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Entrevista

Diminuir o poder dos responsáveis

por Eduardo Graça — publicado 25/10/2010 09h22, última modificação 25/10/2010 09h24
Em entrevista exclusiva à CartaCapital Carmen Reinhart, diretora do Centro de Economia Internacional da Universidade de Maryland, que serviu no FMI, defende restrições aos bancos

A acadêmica que serviu no FMI defende restrições aos bancos

Diretora do Centro de Economia Internacional da Universidade de Maryland, Carmen Reinhart deu, no início do mês, uma concorridíssima palestra na Universidade de Yale sobre as razões e especificidades da mais recente crise financeira global. Reinhart, que conversou com exclusividade com a CartaCapital depois de também apresentar sua visão – pessimista – do cenário econômico global no simpósio anual do Federal Reserve (FED), é uma das autoras de Oito Séculos de Delírio Financeiro, publicado no Brasil pela Campus e um best-seller nos EUA, resultado do minucioso estudo das crises financeiras planetárias nos últimos 800 anos. Seu parceiro na empreitada – o livro é considerado obrigatório para se entender os motivos da atual crise financeira global – foi o professor Ken Rogoff, da Universidade de Harvard, colega de Reinhart no FMI, no qual ocupou o cargo de economista-chefe entre 2001 e 2003.

A acadêmica norte-americana de origem cubana diz que a crise deve durar pelo menos mais uma década, que os emergentes devem sair lucrando com a retração do crescimento dos países desenvolvidos, concorda com o governo Lula sobre a necessidade de reformulação do FMI e do Banco Mundial e manda um recado para quem vier substituir o ex-líder operário: a política cambial precisa ser mais incisiva mas é necessário ao mesmo tempo reconhecer que o Real será um moeda mais forte nos próximos anos e diminuir gradativamente os juros internos afim de diminuir a atração dos investidores externos.

Abaixo segue a íntegra da conversa com a tão assertiva quanto simpática professora Carmen Reinhart:

CartaCapital: Passados dois anos da explosão da crise, qual o balanço da resposta do governo Obama à maior recessão econômica nos EUA desde os anos 30?
Carmen Reinhart
: Um mix de medidas boas e ruins. Estou desapontada com o fato de estarmos repetindo os erros do Japão e não ser agressivos na reforma dos balanços do setor bancário. O Tesouro se intimidou frente ao tamanho do problema e hoje, aqui nos EUA, vamos fingindo que está tudo bem no setor bancário, que há mais transparência na área de investimentos e de crédito, e não há. Neste aspecto, a política do governo Obama foi bem falha. Mas tanto a velocidade dos pacotes de estímulo econômico quanto a nova política monetária são pontos positivos. Claro, houve falha na hora de se transformar o estímulo em política real, em sua execução, mas o movimento de se fazer algo grande e rápido foi adequado.

CC: A senhora não concorda então com seu colega Paul Krugman, que aponta o tamanho dos pacotes de estímulo econômico – segundo ele muito tímidos – como a principal razão para a economia norte-americana não ter voltado a deslanchar este ano...
CR
: O problema foi a eficiência do governo, a capacidade de transformar a injeção de recursos em ações que gerassem emprego, que esquentassem a economia. O problema não é o tamanho do estímulo, mas a maneira como o investimento foi executado. Sim, no furacão da crise, no começo do governo Obama, o estímulo poderia ser maior. Mas esta crise não começou com uma deficiência de políticas do Poder Executivo ou de uma retração natural da demanda. A crise foi causada exclusivamente pelo setor financeiro,  pela baderna que lá se instaurou. É importante relembrar as pessoas da origem desta crise. Agora estamos reagindo, aqui nos EUA, não às causas da crise, mas aos resultados desta crise – o desemprego brutal e as deficiências na demanda. Esta crise não vai se resolver até que o setor financeiro lide com suas profundas deficiências.

CC: Não há como verificar de fato a natureza das operações do setor financeiro, por conta da inexistência real do que aqui se chama de “clean balance sheet”...
CR: Exato! Há todos os investimentos e empréstimos que não se explicam. O setor financeiro não é regido por regras normais, de qualquer outra indústria. É exatamente como  a crise japonesa, com o governo dando garantia aos bancos em empréstimos que, novamente, não se justificam. O governo induz os bancos a um delay, ao lucro relacionado com o atraso não-punido, que é muito problemático. Este é um problema sério, fundamental para a resolução da crise, que não se resolve nem desvalorizando o dólar nem colocando mais dinheiro na economia. Uma das maiores lições do caso do Japão foi que o adiamento da decisão de depreciar os valores das dívidas foi letal para a recuperação econômica do país.

