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Internacional

Contracorrente

Decisões em época de incertezas

por Luiz Gonzaga Belluzzo publicado 01/02/2011 10h13, última modificação 02/02/2011 12h45
As origens da crise, as lamentações de Davos e a ação do Estado
Decisões em época de incertezas

As origens da crise, as lamentações de Davos e a ação do Estado. Por Luiz Gonzaga Belluzzo. Foto: Fabrici Coffrini/AFP

Em davos, os potentados do mundo dos negócios e da política cuidam de lamentar a hostilidade das maiorias descontentes com os rumos da economia global. Nos Estados Unidos, a Comissão do Congresso incumbida de avaliar as causas da crise sentenciou que a “grande tragédia” foi aceitar o refrão da impossibilidade de se reconhecerem os sinais da tormenta e, pior, concluir que nada havia a fazer. Despejadas das moradias recém-adquiridas e impagáveis, as famílias devedoras descarregam a ira nos banqueiros excessivamente espertos e reguladores demasiado negligentes. Essa busca e (improvável) captura de culpados revela a precariedade histórica e analítica que se apoderou do debate contemporâneo sobre as origens da crise.
O espírito do tempo, atoleimado com o advento das informações instantâneas, da mídia de massas e de suas ramificações ciberespaciais, sempre inchadas de sábios de duas frases e cinco palavras, se encarregou do resto do serviço: simplificar os problemas e massacrar a inteligência alheia com caganifâncias e vulgaridades. É verdade que não são tão escassos os observadores que se empenharam em reconstruir o movimento e as transformações ocorridas no capitalismo global nos últimos 30 anos.

Nas últimas semanas, recostado na recuperação de minhas dores, entreguei-me, sob os auspícios do Kindle e do iPad, a ler e reler bons livros sobre as origens da crise e seus desdobramentos. Entre os novos, sugiro os trabalhos de Wolfgang Munchau (The Meltdown Years) um texto de grande valor didático, o que não lhe corrói o rigor teórico. A leitura de Munchau encontra complemento enriquecedor na incursão de John Quiggin (Zombie Economics). O autor dedica-se ao desvendamento das relações perigosas entre o pensamento dominante, as mazelas e omissões dos formuladores das políticas e as condições sociais e econômicas que permitiram tal contubérnio.
Entre os livros mais antigos, vale a pena uma releitura do outrora menosprezado e ora celebrado Hyman Minsky, sobretudo dos indispensáveis John Maynard Keynes e Stabilizing the Unstable Economy. O primeiro livro leva o nome do maior economista do século XX e foi escrito com o propósito de libertá-lo do cativeiro em que o enfiaram seus discípulos do “keynesianismo bastardo” e as forças, hoje debilitadas, do monetarismo de Milton Friedman. Publicado em 1975, John Maynard Keynes era um texto quase clandestino nas academias americanas e brasileiras – essas abastecidas por aquelas. Minsky era apenas estudado nas escolas de economia em que predominava o pensamento livre, despojado dos preconceitos e de certezas, ou seja, das crenças e superstições da economia teoclássica que Quiggin destroça em Zombie Economics. (O dicionário do Word tenta me corrigir e insiste na expressão neoclássica. Coisas de dicionários desatualizados.)
Inspirado em Keynes, Minsky procura mostrar que a concorrência entre os possuidores de riqueza afeta as avaliações dos que buscam a maximização do ganho privado. Para ele, as decisões privadas – tomadas em condições de incerteza radical – estão sempre sujeitas à má avaliação do risco e à emergência de comportamentos coletivos de euforia que conduzem à fragilidade financeira e a crises de liquidez e de pagamentos. As decisões capitalistas supõem, portanto, a especulação permanente a respeito do futuro, o que envolve a contínua reavaliação do presente.

“As decisões financeiras”, diz Minsky, “são tomadas em torno de um futuro imaginado por credores e devedores como resultado de negociações em que são trocadas informações e desinformações. O resultado reflete opiniões sobre um projeto particular à luz dos sucessos e fracassos da economia no passado recente e no mais distante... A incerteza em relação ao modelo adequado para formar as expectativas pode ser maior se muitos anos se passaram desde a última crise financeira... Essa incerteza fundamental significa que as margens de segurança calculadas pelos agentes devem variar”.
Na segunda metade do século XX, o sucesso das intervenções governamentais amainou a severidade das flutuações econômicas e suscitou hipóteses otimistas a respeito do controle do ciclo econômico. O economista Hyman Minsky escreveu nos anos 80 que “a economia e os mercados financeiros (na crise de 1974-1975) mostraram grande resistência à deflação cumulativa de preços dos ativos e ao risco de uma depressão profunda. Os choques foram absorvidos e suas repercussões atenuadas”.
Diante do fraco desempenho econômico dos anos 70 do século passado, no entanto, a palavra de ordem entre os conservadores era desarticular os controles sociais e políticos criados para administrar a “economia de mercado”, após a Grande Depressão dos anos 30. A aventura terminou em uma destemperada intervenção do Estado para “salvar o capitalismo destrambelhado de si mesmo”. •

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