Você está aqui: Página Inicial / Internacional / Crise do euro fortaleceu Merkel

Internacional

Crise do euro fortaleceu Merkel

por Deutsche Welle publicado 21/09/2013 10h45
Turbulência na zona do euro alçou chanceler ao papel de gestora, mas rendeu-lhe duras críticas em países em crise
Odd Anderson / AFP
Angela Merkel

Merkel faz discurso em comício da União Democrática Cristã na cidade de Fulda, na quinta-feira 19

"Se o euro fracassar, fracassa a Europa. E isso não pode acontecer", pregou a chanceler federal Angela Merkel em outubro de 2011. Desde então, a frase virou lema de sua política para a Europa. Primeiramente, de forma hesitante, a chefe de governo concordou em ajudar financeiramente os países atingidos pela crise. Depois, ajudou a construir o fundo de resgate, negociou o corte da dívida e declarou-se de acordo com a compra pelo Banco Central Europeu (BCE) das obrigações de alguns países europeus.

"A União Europeia de hoje não é a mesma de cinco anos atrás. Foi feito muito, pois a crise é muito profunda e estrutural", opina Janis Emmanouilidis, da European Policy Centre, um think tank de Bruxelas, sobre a política europeia da chanceler. "Berlim, o governo alemão e a chanceler desempenharam um papel essencial nestes três, quatro, cinco anos."

"Coração de mãe"

Na crise do euro, Merkel estabeleceu a troca de ajuda financeira por medidas de austeridade e reformas. A chanceler alemã foi criticada por políticos, imprensa e parte da população em Grécia, Chipre, Portugal, Irlanda, Espanha e Itália por ser dura demais. Como consequência, aconteceram protestos raivosos em alguns países. Neles, Merkel chegou a ser retratada usando uniforme nazista ou como um novo Hitler.

"Mas, no fundo, as pessoas desses países também sabem que eu não lhes causei esses problemas e que as outras coisas não estavam muito bem em ordem", disse Merkel durante a campanha eleitoral, em uma resposta quase que suave em relação aos críticos.

"Mãezinha", como ela foi chamada na Alemanha por alguns de seus partidários, perdoa suas crianças europeias. Ela se dizia triste se as pessoas não estivessem abertas ao diálogo, mas, ao mesmo tempo, demonstrava não estar chateada com ninguém.

"Claro que uma crítica nem sempre é objetiva e a sátira também não. Mas eu acredito que devemos aqui ter um coração grande. Eu me coloco um pouco na berlinda, pois eu tenho uma determinada posição. E estou preparada para isso", disse Merkel num programa da emissora pública alemã ARD.

Relutante posição de liderança

Emmanouilidis considera que Merkel não aspirava a posição de liderança na crise, mas, como representante da economia mais forte do continente, não teve como escapar. "Eu não acho que ela queria, mas quando a situação eclodiu, ela se pegou neste papel. Muitos parceiros também pediram que a Alemanha exercesse esta posição de liderança."

A revista britânica The Economist até mesmo reivindicou, há algumas semanas, que a Alemanha realizasse mais reformas na União Europeia e estabelecesse, por exemplo, o freio da dívida, um pacto fiscal e uma união bancária. A Alemanha seria um "hegemônico relutante", titulou a publicação.

Atualmente o papel da Alemanha na Europa é muito forte, pois a França está no olho da crise. No início, o então presidente francês, Nicolas Sarkozy, abraçou praticamente todas as ideias de Merkel relativas ao euro. Juntos, os dois, apelidados de "Merkozy", se livraram do primeiro-ministro grego Papandreou e, mais tarde, do primeiro-ministro italiano Berlusconi, quando eles não quiseram se curvar à gestão de crise franco-alemã.

O novo presidente francês, o socialista François Hollande, não conseguiu se impor sobre Merkel. Havia apenas algumas concessões para a flexibilização das medidas de austeridades vindas de Berlim. "Entretanto, Angela Merkel se adaptou a um presidente que automaticamente não se orientava às posições alemãs", disse Thierry Repentin, vice-ministro francês para Assuntos Europeus ao jornal alemão Süddeutsche Zeitung.

Países-membros decidem o curso

A crise e sua gerente deslocaram a estrutura do poder de Bruxelas. A antes poderosa Comissão Europeia, que sugeria e supervisionava a legislação, perdeu seu poder, pois trabalhava de forma muito lenta e inflexível – crítica que vinha de Berlim. O Parlamento Europeu tem pouca influência, pois o resgate dos bancos falidos nos países em crise viria, sobretudo, do dinheiro dos orçamentos dos países-membros.

