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Dias inconvenientes

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 29/10/2010 10h12, última modificação 29/10/2010 15h53
A incapacidade de enfrentar uma realidade na qual pirâmides desabam e lugares-comuns neoliberais não funcionam leva à busca de bodes expiatórios
Dias inconvenientes

A incapacidade de enfrentar uma realidade na qual pirâmides desabam e lugares-comuns neoliberais não funcionam leva à busca de bodes expiatórios. Por Antonio Luiz M. C. Costa. Foto: Stephen Jafee/ AFP

A incapacidade de enfrentar uma realidade na qual pirâmides desabam e lugares-comuns neoliberais não funcionam leva à busca de bodes expiatórios

Publicado no jornal britânico Telegraph, excertos de uma nova edição de Freefall (Queda Livre), livro de Joseph Stiglitz originalmente lançado em janeiro, caíram como bombas na mídia europeia. Revisto e atualizado para incorporar oito meses de eventos mais recentes, incluindo a crise europeia e suas repercussões, ficou bem mais sombrio no que se refere às perspectivas da economia dos países ricos e à extensão das fraudes do setor financeiro.

Nesse período, escreve o ex-economista-chefe do Banco Mundial, desintegrou-se o consenso inicial do G-20 em favor de medidas concertadas de caráter keynesiano. Viram-se governos e economistas aceitarem uma “nova normalidade” de desemprego alto, baixo crescimento e desmantelamento de serviços públicos. É a “doença japonesa”, com décadas de estagnação à vista e agravada: no Japão, ao menos o desemprego permaneceu relativamente baixo e a coesão social ainda não foi seriamente abalada.

Os mesmos bancos e analistas financeiros, cujos erros e fraudes criaram a crise, exigem cortes de gastos dos governos que os socorreram e contribuem assim para que ela se torne mais persistente, em seu próprio prejuízo. Foi o que aconteceu com a Espanha: assim que atendeu à pressão dos bancos e anunciou cortes de gastos públicos, seus títulos de dívida foram rebaixados, pois isso reduziria seu crescimento, segundo as agências de classificação. Como se diz em português, presa por ter cão, presa por não tê-lo.

A Irlanda, o “Tigre Celta” de há alguns anos, cuja liderança em crescimento econômico na Europa Ocidental era atribuída às virtudes da desregulamentação de seu setor financeiro, não hesitou ante a crise e foi a primeira a embarcar na “política de austeridade”. Hoje, seus títulos pagam o segundo maior prêmio de risco da União Europeia, menor apenas que o da Grécia. Os 420 pontos-base do seu risco-país praticamente igualam os do Iraque (457) e do falido Dubai (436) e superam amplamente o Líbano (299) e o Vietnã (268), para não falar da Rússia (175) ou do Brasil (144).

Para Stiglitz, se os EUA criaram a crise, é a Europa que mais a alimenta. E sugere soluções drásticas: uma paradoxal saída da Alemanha do euro – impulsionou sua criação e praticamente controla o Banco Central Europeu, mas agora seus interesses estão em conflito com a maior parte da região – ou a divisão da Zona do Euro em duas regiões e duas moedas, ideia já ventilada por outros economistas pouco ortodoxos.

Se essas ideias soam inusitadas e radicais, é uma virtude. Nada é mais perigoso e contraproducente, nestes dias, que o apego desesperado das elites políticas, midiáticas e econômicas às práticas que fizeram suas fortunas nos anos de prosperidade. Estas dependem do lugar-comum de que com livre mercado, desregulamentação e austeridade fiscal todos os problemas se reduzem a dois tipos: os que se resolvem sozinhos e os que não têm solução.

Ao mesmo tempo que silencia alternativas e trava a discussão de questões fundamentais, essa atitude estimula a busca de bodes expiatórios para problemas sociais e econômicos generalizados – conspirações, imigrantes estrangeiros, o marxismo, os ciganos, os árabes, os turcos. Nem sempre com os resultados esperados, é verdade: na França, a campanha de Nicolas Sarkozy contra os ciganos romenos, mesmo com apoio popular, não impediu os sindicatos de promoverem contra sua reforma da aposentadoria a maior greve desde 1995. Mas sempre se abre caminho à aceitação como normal de teorias conspiratórias e de teses xenófobas e maniqueístas para tentar explicar por que um sistema supostamente perfeito e harmonioso parou de funcionar.

Não apenas em cartazes e palavras de ordem de comícios do Tea Party e de seus equivalentes europeus, mas também, por exemplo, em artigos nas páginas da Forbes, uma das bíblias (junto com a Fortune) do capitalismo dos EUA. Na edição da segunda quinzena de setembro, o neoconservador evangélico Dinesh D’Souza – ele mesmo imigrante indiano, com pais originários da ex-colônia portuguesa de Goa – chama Barack Obama de “o presidente mais antiempresarial em uma geração, talvez na história dos EUA”. Não por ser “sem noção em relação aos negócios” ou “socialista ao estilo europeu”. Segundo ele, essas acusações comuns na comunidade empresarial não são falsas, mas “inadequadas”: o pecado mortal de Obama é o “anticolonialismo”.

