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Pacifismo

Dalai Lama sobre Paris: "Não esperem ajuda de Deus ou de governos"

por Deutsche Welle publicado 19/11/2015 09h30
Após os ataques terroristas em Paris, o líder espiritual tibetano disse que não se pode esperar que Deus resolva os problemas criados pelos homens
Pankaj Mistry
Dalai-Lama

"Não podemos resolver esse problema apenas através de orações", diz Dalai Lama

Para seus milhões de devotos no mundo todo, o Dalai Lama, líder espiritual do povo tibetano, é a personificação da humanidade e da compaixão.

Hoje aos 80 anos, Tenzin Gyatso, o atual Dalai Lama, foi agraciado com o Prêmio Nobel da Paz em 1989 e é conhecido por suas décadas de luta pela autonomia do Tibete.

Ele acredita que a sua tática do "caminho do meio", que evita extremismos, é a melhor maneira de resolver pacificamente a questão tibetana e promover a coexistência entre tibetanos e chineses.

O Dalai Lama fugiu para a Índia em 1959 e, desde então, vive no exílio em Dharamsala, uma cidade no estado indiano de Himachal Pradesh.

Em entrevista à DW, ele fala sobre seu papel como o Dalai Lama, a questão tibetana e o aumento da violência global.

DW: Como você avalia os ataques terroristas em Paris?

Dalai Lama: O século 20 foi violento, mais de 200 milhões de pessoas morreram devido a guerras e outros conflitos. Vemos agora o sangue derramado no século passado transbordar para este. Se dermos mais ênfase à não violência e à harmonia, poderemos proclamar um recomeço.

A menos que façamos sérios esforços para alcançar a paz, continuaremos a ver uma reprodução do caos que a humanidade vivenciou no século 20.

As pessoas querem levar uma vida pacífica. Mas os terroristas têm vista curta, e esta é uma das causas dos desenfreados atentados suicidas. Não podemos resolver esse problema apenas através de orações.

Eu sou budista e acredito na oração. Mas foram os seres humanos que criaram esse problema, e agora estamos pedindo a Deus para resolvê-lo. É ilógico. Deus diria: resolvam-no sozinhos porque vocês mesmos o criaram.

Precisamos de uma abordagem sistemática para fomentar valores humanistas, que promovam unidade e harmonia. Se começarmos agora, há esperança de que este século possa ser diferente do anterior.

É do interesse de todos. Por isso, vamos trabalhar pela paz em nossas famílias e na sociedade, em vez de esperar pela ajuda de Deus, de Buda ou de governos.

DW: Sua mensagem principal sempre foi de paz, compaixão e tolerância religiosa, mas o mundo parece estar indo na direção oposta. A sua mensagem não ressoou nas pessoas?

DL: Eu discordo. Acho que apenas uma pequena porcentagem das pessoas adotaram o discurso da violência. Nós somos seres humanos, e não há base ou justificativa para matar outras pessoas.

Se você considera os demais como irmãos e irmãs, e respeita seus direitos, não resta espaço para a violência.

Além disso, os problemas que estamos enfrentando hoje são resultado de diferenças superficiais entre crenças religiosas e nacionalidades. Somos um só povo.

Homenagem-em-Paris
Homenagem em Paris aos mortos e feridos nos atentados da sexta-feira 13 / Vincent Gilardi/ Fotos Públicas

DW: Vemos líderes políticos obcecados com o crescimento econômico, mas que não se importam com a moralidade. Você se preocupa com essa tendência?

Nossos problemas vão aumentar se não posicionarmos princípios morais à frente do dinheiro. A moralidade é importante para todos, inclusive para religiosos e políticos.

DW: Você diz que a abordagem do "caminho do meio" ("middle way") é a melhor maneira de resolver a questão tibetana. Você acha que sua estratégia acabará sendo bem sucedida?

DL: Eu acredito que seja o melhor caminho. Muitos dos meus amigos, incluindo líderes indianos, americanos e europeus, acreditam que seja o caminho mais realista.

No Tibete, ativistas políticos, intelectuais e estudantes chineses apóiam a nossa política do "caminho do meio".

Quando encontro estudantes chineses, digo-lhes que não estamos buscando a independência da China. Eles entendem a nossa abordagem e sentem-se próximos da nossa causa.

Não é apenas no caso do Tibete; vivemos no século 21, e todos os conflitos devem ser resolvidos pelo diálogo, e não pela força.

DW: Quem vai sucedê-lo como Dalai Lama?

Eu não estou preocupado com isso. Em 2011, anunciei oficialmente que seria uma escolha dos tibetanos manter ou não a instituição do Dalai Lama. Se as pessoas acharem que essa instituição deixou de ser relevante, ela deve ser abolida.

Eu não estou mais envolvido em questões políticas, estou apenas preocupado com o bem-estar do Tibete.

DW: A Índia está passando por um aumento da intolerância religiosa. O que pensa sobre isso?

DL: Não é a imagem real da Índia. Apenas alguns indivíduos estão causando esse problema. As eleições no estado de Bihar provam que a maioria dos hindus acredita na harmonia e na coexistência.

Por Murali Krishnan 

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