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Internacional

Costa do Marfim

Crise humanitária marfinense além da fronteira

por Revista Forum — publicado 30/03/2011 09h26, última modificação 30/03/2011 09h26
A disputa de poder que se seguiu à votação deixou centenas de mortos, quase um milhão de refugiados e uma economia deteriorada. Por Jessica McDarmind, na Revista Fórum

Milhares de marfinenses fogem para a Libéria por causa da violência desatada no país, após as eleições de novembro que o deixaram à beira de uma guerra civil. O questionado presidente da Costa do Marfim, Laureng Gbagbo, não cede às pressões internacionais para que deixe o cargo após a vitória eleitoral, avalizada pela Organização das Nações Unidas (ONU), de seu tradicional adversário, Alassane Ouattara. A disputa de poder que se seguiu à votação deixou centenas de mortos, quase um milhão de refugiados e uma economia deteriorada.

O conflito tem consequências sobre os países vizinhos, que se recuperam de seus próprios problemas. Os moradores do Butuo, a um par de quilômetros da fronteira com a Costa do Marfim, recebem dezenas de marfinenses em suas pequenas casas e, em alguns casos, literalmente lhes dão comida de seus pratos e a roupa que estão usando. Eles recordam o que é perder tudo e ter que fugir ao som dos disparos de armas automáticas. Não se esquecem dos que os ajudaram quando estiveram com problemas. Vários milhares de liberianos se refugiaram na Costa do Marfim durante os 14 anos da guerra civil que terminou em 2003.

Desde que refugiados da aldeia marfinense de Bin Houye, do outro lado da fronteira, começaram a chegar a Butuo, Titos Peter abrigou cerca de 60 pessoas, além da dezena de familiares com os quais convive. Muitas das pessoas que recebeu são parentes, mas também há estranhos que precisam de ajuda, disse Titos, que vive há anos neste povoado, depois de estar durante anos em Bin Houye, durante a guerra na Libéria. “Estamos todos relacionados”, explicou. “Se algo acontece deste lado, vamos para lá. Quando algo acontece lá, vêm para cá”, disse.

Há meses que chegam marfinenses a este povoado e isto esgota os escassos recursos de água e comida. As tensões começam a surgir com a propagação de doenças e da fome, que afeta cada vez mais pessoas. Os refugiados lotam as casas da população local e comem sua comida, sem importar se são convidados ou não, e a doença se espalha porque as pessoas defecam em espaços públicos por falta de instalações adequadas, lamentou a representante distrital Annie W. Kwaleh. “O pouco que têm dividem com os estrangeiros. Estes não querem ir para os acampamentos e não podemos abandoná-los. Comeram tudo, não nos resta nada. Não sabemos o que fazer”, acrescentou.

O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) desloca lentamente as pessoas para o acampamento de Bahn, a 60 quilômetros, por um caminho em mau estado. O lugar tem capacidade para 15 mil pessoas, mas só há 2.500. Há outro acampamento em construção e vários provisórios em todo o condado de Nimba, onde se concentra a crise humanitária neste momento.

O trabalho da organização se complicou a partir de 24 de fevereiro, quando eclodiu um forte enfrentamento na fronteira ocidental da Costa do Marfim entre forças de Gbagbo e ex-integrantes do exército rebelde, leais a Ouattara. “Aquele dia começou com um telefonema informando que havia duas mil pessoas na fronteira”, contou Dina Sinigallia, responsável de Relações Externas do escritório do Acnur em Saclepea, perto de Bahn.

O Acnur deve enfrentar uma crescente quantidade de pessoas na fronteira e a deterioração da segurança. Agora, seu objetivo é tirar as pessoas da região. A agência recomenda aos refugiados que se dirijam para Bahn ou a uma das 15 comunidades com áreas para alojá-los, explicou Dina. “Não haverá mais assistência na fronteira e é pouco provável que continuem sendo distribuídos alimentos”, acrescentou. No entanto, muitos refugiados se negam a ir para Bahn porque não querem se afastar de seus familiares que ficaram na Costa do Marfim. Além disso, dizem que o bulgur (alimento à base de trigo) entregue pelo Acnur faz mal. “Não podemos obrigar as pessoas a irem. Tem de ser voluntário”, ressaltou Dina.

O pouco alimento distribuído era inadequado, o mesmo bulgur que faz com que os refugiados não queiram ir para os acampamentos, e as condições de higiene se deterioram, disse P. Zoyeagbander D. Gberardeu, assistente do superintendente de Butuo. Desde que começou a afluência de refugiados, no final de fevereiro, morreram, pelo menos, sete pessoas de diarreia, afirmou. “Dizemos a eles que é melhor irem para os acampamentos porque nossa comida acabou. Se ficarem, todos teremos de partir ou morreremos de fome”, acrescentou.

A segurança também é motivo de preocupação. O distrito de 47 mil habitantes tem três policiais, 13 funcionários de fronteira e oito de migração. Os combates aconteceram tão perto que a população ouviu disparos e artilharia pesada, acrescentou Gberardeu. “Não queremos que nada de mal aconteça, mas se chegar a ocorrer estaremos em uma situação de extrema vulnerabilidade”, afirmou.

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