O Conselho de Ministros, que é representado pelos governos nacionais, deu o tom. O ministro das Relações Exteriores britânico, William Hague, disse recentemente que "entre todas as instituições europeias, o Conselho, responsável pelos parlamentos nacionais, assumiu a liderança. Isso se trata de decisões que custam dinheiro. Para isso, as pessoas olham bem previsíveis para os seus parlamentos nacionais como legítimos responsáveis pelas decisões."

E não somente o cético governo do Reino Unido, mas também o holandês exigiram, entretanto, reformas decisivas. Os holandeses apresentaram um relatório de forma sucinta de como se poderia reduzir uma suposta fúria regulamentadora e interferência de competências de Bruxelas. O novo governo alemão, depois das eleições, terá que se confrontar com essa correnteza.

Supostamente Merkel planeja, caso fique no posto de chanceler alemã, uma nova correção do curso da crise do euro. Ela quer diminuir o poder e a responsabilidade da União Europeia e gostaria, como noticiou o jornal alemão Handelsblatt, de incentivar acordos entre os governos dos países-membros. Na campanha eleitoral, Merkel já disse que ela não vê "necessidade de entregar mais responsabilidades para Bruxelas". Há alguns meses o lema era "Mais Europa!" e, mais precisamente, uma real e profunda união econômica e monetária.

O chefe da think tank Open Europe, em Londres, Lord Leach of Fairford, defende uma simplificação da União Europeia como resultado da crise financeira e da dívida. Pesquisas de opinião dizem que a confiança dos alemães nas instituições europeias diminuiu. E, quanto a isso, a chanceler alemã tem que reagir.

"A lógica exige que Berlim apoie reformas radicais, e precisamente porque os próprios eleitores as apoiam. E assim fazem muitos eleitores em toda a Europa. Isso combina com o instinto do europeu do norte", afirma Fairford.

O deputado europeu social-democrata Udo Bullmann, porém, duvida que Angela Merkel tenha forças para as reformas, independente da direção. Nos últimos anos "ela transmitiu para toda a Europa a arte de esperar até que os problemas fossem automaticamente resolvidos", critica Bullmann em entrevista à DW. "Isso faz com que a zona do euro fique novamente, todo mês, à beira de um colapso. E sobre isso tem que ser feito alguma coisa."

"Não é o centro do mundo"

A própria chanceler alemã tenta não triunfar em público por causa de sua posição de liderança. A Alemanha se mostrou modesta, por exemplo, no auge do socorro à Grécia numa declaração dos governos em outubro de 2011. "Economicamente, nós somos a nação mais forte, mas, como também digo, não somos todavia o centro do mundo. O mundo observa a Europa e a Alemanha e vê se estamos prontos e aptos para assumir a responsabilidade na hora da pior crise da Europa desde a Segunda Guerra Mundial."

As expectativas sobre a Alemanha, o governo federal ou o chefe ou a chefe seriam altas na crise, diz Janis Emmanouilidis. E a Alemanha não poderia fazê-la sozinha, mas depende também da União Europeia como aliada, pois, para realizar uma alteração no Tratado, é necessário conseguir o voto, por exemplo, de todos os 27 países-membros da UE.

"Porém, não se pode exagerar. Fora da Alemanha eu tenho geralmente a impressão que empurram a responsabilidade para os outros e argumentam que deveria ser feito algo, o que sinceramente não queriam ou não poderiam fazer, porque Berlim queria que assim fosse feito", afirma Emmanoulidis.

De acordo com uma análise do Open Europe, a política alemã para a Europa não deverá ter grandes mudanças depois de 22 de setembro, mesmo que Angela Merkel não consiga seu terceiro mandato. A equação não significa, portanto, "Merkel fracassa, o euro fracassa, a Europa fracassa".

Um governo de esquerda na Alemanha talvez iria se apresentar um pouco mais amigável perante os países em crise, mas o dinheiro dos contribuintes e dos eleitores não seria doado. Também os social-democratas se manteriam fiéis ao preceito alemão de orçamentos econômicos, diz Nina Schick, analista do Open Europe. Ela lembra que as linhas gerais do socorro ao euro foram apoiadas por todos os partidos no Bundestag, exceto por A Esquerda.

 

Autoria Bernd Riegert (fc)
Edição Rafael Plaisant
registrado em: ,