Você está aqui: Página Inicial / Internacional / Crise de identidade

Internacional

Europa

Crise de identidade

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 19/05/2011 17h59, última modificação 24/05/2011 16h57
A piora da crise e a falta de solidariedade social e internacional esvaziam o sonho da união. Por Antonio Luiz M. C. Costa
Crise de identidade

A piora da crise e a falta de solidariedade social e internacional da Europa esvaziam o sonho da união. Por Antonio Luiz M. C. Costa. Foto: Louisa Gouliamaki/AFP

Em novembro de 2009, o então recém-empossado governo socialista de Georges Papandreou teve de admitir a precariedade das contas públicas da Grécia, pesadamente maquiadas pela administração anterior com o auxílio do Goldman Sachs. Em 11 de abril de 2010, após muita hesitação, a iminência do colapso extraiu a fórceps um pacote de 45 bilhões de euros, anunciado como solução definitiva. Não era. Em 10 de maio, ante a piora do quadro das economias fragilizadas dos chamados PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha), a União Europeia teve de aprovar um fundo no total de 750 bilhões de euros (110 bilhões dos quais destinados à Grécia) para proteger o bom nome da moeda única. À custa da reputação de Angela Merkel, que sofreu sua primeira derrota séria na eleição regional da Renânia-Palatinado.

Um ano depois, o quadro está para piorar, e muito. Também Irlanda e Portugal admitiram a falência iminente e pediram resgate. A Espanha, economicamente mais importante que a soma dos três, paga taxas cada vez mais altas para refinanciar suas dívidas e fica claro que a Grécia não escapará da moratória.

O diretor do FMI, Dominique Strauss-Kahn, pressiona freneticamente (inclusive com a ameaça de um crash) o governo alemão por um pacote adicional de 60 bilhões de euros que supostamente garantiria a dívida grega até 2013, mas, mesmo que o consiga, apenas adiará o problema. E o mesmo deve se dar, a seu tempo, com os outros países em dificuldades. Nem há como ser diferente.

Essas nações já estavam em dificuldades por razões muito além do déficit do governo: endividamento das empresas privadas e das famílias (frequentemente a juros flutuantes), perda de competitividade para países de salários mais baixos na Europa Oriental, fim do boom imobiliário, bancos semiquebrados por assumirem riscos excessivos em meio a uma desregulamentação imprudente, necessidade de manter serviços sociais e pagar auxílio-desemprego sob os efeitos recessivos da crise financeira de 2008.

Por cima disso, são obrigados a pagar juros punitivos para satisfazer banqueiros e políticos alemães e a cortar gastos. O resultado é mais recessão e menor arrecadação, dificultando o pagamento da dívida segundo as próprias agências de classificação de risco. E como se não bastasse, o Banco Central Europeu (BCE) ignora o contexto continental e faz subir seu juro básico, piorando o quadro para os endividados e respondendo apenas aos interesses do sistema financeiro da Alemanha, único país da Zona do Euro que hoje pode se dar ao luxo de se preocupar com a inflação.

A falta de solidariedade internacional é proporcional ao egoísmo social: os bancos, resgatados em 2008 das trapalhadas que eles próprios criaram, graças a impostos arrecadados de todos os contribuintes, agora exigem que esses mesmos cidadãos sejam despojados dos direitos sociais pelos quais pagaram. Tudo para que seus governos possam, inutilmente, ao que tudo indica, priorizar o pagamento em dia de suas dívidas com as instituições financeiras.

Também a solidariedade entre partes de um mesmo país é abalada. Em todo canto em que uma região pensa ter algo a ganhar com a separação do todo, fala-se de separatismo. A Bélgica, sede da União Europeia, quebrou o recorde mundial que antes foi do Iraque e se arranja há mais de 330 dias com um governo “interino”, devido ao desentendimento entre a Valônia e o Flandres, que, mais próspero, não quer subsidiar a outra metade. A inquietação aumenta ainda em outras regiões tradicionalmente propensas a isso. Principalmente o País Basco e a Catalunha, numa Espanha fragilizada pela crise, mas também a Irlanda do Norte e agora, a Escócia.

Nas eleições britânicas de 5 de maio, os escoceses votaram em massa no seu Partido Nacionalista, dando-lhe, pela primeira vez, a maioria absoluta no Parlamento regional. Foi menos pelo separatismo como princípio do que por acreditar que os separatistas os protegerão dos cortes de David Cameron melhor que os trabalhistas. Haverá um referendo pela independência em 2015 e as chances do “sim” dependem da capacidade dos nacionalistas de convencer os eleitores de que, livres da insaciável City de Londres, terão mais chances de manter o bem-estar social.