CC: Japão e EUA são duas sociedades bem diversas. Durante o período mais duro da estagnação japonesa o partido governista manteve-se no poder. Mas aqui nos EUA há indícios de que o governo Obama pagará um preço caro nas eleições de 3 de novembro...
CR: Sim, especialmente porque as pessoas, os eleitores, não parecem entender que o alto índice de desemprego é resultado de uma recessão anormal. Não enfrentávamos uma crise tão severa desde 1930.

CC: A senhora diria que a administração democrata não conseguiu explicar para os eleitores que vive-se um período extraordinário?
CR: O governo Obama tem sido extremamente relutante em revelar a dimensão real da crise para a população. Em Oito Séculos mostramos que a mesma ideia de excepcionalismo econômico – “as regras que se aplicam a outros países, não se aplicam ao mercado norte-americano_ usada no boom econômico, repete-se na crise. Ninguém concorda que precisamos olhar para o Japão. Ora, somos os EUA, não precisamos de reforma financeira ou bancária.

CC: A senhora insiste neste tópico...
CR: Sim, e a América Latina é o melhor exemplo do momento. Vocês viveram uma década em que os grandes montantes de endividamento paralisaram as economias. É o que hoje enfrentamos nos EUA e nas economias dos países desenvolvidos. Na América Latina as conseqüências do chamado debt overhang são muito mais severas, porque se perde acesso ao capital internacional. Mas o jogo não é o mesmo com as economias desenvolvidas, exceção feita recentemente à Comunidade Européia, no caso da Grécia. Mas o importante é saber que o problema é o mesmo que vocês enfrentaram, e por conta disso, não adianta o governo Obama tentar resolver com política monetária e estímulo. Não vai adiantar. Vocês, no Brasil, sabem bem disso.

CC: Voltando às eleições, a senhora vê alguma perspectiva de o quadro se reverter a médio prazo, ferindo menos a tentativa de reeleição de Obama em 2012?
CR
: Não. Estudei o chamado Index de Miséria e sua relação com o ciclo eleitoral em todas as crises econômicas da democracia americana. Desemprego e inflação, juntos, determinam o resultado das eleições. De todas elas desde a fundação do país. Por isso, no encontro do FED, disse claramente que era pessimista no que se refere a uma recuperação a médio prazo da economia americana. Meu tema foi Depois da queda e mostrei que a década após uma crise financeira é sempre muito ruim tanto em relação ao crescimento do PIB quanto da geração de empregos.

CC: E anteriormente não haviam outros complicadores, como a transferência contínua de empregos, antes e durante a crise, para economias em desenvolvimento, como China e Índia...
CR: Você está absolutamente correto. Por isso precisamos olhar para a Crise de 1930, as crises japonesas e a nórdica, eminentemente bancária, nos anos 90, mas levando em conta que elas não aconteceram em um mundo globalizado como o de agora. Os mercados emergentes estão se saindo bem neste momento, este não é o fim do mundo, mas esta é uma década que, se repetir o padrão das 15 outras crises mais severas desde a Segunda Guerra Mundial, será de crescimento zero de comércio e de índice desemprego 5% mais alto do que o normal.

CC: A senhora diria que é também uma constante a diminuição de poder global das economias mais afetadas pelas crises, no caso, hoje, os EUA?
CR: Sim, é inevitável. Países credores, historicamente, tem mais influência política, com ou sem crise. E não há país credor mais importante hoje do que a China. É quem tende a aumentar o poder global neste momento.

CC: E o Brasil?
CR: O Brasil está numa posição forte, especialmente porque decidiu corajosamente combater a dívida externa e, em menor nível, a interna. Exatamente quando as grandes economias e os países emergentes do Leste Europeu acumulavam dívidas. Não me canso de frisar a importância de o Brasil ter limado sua dívida externa. Trata-se hoje de uma economia muito mais resistente. Pense numa casa. Se você pede dinheiro emprestado para pagar a hipoteca e o salário do chefe da família é cortado, a coisa fica complicada. Como pagar a hipoteca? Os países do Leste Europeu estão tendo de lidar com esta realidade. Agora, no caso do Brasil, é como se o salário tivesse sido cortado, mas o chefe da família foi prudente, não contraiu dívidas, pode enfrentar o choque de forma bem mais suave. Há algo importante para se dizer: m relação às grandes economias do planeta, aos mercados emergentes e à sua própria História, o Brasil nunca esteve em posição tão privilegiada, em termos de endividamento, quanto durante a crise financeira global. A questão agora é se o novo governo manterá esta lição para o futuro.

CC: A senhora poderia ser mais explícita?
CR
: A tentação óbvia é a de se contrair empréstimos. Investidores, no momento, estão se atracando para aplicar no Brasil. Mas já vimos este filme antes.

CC: Incluindo a sobre-valorização do Real frente ao Dólar...
CR: Sim, e o governo Lula está repetindo a estratégia de aumentar ou criar taxas na tentativa de inibir a fome dos investidores, como já se fez antes em Brasília. Sou velha ao ponto de lembrar dos primeiros momentos do Plano Real, do influxo absurdo de capital e depois da dolorosa desvalorização feita no governo FHC. O problema era o mesmo. E veja bem, sou favorável a  mecanismos mais rígidos de controle de capital. Mas o que de fato me preocupa é que, se as taxas de juros continuarem altas, não tem jeito, pode-se interferir o quanto Brasília quiser, investidores estrangeiros continuarão a achar a taxa de retorno uma das mais atraentes do planeta, ainda mais em um momento que a maioria das economias reduz drasticamente os juros, como os EUA. E o que ainda não foi bem digerida, para ser educada, nos meios econômicos brasileiros, é a lição aprendida por países que conseguiram controlar este fluxo de capital estrangeiro, como o Chile, que investiram pesado na redução dos juros internos. E, goste-se ou não, os setores produtivos brasileiros teráo de se adaptar gradualmente à idéia de um Real mais forte. Não digo isso por ser dogmática. Mas os efeitos de crises como a que vivemos agora são imensos, intensos e persistentes.

CC: O que o novo governo deve fazer então?
CR: Não há como lutar indefinidamente, com sucesso, contra alguma apreciação da moeda, com o nível atual de mobilidade de capital no planeta. Sei que ninguém quer ouvir isso agora, especialmente às vésperas de uma eleição tão importante, mas o novo governo precisará reduzir os gastos fiscais, que pressionam o câmbio, e também o investimento público em bens não-comerciáveis. Que ninguém no Brasil espere que os juros nos EUA vão subir a curto prazo, a política é exatamente a inversa. Não há bala de prata neste caso para quem vier a suceder Lula.

CC: De qualquer modo, nos próximos 10 anos, se a senhora tivesse de fazer a palestra que fez para o FED para economistas brasileiros, diria que o horizonte no Brasil é um pouco melhor do que o dos EUA?
CR
: Sem dúvida nenhuma. No entanto, declarações prematuras de vitória são os tendões de Aquiles dos mercados emergentes. Em 1998, antes da desvalorização do Real, a Argentina era a queridinha, o exemplo a ser seguido, pela comunidade financeira internacional. Precisamos ser cautelosos, embora esta década parece estar mesmo ser destinada a ser dos mercados emergentes. Que o Brasil seja cauteloso e use este cenário para não contrair dívidas. De novo: a tentação é grande.

CC: A senhora trabalhou no FMI. Concorda com a posição do governo Lula da necessidade de uma reforma na instituição, assim como no Banco Mundial, por conta do avanço dos emergentes?
CR: Lula está certíssimo. Penso que o poder de voto no FMI, por exemplo, precisa refletir a realidade econômica. Ainda quando seja inconveniente para as economias desenvolvidas. O que Lula propõe é o que nós, americanos, chamamos de catch-up, colocar a conversa em dia, os pingos nos is.

CC: A pergunta de um milhão de dólares: como os países desenvolvidos vão sair desta crise?
CR
: Para ser sincera, creio que uma das coisas que veremos será uma maior repressão financeira. Não existe jeito suave, como vocês bem sabem, no Brasil, de diminuir dívida. Não é apenas um realinhamento. É reestruturação ou quebradeira. É necessário austeridade, que ninguém gosta. É um cenário semelhante ao que as economias desenvolvidas enfrentaram depois da Segunda Guerra Mundial, quando estavam endividadas até o pescoço. E repressão financeira não é nada mais do que uma taxa, um imposto escondido, que todos pagam. Não tem jeito. Por isso estou chocada com a reação até branda contra a falta de punição, até o momento, na indústria financeira, que segue se premiando. E, deixando de lado qualquer julgamento ético, para sair desta crise só há um caminho: a redução, a diminuição, da indústria financeira. A parcela do setor financeiro no mercado está inchada. Nos anos 20 do século passado houve esta expansão também. Veremos nos próximos anos uma contração do setor, que ajudará os governos a lidar com suas dívidas e diminuir os juros internos. Estamos nos movendo para o que chamo de regulamentação prudente.