, ou se envolve de forma ainda mais direta e aceita todos os ônus da transformação da revolução por Facebook em intervenção por Tomahawk. Contabilize-se aí não só um êxodo crescente de refugiados para a Europa, o fortalecimento do fundamentalismo e um novo Afeganistão, Iraque ou Somália, como também a desmoralização da diplomacia ocidental no mundo árabe, que segue no fio da navalha.

No Egito, os liberais laicos que puxaram as manifestações contra Mubarak são deixados de lado. Os militares confiaram aos religiosos a chefia da comissão que elaborou as emendas constitucionais e marcou as eleições. E o povo as respaldou com 77% dos votos, enquanto El Baradei foi escorraçado de sua seção eleitoral. Para os liberais, a exigência de 5 mil filiados em pelo menos dez províncias é excessiva e setembro, tempo insuficiente para conquistar votos. Ganham os religiosos, que se apresentarão em pelo menos duas variedades: light (Novo Centro, que se aproxima dos islâmicos turcos) e tradicional (Liberdade e Justiça, da Fraternidade Muçulmana), e talvez também ultraconservador (Salafis, ligados aos wahabitas sauditas) e radical (Jihad Islâmica). Os militares e a Fraternidade, pelo menos, apoiam a intervenção na Líbia, mas se o quadro se deteriorar no país vizinho, o povo egípcio pode inclinar-se a posições mais hostis ao Ocidente.

No Iêmen, o governo de Ali Abdullah Saleh, aliado dos Estados Unidos na guerra contra a Al-Qaeda, desmorona a olhos vistos e hoje só governa a capital. Generais rebelados e militantes sunitas, xiitas e separatistas controlam várias partes do país. Em Israel, os mesmos judeus que pressionavam os EUA para estender a invasão do Iraque à Síria, agora rezam para que Bashar el-Assad sobreviva aos crescentes protestos e a Síria não se torne outro Iraque. Líderes europeus cobram uma solução para o Estado Palestino antes que seja tarde demais e ameaça de apoiar seu reconhecimento pela ONU até setembro. Até o arrogante Benjamin Netanyahu sente a pressão, tanto que reagiu com relativa moderação ao primeiro atentado terrorista em Israel em sete anos e à nova barragem de foguetes disparada de Gaza. Tudo para não provocar o que antes parecia piada, mas se tornou seu pior pesadelo: uma Terceira Intifada. •

registrado em: