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Difícil primavera palestina

por Viviane Vaz, em Jerusalém — publicado 22/03/2011 09h29, última modificação 24/03/2011 17h28
Jovens querem união dos governos em Gaza e Cisjordânia; o presidente da Autoridade Palestina, Mahmud Abbas, pede licença a Israel e ao Hamas para ir a Gaza
Difícil primavera palestina

Jovens querem união dos governos em Gaza e Cisjordânia; o presidente da Autoridade Palestina, Mahmud Abbas, pede licença a Israel e ao Hamas para ir a Gaza. Por Viviane Vaz. Foto: Mohammed Abed/ AFP

Jovens querem união dos governos em Gaza e Cisjordânia; o presidente da Autoridade Palestina, Mahmud Abbas, pede licença a Israel e ao Hamas para ir a Gaza

Os jovens palestinos não pretendem ficar de fora da primavera árabe. Organizados por meio de redes sociais na internet, milhares de manifestantes se reuniram na terça-feira passada no centro de Ramalah e de Gaza para pedir a união dos governos da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, hoje divididos entre partidos rivais: Fatah (do presidente da Autoridade Palestina, Mahmud Abbas) e Hamas.

Em outra cidade da Cisjordânia, Belém, uma centena de jovens palestinos continua as manifestações. Depois das orações de sexta-feira na Mesquita de Omar, rapazes e moças se juntaram na praça da Manjedoura, próxima à igreja da Natividade, e cantaram em árabe: "O povo quer unidade nacional! Hamas e Fatah, unam-se pela Palestina". O estudante Joudat al-Sayah disse ao site de notícias Palestina News Network que o grupo contava apenas com nove pessoas na quarta-feira até chegar a uma centena na sexta-feira. "Esperamos que o número aumente", avisa o jovem palestino.

Apesar de o Estado ser reconhecido por um número cada vez maior de países sul-americanos --na semana passada foi a vez do Uruguai do presidente José Mujica, o povo palestino ainda se encontra insatisfeito com a repartição de poder desde junho de 2007. "É tempo agora de a Palestina ficar unida para enfrentar problemas maiores como a ocupação, para que possamos criar um Estado, instituições e um país livre", diz o economista Rami Azzeh, 22 anos, ao jornal Palestine Monitor. "Sou uma pessoa normal, sou um palestino, não Fatah ou Hamas", completa o manifestante, Qusai Antaree, 42. "Temos uma mensagem ao governo: queremos que Gaza e a Cisjordânia seja uma só. Somos um único povo, uma terra, queremos unidade".

A ausência de um único interlocutor palestino é uma das razões apontadas pelo governo do premiê israelense Benjamin Netanyahu para o fracasso nas negociações de paz. Apesar de se posicionar contra a construção de assentamentos judeus em território palestino, Abbas defende uma solução negociada com os israelenses. Já o Hamas prega a destruição de Israel e se nega a dialogar com o Estado vizinho.

Divididos
O protesto simultâneo em Gaza e Ramalah foi organizado por ativistas independentes, sem afiliação partidária, mas integrantes do Fatah e do Hamas intervieram nos atos públicos. Em Gaza, dez estudantes ficaram feridos quando as forças de segurança do Hamas impediram que os jovens acampassem em uma praça. Em Ramala, integrantes do Fatah acompanharam os protestos e tentaram distribuir refrigerantes e o tradicional falafel, mas os jovens rejeitaram os agrados.

Convidado pelo premiê do Hamas, Ismail Haniyeh, para visitar Gaza, Abbas pediu permissão na sexta-feira ao premiê israelense para chegar ao território. O presidente palestino garantiu que não quer dialogar com o Hamas, mas somente chegar a um acordo para organizar as eleições marcadas para setembro. "Quero dizer ao povo que apoiamos as eleições legislativas e presidenciais, e também para o Parlamento, porque as eleições são a única maneira de acabar com a divisão", anunciou. Abbas ressaltou ainda que enquanto a terra não for reunificada, não haverá solução com Israel, nem Estado palestino, nem eleições.

Mas, em entrevista à CNN, Netanyahu jogou um balde de água fria na viagem do presidente palestino, recordando que considera o Hamas um grupo terrorista e não um partido político. Segundo fontes do Jerusalem Post, o Hamas também se encontra dividido sobre a visita de Abbas a Gaza. Líderes do Hamas na Síria, como Izaddin al-Kassam, teriam se manifestado contra sua presença em Gaza, colocando Hanieyeh em maus lençóis. O grupo também rejeita a organização das eleições palestinas em setembro e se posicionou contra a proposta de reconciliação de Abbas, que previa a formação de um governo com representantes dos dois partidos.

Reunião na Rússia
Abbas e Netanyahu devem se encontrar nesta semana em Moscou com o presidente russo, Dmitri Medvedev, para continuar as negociações do processo de paz. O tema da unidade nacional palestina, a continuidade das construções de colônias judaicas em Jerusalém e os recentes assassinatos de uma família de judeus na Cisjordânia e de um palestino em Hebron prometem ocupar a agenda dos dois presidentes, que se reunirão com Medvedev em encontros separados.

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