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Dilema de núpcias

por Gianni Carta publicado 02/02/2008 15h08, última modificação 25/10/2011 13h41
Menos glamouroso foi o fato de os recém-casados terem brindado com suco de laranja, algo impensável no país do champanhe

Menos glamouroso foi o fato de os recém-casados terem brindado com suco de laranja, algo impensável no país do champanhe
Na nova versão da propaganda televisiva do Nespresso, uma marionete de George Clooney, sorvendo café, vira-se quando uma marionete morena e feiosa o toca nas costas e se desculpa pelo fato de estar sem caneta. Contudo, a suposta fã, que não quer saber de Clooney nem de xícara de Nespresso, se explica: “Não, não quero seu autógrafo, quero o de Sarkozy”. Clooney vira-se, vislumbra, ao fundo, o fantoche do presidente, e, resignado, desabafa: “Sarkozy, of course”.

A popular emissão satírica de tevê Les Guignols de l’Info caricatura políticos desde 1988, mas nunca teve um fantoche tão adequado como aquele que encarna o compulsivo presidente francês, agora mais conhecido como “Bling Bling”, devido ao seu estilo de vida frenético, com aparições relâmpago ora nos Estados Unidos, ora na Rússia, em seguida na China, Índia, e... na Disneylândia Paris, em dezembro. Foi então que “Bling Bling” apareceu, pela primeira vez, com a bela Carla Bruni, ex-modelo e cantora turinesa, de 40 anos.

No sábado 2 de fevereiro, Sarko, aos 53 anos, entrou, mais uma vez, em ação, desta feita num bling bling “secreto”, mas com repercussões mundo afora. Três meses após ter se divorciado de Cécilia e dois meses após ter conhecido Carla, o presidente casou-se num salão nobre do Palácio do Élysée. Nem sequer um fotógrafo, pelo menos profissional, marcou presença. Uma pena, visto que a moça trajada em um vestido longo branco e com barras em tom azul-claro, devia estar um estouro.

Um certo glamour, óbvio, não faltou. O conúbio deu-se num luxuoso palácio, não numa prefeitura. Entre os 20 convidados selecionados a dedo (amigos ricaços do presidente, e a família multimilionária da cantora) estavam duas amigas íntimas de Cécilia: Agnès Cromback, poderosa chefe, na França, da Tiffany, e Mathilde Agostinelli, alta executiva da Prada e madrinha de casamento de Sarko.

A presença das duas poderosas senhoras teria sido uma flechada dada por Sarko em Cécilia, que o humilhou quando o abandonou naquele enorme palácio. Sobre as reações de Cécilia correm rumores díspares. Há quem diga que está furiosa e, do lado oposto, quem afirme que oito dias antes das núpcias com Carla, Sarko a convidou a reatar. Certo parece ser que ela vai se casar com o publicitário marroquino com o qual traiu o premier.

Menos glamouroso foi o fato de os recém-casados terem brindado com suco de laranja, algo impensável no país do champanhe. Motivo: Sarko, como seu amigo W. Bush, é, dizem, abstêmio. De qualquer forma, o brinde é também histórico por se tratar do primeiro chefe de Estado a se casar desde 1931, quando o presidente Gaston Doumergue fez o mesmo, e também no Élysée. Outro recorde de Sarko: ele é o primeiro chefe de Estado, desde Napoleão, a se divorciar.

Consumado o casamento, Sarko levou a nova mulher para passear nos jardins do Palácio de Versalhes. Com o gesto, houve, certamente, quem tenha comparado Carla a outra estrangeira, Maria Antonieta, mas esperamos que a italiana não tenha o mesmo fim da ex-habitante do palácio.

As eminências pardas do Élysée esperam que o casamento seja benéfico sob vários ângulos. Com sua vida privada estabilizada, talvez o presidente, com um índice de popularidade em queda vertiginosa, poderá tentar implementar as reformas econômicas que constavam de seu programa eleitoral. Em particular, o povo irrita-se com um presidente que expõe sua vida de rico e privada e não faz nada sobre o prometido aumento do poder aquisitivo do povo.

No establishment, o casamento de Sarko também é bem-vindo por uma questão de protocolo. A rainha Elizabeth II, por exemplo, estava arrancando os cabelos com a visita, ao seu Castelo de Windsor, de Carla e Sarko, no próximo mês. Deveriam ser colocados em aposentos separados ou no mesmo?

Mas Sarko também corre altos riscos com Carla. Às vésperas das eleições municipais de março, o presidente e seu partido de direita, União por um Movimento Popular (UMP), estão diante de um mar revolto – e o “efeito Carla”, a despeito do comedido casamento, poderá agravar o desgaste para a UMP.

E como se comportará Carla como primeira-dama? Como conciliará seu papel de primeira-dama com sua carreira de cantora (seu terceiro CD será lançado ainda neste ano)?

Maria Boroni, mãe da moça, avisou a Sarko que sua filha precisará de tempo para trabalhar, e de um estúdio de gravação, no Élysée. Mais preocupante é o fato de um ano atrás Carla ter dito para o diário Le Figaro que acha a monogamia uma chatice. O futuro da França depende do casamento desse casal, por ora insondável.