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Crescimento alto, dinheiro curto

por Brasil de Fato — publicado 01/03/2011 15h52, última modificação 01/03/2011 17h10
Governo federal maquia números da inflação, oposição se aproveita, mas quem sai perdendo é o trabalhador. Por Dafne Melo, de Buenos Aires

Governo federal maquia números da inflação, oposição se aproveita, mas quem sai perdendo é o trabalhador

Por Dafne Melo, de Buenos Aires (Argentina)

Em uma venda na Grande Buenos Aires, a cliente pede por um maço de cigarros. “Seis pesos”, diz a vendedora, no que a cliente puxa da carteira uma nota de 100. A vendedora faz cara de quem não vai trocar a nota, mas logo desiste. “Se fosse há alguns anos, não te trocaria em hipótese alguma, mas hoje, a verdade é que 100 pesos já não valem muita coisa”. A percepção da comerciante não é de nada falsa. De acordo com consultorias privadas, nos últimos cinco anos, a nota de 100 pesos de desvalorizou pela metade. A consultoria Analytica revela que a nota de 100 pesos correspondia a 35% das notas em circulação em 2005; hoje, são 46%.

No final de 2010, em plena época de festas de fim de ano, chegou a faltar notas de 100. Nos caixas automáticos de bancos, saíam apenas notas de 10 ou 50 pesos e muitos saques foram limitados em diversas cidades do país. A oposição saltou a gritar e alguns setores chegaram a pedir que Banco Central começasse a imprimir notas de 200.

O governo argentino de Cristina Kirchner, entretanto, não reconhece os índices e estatísticas de boa parte das consultorias e institutos de pesquisa privados. Por meio do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), afirma que a inflação de 2010, por exemplo, foi de 10,9%. Cálculos feitos por outros economistas chegam a pouco mais de 30%. A página na internet www.inflacionverdadera.com, mantida por um grupo de economistas que afirmam comparar diariamente o preço de produtos nos mercados, afirma que a inflação anual, levando-se em conta apenas os preços de bebidas e alimentos, é de 34%, já o aumento anual da cesta básica fica em 28%.

Uso político

Ainda que não tão alta, o fato é que ninguém acredita muito nos índices do Indec, e a sensação geral é de que os preços de alguns produtos, sobretudo alimentícios, duplicaram nos últimos três ou quatro anos. Os alugueis também sofreram alta devido à grande especulação imobiliária existente em toda a região metropolitana da capital argentina. A regra tem sido uma elevação de cerca de 200 pesos por ano, ainda que o governo proíba o aumento que muitas vezes não está previsto em contrato, mas que é acertado verbalmente entre as partes.

A oposição não deixa de apontar essa insatisfação e certamente fará uso político da sensação de pobreza e insatisfação gerada pela inflação nos debates eleitorais deste ano, já que em outubro a Argentina escolhe um novo presidente – ou a mesma presidenta, já que Cristina deverá tentar a reeleição. Também ressaltam a falta de transparência na contagem dos índices.

De acordo com o jornal conservador La Nación, em reportagem do dia 23 de janeiro, o Indec deixou de contabilizar 80 pontos percentuais da inflação entre os anos de 2007 e 2010. Para os economistas consultados pelo jornal, a inflação desse período foi de 120%. O Indec contabiliza um acúmulo de 39% apenas.

Para o economista Axel Kicillof, pesquisador da Universidade de Buenos Aires (UBA), é fato de que há inflação e a discussão não deve passar por aí, mas discutir as formas existentes para controlá-la. “Temos que discutir como atuar, se dentro de um modelo ortodoxo ou heterodoxo”, resume.

Mal necessário?

Demian Panigo, economista e pesquisador do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas (Conicet, na sigla em espanhol), afirma que hoje há dois debates principais acerca da inflação. Um, de natureza mais ortodoxa, que afirma que o problema é o crescimento econômico acelerado pelo qual vem passando a Argentina nos últimos anos e o excesso de gastos públicos. A saída seria desacelerar a economia e intervir no câmbio. Outra posição, mais heterodoxa, defende que a inflação é um mal necessário para um país que escolhe por crescer e gerar emprego; a inflação deve ser controlada, mas através de outros mecanismos que não desacelerar a economia. “Recessão é deflação garantida, mas é também algo que prejudica o país”, afirma Kicillof, para quem o desafio do governo federal é gerar meios de conseguir mais controle sobre os preços, a exemplo do que faz hoje com as tarifas aéreas depois da compra das Aerolíneas Argentinas. Hoje, entretanto, afirma Kicillof, o governo Kirchner ainda não consegue ter a força política necessária para implementar algumas dessas medidas, interferindo de maneira mais direta na economia, devido à resistência de setores empresariais que seriam atingidos, a exemplo do conflito que o governo tem com o setor agroexportador. (ver matéria abaixo)

Panigo também acredita que a inflação não é necessariamente ruim e ainda que sua existência seja danosa para os trabalhadores, sobretudo os informais, a não existência de inflação não garante menos pobreza. “Na década de 1980 não houve inflação na Argentina e a pobreza aumentou muito”, argumenta. Além disso, Panigo afirma que se o país quer crescer, é inevitável que tenha que conviver com aumento dos preços. “Curiosamente, os dois países que mais crescem hoje e mais diminuem a pobreza são os que mais têm inflação, Venezuela e Argentina”, defende o economista.

Crescimento

De fato, a Argentina tem conseguido manter bons índices de crescimento nos últimos anos e reduzir os níveis de pobreza e de desemprego. Em 2010, o governo divulgou os índices de crescimento, em clima de festa, e propagandeou que crescimento equivalente ocorreu apenas há 200 anos, no final do século 19, quando o país chegou a ser a sexta economia do mundo. Entretanto, há de se levar em conta que as altas porcentagens aparacem após uma intensa recessão entre 2000 e 2003, quando o país entrou em crise e as taxas de crescimento chegaram a menos 14%. Desde 2004, o país vem registrando taxas acima de 6%, chegando a um pico de 9,2% em 2006. Em 2010, o crescimento estimado também foi alto, próximo ao de 2006. No geral, desde 2002, o produto interno bruto (PIB) do país avançou mais de 80% e o desemprego, no mesmo período, abaixou 30%.

A atual taxa de desemprego fica em torno dos 7%, mas a informalidade continua alta. Estima-se que 35% da força de trabalho não está registrada, sendo que a maioria dela está concentrada no campo, explorada pelo agronegócio, sobretudo.

Para Axel Kicillof, é justamente esse segmento da população – que não é registrada – que mais sofre com o aumento dos preços, sobretudo dos alimentos. Outro problema são os trabalhadores terceirizados, que são contratados a salários baixos e possuem pouco poder para negociar aumentos. Assim, embora o governo também tenha adotado uma postura de valorizar o salário mínimo que hoje está em torno de 1840 pesos (760 reais), em relação a 2007, o valor absoluto do salário dobrou.

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