D’Souza dá como exemplo “comportamentos estranhos” como defender o direito dos muçulmanos a construir uma mesquita em Manhattan e aprovar um empréstimo do Eximbank para a Petrobras explorar petróleo no mar, enquanto a mesma atividade estava suspensa nos EUA, devido ao vazamento no Golfo do México. E atribui essa postura à herança do pai de Obama, “um homem da tribo Luo que cresceu no Quênia”. Qualquer dissenso em relação ao que a comunidade empresarial dos EUA pensa serem seus interesses faz de um presidente um agente de interesses anticoloniais estrangeiros transmitidos de pai para filho, mesmo se esse mesmo presidente também ordena a escalada da intervenção militar do Pentágono no Afeganistão e Oriente Médio.

E o dissenso é, na prática, realmente pequeno, a ponto de integrantes do establishment, como o economista Paul Krugman ou o investidor George Soros, que nada têm de revolucionários comunistas, criticarem a timidez de Obama ao evitar a estatização dos grandes bancos e propor pacotes de estímulos insuficientes para conter o aumento do desemprego. Assunto do dia dos dois lados do Atlântico, tanto que o Nobel de Economia foi, desta vez, concedido a três economistas (Christoper Pissarides, Peter Diamond e Dale Mortensen) que estudaram fatores que impedem o mercado de trabalho de funcionar suavemente e sem choques, de acordo com a utopia liberal.

Mas mesmo visões embasadas no keynesianismo têm dificuldade em apontar uma proposta realista. Krugman admite que um pacote das dimensões necessárias talvez não fosse politicamente viável (embora censure Obama por não tentar) e que mesmo o New Deal de Roosevelt serviu apenas para amenizar a crise de 1929, enquanto a entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial não gerou um pretexto politicamente aceitável para a enorme escalada de gastos públicos necessária para tirar a economia do atoleiro.

Na falta de uma receita clara, essas visões centristas acabam por procurar seus próprios bodes expiatórios – acompanhe-se, por exemplo, a crescente insistência de Krugman em impor sanções à China para obrigá-la a valorizar sua moeda em relação ao dólar.
A postura da China em relação aos EUA é análoga à da Alemanha em relação à Grécia e demais países devedores da Europa. Para proteger os interesses imediatos de seus exportadores e não arriscar a sua estabilidade econômica e política, ambos querem manter a atual paridade cambial e pressionam os devedores a pagar as contas apertando cintos e cortando gastos e salários, mesmo que isso prejudique sua capacidade de importar. A guerra cambial é a mesma: a diferença é que os EUA têm mais poder de fogo para se defender, emitem e controlam a moeda que denomina a sua própria dívida (enquanto Grécia, Portugal e Espanha têm suas dívidas em moe­da emitida e controlada, na prática, pela Alemanha) e têm o apoio da maior parte da mídia global, razão pela qual os chineses são vistos como vilões e os alemães como gente austera e trabalhadora, que defende seriedade e bons princípios comerciais.

Como mostrou a reunião do FMI e do Banco Mundial em Washington, e provavelmente confirmará a reunião do G-20 em Seul, nenhum lado quer ceder a uma negociação que distribua razoavelmente os custos do ajuste. Todos esperam recuperar ou manter sua própria “normalidade” à custa dos países mais fracos, assim como, dentro de cada país, banqueiros e empresários tentam manter a sua à custa dos trabalhadores, e parte destes, por sua vez, tenta se proteger expulsando os que estão em condições ainda piores, como os imigrantes sem documentos.

Mas a “normalidade” dos anos 90 não voltará. Não só as relações de poder econômico entre EUA, o Ocidente e o resto do mundo se modificam de maneira irreversível, como é cada vez mais claro que a prosperidade do auge neoliberal foi toda ela uma fraude, uma pirâmide financeira ou esquema Ponzi em escala gigantesca, sem substância por trás: ações em Bolsa cotadas com base em fantasias impossíveis sobre crescimento ilimitado, empréstimos hipotecários a devedores incapazes de pagá-los e derivativos incompreensíveis baseados em avaliações irreais dos riscos dessas dívidas.

Verdade ainda mais inconveniente – mesmo difícil de admitir para neoclássicos, keynesianos e até parte da própria esquerda – é que a própria base real dessa prosperidade virtual e fictícia é de certa forma uma pirâmide, no sentido em que se baseia em sacar recursos finitos enquanto se alimenta a ilusão de que isso poderá continuar para sempre. Pouco importa se esses recursos são o bolso de otários, o salário de trabalhadores ou reservas minerais, florestais e energéticas. A longo prazo, não haverá economia sustentável sem redistribuição e planejamento em escala mundial.

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