Quando nem os direitos dos cidadãos são garantidos, mais sofrem os imigrantes. Movimentos populistas os fazem de bodes expiatórios, assustam os eleitores com o fantasma de um futuro de burcas e minaretes, e levam partidos moderados e centristas a imitá-los por motivos eleitoreiros. Ao preço de dissolver os próprios valores ditos “europeus”, de tolerância, igualdade e laicidade, para supervalorizar os egoísmos e peculiaridades regionais e nacionais. É exemplar o crescimento do partido Verdadeiros Finlandeses, que se opõe à União Europeia e até ao ensino do sueco (segunda língua do país) e a vitória esmagadora dos conservadores húngaros do partido Fidesz, suficiente para impor uma nova constituição que proíbe o aborto e o casamento homossexual e vincula o cristianismo à “preservação da nacionalidade”.

A fuga em massa de refugiados das revoluções norte-africanas revitalizou a polêmica a ponto de levar à suspensão, na prática, do antes intocável Tratado de Schengen. Após a França barrar imigrantes africanos na fronteira com a Itália, a Dinamarca restaurou suas alfândegas na fronteira. E outros avanços supostamente irreversíveis são postos em questão, inclusive a moeda única.

Hans-Werner Sinn, presidente do Ifo Institut, um dos principais centros de pesquisa econômica da Alemanha, alarma seu país com a perspectiva de um “tsunami de dívidas” prestes a submergir o único grande país europeu que ainda se mostra razoavelmente próspero e em condições de preservar seus direitos sociais e trabalhistas e aconselha a Grécia a abandonar o euro. Esta, por sua vez, considera levar a sugestão a sério, alarmando economistas e políticos alemães mais conscientes do risco de matar a galinha dos ovos de ouro que garantiu a hegemonia da indústria alemã no mercado europeu.

Na Irlanda, o economista Morgan Kelly adverte que o país caminha para uma situa-ção insustentável, com uma dívida de 250 bilhões de euros até 2014, cerca de 140% do PIB. Sua proposta é abandonar os bancos falidos, um saco sem fundo no qual se esgotam os recursos do país ao tentar compensar a fuga dos depositantes, o que reduziria a dívida irlandesa ao valor mais administrável de 110 bilhões. O BCE que socorra e assuma esses bancos, se quiser evitar um pânico europeu generalizado. Seria especialmente irônico se tiver de fazer isso na gestão do banqueiro italiano Mario Draghi, que era vice-presidente do Goldman Sachs International quando este ajudou a armar o caos na Grécia e, provavelmente, substituirá Jean-Claude Trichet em outubro.

Parece drástico, mas a Islândia, após uma ampla rebelião popular, deixou seus bancos quebrarem, pôs vários de seus executivos na cadeia, mandou passear os credores externos desses bancos (inclusive os governos do Reino Unido e Holanda, que assumiram as perdas de seus pequenos depositantes) em dois plebiscitos sucessivos e se sai melhor que os países que supunham contar com o apoio da União Europeia.

Suspeita-se que a Espanha oculte problemas semelhantes em seu setor financeiro. Estagnado, Portugal parece igualmente incapaz de pagar os juros médios de 5,9% pelo pacote de “resgate” de 78 bilhões de euros, taxa similar à que a Irlanda paga pelos 85 bilhões recebidos e bem superior à paga pela Grécia (3,5% nos primeiros três anos e 4,5% nos seguintes).

A União Europeia e o BCE, em vez de soluções, começam a parecer problemas. Os povos a identificam com exigências e imposições que minam o bem-estar social,  criam insegurança e fazem de “Bruxelas” um nome feio. Isso pode piorar com o novo Pacto de Estabilidade e Crescimento, a ser votado até 9 de junho pelo Parlamento Europeu. Prevê multas quase automáticas para países com desequilíbrios orçamentários e o “Semestre Europeu”, um sistema pelo qual, no primeiro semestre de cada ano, as propostas orçamentais para o ano seguinte de cada país serão discutidas na Comissão Europeia, antes de o projeto chegar aos respectivos Parlamentos nacionais para o carimbo final. Reduz as nações europeias a uma autonomia orçamentária menor, na prática, do que os estados de muitas repúblicas federativas e põe mais poder nas mãos de um órgão não eleito.

É um grande risco para a União Europeia, que desde o início foi projetada de cima para baixo e identificada com tecnocracia e elitismo, padece de um notório déficit democrático e tem perdido apoio popular. O provável agravamento da crise poderá ser debitado a um sistema burocrático cuja única finalidade parece servir a uma elite financeira centrada na Alemanha. Se nos EUA, com uma longa construção da nacionalidade e um governo federal eleito, essa situação cria tensões, muito maiores serão as tendências centrífugas na Europa, onde o povo não se identifica com a instituição. O egoísmo e o imediatismo da elite não deram espaço à cidadania e à identidade europeias e podem fazer soçobrar uma das melhores ideias do século XX.

registrado em: