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Líbia

Dilúvio no deserto

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 22/02/2011 17h34, última modificação 25/02/2011 17h06
Depois de 42 anos de domínio quase incontestado, Kaddafi trava uma feroz e inesperada guerra civil. Em uma semana, perdeu o controle da maior parte do país

Depois de 42 anos de domínio quase incontestado, Kaddafi trava uma feroz e inesperada guerra civil. Em uma semana, perdeu o controle da maior parte do país

Enquanto cresciam as insurreições no Bahrein, no Iêmen e na Jordânia, o país de Muammar Kaddafi parecia tranquilo em meio à agitação árabe, apesar de ter fronteiras com a Tunísia e o Egito. Mas em menos de uma semana, saltou para a guerra civil aberta. Tudo o que se tinha visto nas manifestações do Oriente Médio e da África – que, além dos países citados, já afetam também Irã, Iraque, Kuwait, Omã, Djibuti, Marrocos, Sudão, Etiópia, Camarões, Angola, Zimbábue e Gabão – foi superado pela rapidez e violência dos eventos na Líbia.

A surpresa foi tanto maior pela falta de informações diretas e confiáveis sobre o país. Há muito tempo a Líbia não despertava o interesse dos correspondentes ocidentais. Nem sequer a Al-Jazira tinha lá um jornalista quando o movimento começou. E entre os que mantinham contato com o país, interesses conflitantes geraram certa relutância em aceitar os fatos.

O passado revolucionário de Kaddafi e sua retórica anti-imperialista, ainda não de todo extinta e às vezes respaldada por polpudos recursos financeiros, granjearam-lhe simpatia em setores da esquerda, notadamente a bolivariana: na terça-feira 22, enquanto o mundo se horrorizava com o bombardeio de civis líbios por aviões, helicópteros e canhões, o presidente Daniel Ortega telefonava ao ditador para lhe oferecer a “solidariedade do povo nicaraguense”.
Ao mesmo tempo, a reconciliação do líder líbio com as potências ocidentais na última década e sua lucrativa relação com as transnacionais, somadas à ameaça velada de Kaddafi de lançar centenas de milhares de refugiados nas costas da Europa, fizeram também a direita relutar em criticá-lo. No sábado 19, ao ter notícia de vítimas do conflito na Líbia, o primeiro-ministro italiano, Silvio
Berlusconi, negou-se a comentar o assunto: “Não, não falei com ele (Kaddafi). A situação está em evolução e, portanto, não me permito incomodar”.

*Confira este conteúdo na íntegra da edição 635, já nas bancas.

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