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Crise financeira

Democracia grega em xeque

por Redação Carta Capital — publicado 28/05/2012 15h00, última modificação 06/06/2015 18h18
A tática da classe dominante europeia para deslegitimizar o partida de extrema-esquerda grego é o terrorismo político, que diz que, com o Syriza, o caos reinará.
LOUISA GOULIAMAKI / AFP

Tsipras durante campanha eleitoral na Grécia, em maio. Foto: Louisa Gouliamaki / AFP

Por Luciana Genro*

Alexis Tsipras fala de forma tranquila, mas forte e firme. Transmite a segurança que o povo grego busca para enfrentar a troika, como é chamado o trio composto pelo Banco Central Europeu, FMI e a Comissão Européia. A troika é a responsável por impor e fazer cumprir o Memorandum, conjunto de medidas econômicas e políticas que vêm levando a Grécia a um desastre social. No domingo 20 tive a oportunidade de conhecê-lo na reunião do comitê central do seu partido, o Synaspismos, idealizador e principal componente da coalizão Syriza. Seu discurso foi enfático: “Querem nos convencer de que a Europa tem proprietários. Mas a Europa tem que pertencer aos seus povos! Começaremos pela Grécia, ajudando os demais povos a seguir adiante.” Lá estive para levar à Syriza o apoio e a solidariedade do PSOL. Nos sentimos irmãos desta coalizão da esquerda radical. Aqui a palavra radical serve mais do que nunca: as propostas da Syriza buscam extirpar o mal que assola a Grécia pela raiz, sem aceitar maquiagens.

O clima político no país é de apreensão. Após as eleições de 6 de maio, nenhum partido conseguiu maioria para formar o governo. A grande surpresa foi a votação da Syriza. Nas eleições de 2009 havia conquistado 12 deputados no parlamento, obtendo cerca de 4% dos votos. Quatro deles, inclusive, deixaram a coalizão para formar outro partido, a Esquerda Democrática, mais propensa a conciliação com o PASOK, o tradicional partido socialista que iniciou a aplicação dos planos de ajuste. O desgaste levou à substituição do primeiro-ministro socialista Georgios Papandreou pelo tecnocrata Lucas Papademos, um interventor da troika, em um governo de unidade nacional para garantir a continuidade da aplicação da austeridade, sustentado no parlamento pela Nova Democracia e pelo próprio PASOK.

O PASOK foi o grande derrotado da eleição: despencou de 160 cadeiras no Parlamento para apenas 41, ficando em terceiro lugar. A deputada mais votada da Syriza, Sofia Sakorafa, era uma antiga figura do PASOK e rompeu com o partido ao votar contra o primeiro plano de ajuste da troika. A má notícia foi o crescimento da direita fascista, o Aurora Dourada, que obteve 21 deputados. Mas estes resultados já são coisa do passado, já que nas novas eleições do dia 17 de junho muita coisa pode mudar. As pesquisas indicam que a Syriza pode vencer.

Por isso a classe dominante grega e europeia está de cabelos em pé. Sua tática para tentar derrotar a Syriza é o terrorismo político. A ameaça é que se a Syriza governar a Grécia deixará o Euro e o caos reinará. O maior desejo dos profetas do apocalipse era que a Syriza defendesse a saída da Grécia do Euro, pois mesmo indignado com os ajustes impostos, as pesquisas mostram que o povo grego não quer seu país isolado da Europa, fora do Euro. Mas a Syriza não caiu nesta armadilha. Sua crítica ao processo de construção da União Europeia e à forma como a zona do euro foi desenhada é contundente, mas a luta é por uma Europa alternativa. Sua proposta é a construção de uma nova geografia política para a União Européia. Por isso em todos os seus discursos,  Tsipras faz questão de reafirmar que o problema da Grécia é de toda a Europa, e que lá a troika desenvolve seu “laboratório” para medir os resultados e seguir aplicando os ajustes nos demais países em crise. Espanha, Portugal e Itália vivem os mesmos dilemas, embora ainda não na forma aguda da Grécia, visto que esta pode entrar em default a qualquer momento. Enquanto o establishment político da Grécia e da Europa tenta pautar o debate eleitoral em torno do dilema de ficar ou não na zona do Euro, ameaçando com a possibilidade da Grécia ser expulsa se o memorandum for anulado, a Syriza rejeita esta pauta e questiona: quem vai seguir pagando a conta da crise?

