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Depois de dois anos difíceis, Venezuela espera superar crise econômica após as eleições

por Opera Mundi — publicado 24/09/2010 11h53, última modificação 24/09/2010 11h53
Apesar dos problemas conjunturais, no entanto, o PSUV de Chávez conta com alguns trunfos acumulados ao longo dos ano

Por Lamia Oualalou*

As eleições legislativas na Venezuela ocorrem num momento economicamente ruim. Após cinco anos de bonança, com elevadas taxas de crescimento, a Venezuela conheceu uma recessão em 2009, registrando uma retração de 3,3% no PIB (Produto Interno Bruto), puxada pela crise econômica mundial e pela queda no preço do petróleo.

A crise energética, provocada por uma seca excepcional e por investimentos abaixo do necessário no setor, foi um dos fatores que impediram que a Venezuela acompanhasse outros países da América Latina na retomada do crescimento em 2010: Brasil e Argentina, por exemplo, projeto uma expansão de 7% em no ano, enquanto o PIB da Venezuela recuou 3,5% no primeiro trimestre de 2010 e 1,9% no segundo trimestre.

A recuperação dos preços do petróleo venezuelano (mais pesado e, portanto, mais barato que o cotado em Nova York), que chegou a 70 dólares no primeiro semestre, contra 57 dólares em 2009, não foi suficiente para resolver os problemas de caixa da estatal petroleira PDVSA. O resto da economia também sofreu novas quedas: -20% no setor da mineração, -6% na construção civil e -6% no comércio.

Apesar dos problemas conjunturais, no entanto, o PSUV de Chávez conta com alguns trunfos acumulados ao longo dos anos. Há também a expectativa de que a situação melhor, pois o governo ainda conta com mecanismos para estimular uma retomada econômica.

“A inflação, a recessão, e a insegurança afetam os setores populares”, reconhece o sociólogo Antonio González Plessman. “Mas aqueles que acreditam que Chávez está derrubado estão enganados".

Menos miséria - Segundo Plessman, as pessoas não esquecem que, durante a última década, a pobreza foi reduzida em 47% e a miséria, em 70%. Os investimentos sociais per capita triplicaram e o atendimento médico gratuito foi estendido a milhões de pessoas. Em maio deste ano, a Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe), da ONU, afirmou que a Venezuela era o país do continente onde a desigualdade mais caiu entre 2002 e 2008.

O país também tem dificuldades com a inflação, que pode chegar a 30% ao ano em 2010. Apesar da retração econômica, o consumo é elevado diante da demanda, pois é puxado por essas bem sucedidas políticas de distribuição de renda, que permitiram aos mais pobres entrarem no mercado consumidor e ter, entre outras coisas, acesso a uma alimentação melhor.

“Evidentemente, a tendência decrescente do PIB vai continuar diminuindo. Já passamos a parte mais difícil", avalia o ministro das Finanças, Jorge Giordani.

Incentivos - A retomada das relações diplomáticas com a Colômbia também deveria ajudar uma recuperação mais rápida, já que, antes da crise, o vizinho era o principal parceiro econômico do país na região.

“Para acabar com a recessão, o governo deve retomar políticas contracíclicas com investimentos significativos”, diz Weisbrot. Recentemente, Chávez lançou o programa “Minha Casa Equipada” para a aquisição de eletrodomésticos chineses a preços baixos ou a crédito. A medida faz parte dos convênios bilaterais adotados entre Venezuela e China.

“O governo deve, porém, incentivar mais as produções locais”, reconhece um economista próximo do Palácio Miraflores, sede da presidência.

Racionamento - Para enfrentar a crise no setor elétrico, nacionalizado em 2009, o governo do presidente Hugo Chávez decretou um racionamento drástico de água e eletricidade, forçando parte das empresas a reduzir ou parar atividades. Nos domicílios, os cortes de energia foram limitados às províncias – para os críticos do governo, por razões políticas: “O que não acontece em Caracas não acontece na Venezuela”, diz um lema político no país.

Em 2009, o fluxo de investimento estrangeiro direto foi negativo (-3,1 bilhões de dólares), decorrente em parte à política de nacionalização, que afasta alguns investidores estrangeiros. Além disso, a inflação dos últimos anos provocou uma valorização artificial do bolívar, a moeda nacional, dificultando a diversificação de uma economia que depende, basicamente, do petróleo: as vendas do óleo representam 95% das exportações e mais da metade da arrecadação fiscal do país.

“Se o governo quiser mesmo diversificar a economia do país, vai precisar de um câmbio mais competitivo”, avalia o economista Mark Weisbrot, co-diretor do Centro de Pesquisas Econômicas e Políticas, em Washington.

Previsões erradas - A desvalorização decretada em janeiro é considerada insuficiente por Weibrot. O governo instituiu duas taxas oficiais do dólar: 2,6 bolívares para importações prioritárias, fundamentalmente do Estado, e 4,3 bolívares para o resto.

A falta de dólares obriga uma parte das empresas a trocar bolívares no mercado paralelo, as taxas muito mais altas, o que encarece diversos produtos.

Weisbrot ressalta o fato de que as previsões negativas erraram muitas vezes em relação à Venezuela. Embora muito forte, a inflação não está fora de controle. Além disso, a diminuição de 1,9% no PIB no segundo trimestre é menos forte do que esperavam os analistas.

*Matéria originalmente publicada no site Opera Mundi

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