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Comoção

Corpo de vítima de estupro coletivo é cremado na Índia

por AFP — publicado 30/12/2012 08h51, última modificação 30/12/2012 10h12
Os estupros coletivos ocorrem quase diariamente na Índia e muitos deles não são denunciados pelas vítimas, que não confiam na Justiça
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Durante protesto, manifestantes afirmam que a voz da vítima jamais irá se calar. Foto: NARINDER NANU

NOVA DELHI (AFP) - O corpo da jovem vítima de estupro coletivo e agressões sexuais há duas semanas em Nova Délhi, que morreu no sábado 29, em Cingapura, foi cremado neste domingo na capital indiana, na presença de familiares e diversos líderes políticos, em um ambiente de tensão.

O corpo da estudante de Fisioterapia de 23 anos foi cremado de acordo com a tradição hindu no distrito de Dwarka, zona sudoeste de Nova Délhi, em meio a uma grande operação policial ante o temor de novas manifestações de protesto contra a violência sofrida pelas mulheres no país.

A rápida cerimônia aconteceu apenas quatro horas depois do traslado do corpo da jovem de Cingapura, para onde havia sido transferida em caráter de urgência na quinta-feira em estado crítico, com lesões internas e cerebrais.

Uma vizinha da família, que se identificou como Meena Rai, disse à AFP que decidiu comparecer ao funeral porque "realmente amava a jovem".

"Era a mais brilhante de todas as jovens de nosso bairro", completou.

De acordo com Rai, a jovem "havia feito todos os preparativos para seu casamento e planejava uma festa em Nova Délhi". Outra vizinha, Usha Rai, disse que todos sabiam que ela pretendia casar em fevereiro.

Ao mesmo tempo, milhares de pessoas participavam em diverso pontos da cidade de vigílias e cerimônias improvisadas, em homenagem à vítima que o país agora chama de "Filha da Índia". Também foram registradas manifestações em Calcutá, Mumbai e Hyderabad.

A jovem, que não teve a identidade revelada, saiu de um cinema no dia 16 de dezembro e pegou um ônibus com o namorado. No veículo, ela foi agredida de maneira selvagem e estuprada por seis homens embriagados.

Duranta a agressão, ela foi atingida por uma barra de ferro e depois jogada do veículo em movimento.

Os seis acusados foram detidos e devem ser acusados de assassinato, um crime que pode ser punido com a pena de morte na Índia.

Os estupros coletivos acontecem quase todos os dias na Índia e muitos não são denunciados pelas vítimas, que não confiam no sistema judiciário e temem a reação dos policiais.

Mas a natureza particularmente selvagem deste ataque provocou a revolta da população e levou o governo a prometer mais segurança para as mulheres, além de penas mais severas para os crimes sexuais.

"Vemos a comoção que este incidente tem provocado. São reações perfeitamente compreensíveis de um país que realmente deseja mudança", afirmou Singh em um comunicado.

"Como mulher e mãe, entendo a dor. Sua luta não será em vão", disse Sonia Gandhi, líder do governante Partido do Congresso.

A polícia tem sido muito criticada por suas táticas para sufocar os protestos, que incluíram o uso de gás lacrimogêneo e jatos de água.

Neeraj Kumar, chefe de polícia de Nova Délhi, pediu calma à população da capital e anunciou o fechamento da área do monumento Porta da Índia e de 10 estações de metrô.

O governo também tenta se defender das acusações de que a vítima foi transferida para um hospital de Cingapura para impedir que morresse em território indiano, o que aumentaria a tensão.

T.C.A. Raghavan, diplomata indiano em Cingapura, afirmou que a decisão foi tomada apenas por motivos médicos depois de consultas entre a equipe médica que a atendeu em Délhi e especialistas de Cingapura.

O enviado também comentou a experiência terrível da família da vítima, natural de uma zona rural de Uttar Pradesh, que venceu uma propriedade para financiar os estudos da jovem.

"Suportaram a perda com muita honra, força e compreensão", disse Raghavan.

"Me pediram em várias ocasiões para que contasse que estão agradecidos com as muitas mensagens de apoio e com as condolências recebidas. Isto reforça neles a ideia de que a morte da filha resultará em um futuro melhor para todas as mulheres na Índia e em Nova Délhi", completou.

Os estupros, que geralmente ficam impunes na Índia, são comuns no país, onde quase 90% das 256.329 vítimas dos crimes violentos registrados em 2011 eram mulheres, segundo números oficiais.

"Este não é o primeiro nem o último caso de estupro coletivo, mas está claro que não vamos tolerar mais os crimes sexuais", declarou a advogada Rana Bela, que participou em um protesto.

Alguns manifestantes foram detidos após confrontos com a polícia.

"O que fará exatamente o governo para tornar o país mais seguro para todas as mulheres? O que faremos, cada um de nós, para lutar contra os preconceitos e a misoginia que estão profundamente arraigados em nossa sociedade?", questiona em um editorial o jornal Sunday Times.

Entre as medidas anunciadas pelo governo, as fotografias, os nomes e os endereços dos estupradores condenados serão publicados nos sites do governo federal. A medida será aplicada primeiro em Nova Délhi, conhecida como "capital dos estupros".

Segundo a imprensa indiana, 20 estupros foram registrados na capital desde 16 de dezembro, e uma mulher foi violentada e assassinada por vários homens em Bengala ocidental (leste).

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, manifestou profundo pesar pela morte da jovem indiana.

"A violência contra as mulheres nunca deve ser aceita, nunca deve ser desculpada, nunca deve ser tolerada", disse.

"Toda menina, toda mulher tem o direito de ser respeitada, valorizada e protegida", completou.

Bam pediu ao governo indiano reformas para que os crimes não se repitam e para que os autores sejam julgados. Ele ofereceu a ajuda da ONU Mulheres para o trabalho.

 

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