A Grécia tem uma tradição de luta milenar. Foi invadida pelos romanos, pelos persas, mais recentemente pelos alemães, mas sempre resistiu e sobreviveu. Não por casualidade o personagem heroico da resistência contra a ocupação alemã, Manolis Glezos, foi eleito deputado pela Syriza. Aos 90 anos, Manolis é o homem que em maio de 1941 subiu à Acrópole para tirar a bandeira da suástica e fincar a bandeira grega, ato que ficou marcado como o primeiro da resistência contra a ocupação. Mesmo idoso ele fez questão de ser deputado para dar um recado aos fascistas da Aurora Dourada e dialogar com a base social deste partido, que em grande parte são jovens revoltados com o sistema e que ignoram os perigos do fascismo.

A Europa está massacrada pela crise e por políticas governamentais que tem como único objetivo garantir os interesses dos bancos. A Grécia é o ponto mais avançado do ajuste, mas também da resistência. Antes do dia 17 de junho, data das novas eleições gregas, em 31 de maio será o referendo na Irlanda para ratificar o plano de ajuste fiscal. No mesmo 17 de junho veremos também as eleições legislativas na França. Serão duas oportunidades importantes de manifestação contra os planos de ajuste. A peculiaridade da Grécia é que lá um partido de esquerda radical está às portas do poder. Para chegar até aí, a receita da Syriza pode e deve ser copiada: primeiro, a combinação da luta parlamentar com a luta de massas. Diferente do sectário Partido Comunista, a Syriza esteve na linha de frente junto com o “Movimento das Praças”, como eles chamam a articulação que levou milhares à Praça Syntagma nos últimos dois anos, e 500 mil só no dia 12 de fevereiro. A Syriza também foi elemento fundamental na construção das 17 greves gerais que paralisaram a Grécia nos últimos dois anos.

Outro ingrediente fundamental no sucesso eleitoral da Syriza foi a sua campanha baseada em 5 reivindicações simples e diretas: abolição do Memorandum, isto é, fim dos cortes nos salários, aposentadorias, aumentos de impostos e reformas trabalhistas; auditoria internacional da dívida, pois ela não é do povo e sim do sistema, com a consequente anulação de pelo menos parte dela; nacionalização dos bancos, pois eles já receberam muito dinheiro público e devem ser socialmente controlados; mudanças na lei eleitoral para democratizar o sistema político; um novo plano econômico e social para construir uma nova Europa.

Mas foi a postura adotada por Tsipras e pela Syriza que lhe garantiu a credibilidade pós-eleitoral para tornar-se o desaguadouro da revolta contra o ajuste, que na eleição de 6 de maio foi distribuído, entre outras forças políticas, com um discurso anti–Memorandum. Tendo obtido mais de 16% dos votos, pelas regras do parlamentarismo grego a Syriza foi a segunda força a ser chamada para tentar obter maioria para formar um governo. Foi neste momento chave que Tsipras consolidou sua liderança: não aceitou ceder aos apelos para formar um governo que não tivesse como pressuposto a anulação do Memorandum. Manteve-se fiel às propostas defendidas na campanha, mesmo à custa da convocação de uma nova eleição, com todas as dificuldades e riscos que isto implica. Os dirigentes da Syirza sabem que a vitória em 17 de junho é muito difícil. Gigantes conspiram e trabalham abertamente contra eles. Mas independente do novo resultado das urnas a Syriza será uma força política fundamental na Grécia e uma referência para toda a esquerda que pretende se constituir em uma alternativa real de poder, sem abrir mão do seu radicalismo.

 

* Luciana Genro, ex-Deputada Federal, é Advogada e Presidente do PSOL Porto Alegre.

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