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Contundente, duelo entre vices contrasta com debate Obama x Romney

por Redação Carta Capital — publicado 12/10/2012 00h59, última modificação 12/10/2012 01h00
O experiente ex-senador Joe Biden partiu para cima do ultra-conservador Paul Ryan para defender governo Obama
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O vice-presidente americano, Joe Biden (E), candidato à reeleição e o adversário republicano, Paul Ryan, se enfrentam em debate perante a moderadora Martha Raddatz, em Danville, Kentucky. Foto:AFP

por Eduardo Graça, de Nova York

Trinta e cinco minutos antes de enfrentar o deputado republicano Paul Ryan no único debate entre os candidatos a vice-presidente dos EUA, realizado no estado sulista de Kentucky, o democrata Joe Biden tuitou: “Eu e Barack estamos nesta disputa, pois jamais pararemos de lutar por vocês. Vocês verão isso hoje de noite”.

Ao fim de uma hora e meia de discussão, o contraste não poderia ser maior entre o primeiro encontro direto entre Barack Obama e Mitt Romney: o experiente ex-senador de 69 anos partiu para cima do ultra-conservador de 42 anos desde o início.

Beneficiados por uma mediadora afiada, a repórter Martha Raddat, da rede ABC, os dois candidatos se enfrentaram quase sempre cordialmente, mas de forma contundente. A capa da “New Yorker” desta semana, com Romney no palco falando sozinho, para uma cadeira vazia, onde Obama deveria estar no primeiro debate em Denver, Colorado, não poderia ser bisada com as imagens de Biden e Ryan. Para a maioria dos analistas, enquanto Biden se mostrou mais preparado, sua postura extremamente agressiva – interrompendo o adversário constantemente e oferecendo um sorriso irônico quando aguardava sua vez de falar – pode ter alienado os poucos eleitores ainda indecisos.

Um dos momentos-chave do debate se deu quando Ryan atacou os 90 bilhões de dólares destinados pelo pacote de estímulo à economia da administração Obama a projetos de energia limpa. Biden gargalhou e o interrompeu no meio da sentença. “Vocês deveriam ir ao meu site. O deputado aqui me mandou duas cartas pedindo ‘por favor, será que vocês poderiam me enviar uma parte do estímulo, para o meu distrito’?”. E seguiu: “É que irá criar crescimento e emprego. Estas são as palavras dele. E agora ele está aqui olhando para mim, sentado em sua cadeira, dizendo isso?”. Ryan respondeu apenas que pediu a verba para seus eleitores, “porque isso é o que nós fazemos”. Biden respondeu de bate-pronto: “A propósito, pode continuar me escrevendo, estarei sempre atento”.

Desde o primeiro momento Biden mostrou que vinha disposto a arregaçar as mangas e se apresentar, tal qual insinuava em seu Twitter, como o grande defensor da classe média contra os republicanos interessados em facilitar ainda mais a vida dos ricos no país.

Em exatos 25 minutos de debate Romney trouxe o vídeo em que Mitt Romney classificava 47% dos americanos como ‘vivendo às custas do governo, sem pagar impostos’. E juntou a ele a declaração de Ryan de que 30% dos americanos não contribuem para o crescimento do país. “Estas pessoas são meus pais, meus amigos, meus vizinhos, os meninos que estão lutando por este país no Oriente Médio!”, disse.

Em um dos livros mais interessantes sobre o primeiro presidente negro dos EUA, “The Audacity to Win” (algo como ‘A Audácia Para Vencer”), David Plouffe escreveu que um dos principais motivos para Barack Obama escolher Joe Biden como seu companheiro de chapa em 2008 foi exatamente sua capacidade de debater. Em primárias que contavam com Hillary Clinton, o então senador por Delaware se destacou como o melhor debatedor democrata.

Biden, famoso por deixar escapar verdades em gafes pouco comuns em Washington, não escorregou em nenhuma casca de banana. Ryan, que buscou se apresentar presidencial e fugir de seu passado como congressista extremista, apoiando projetos como a redefinição de estupro em casos de aborto, cometeu ao menos um deslize importante, e em defesa, área importante para os republicanos. Ele criticou o fato de não haver fuzileiros navais em Benghazi, na Líbia, no último 11 de setembro, quando o embaixador americano foi assassinado em um ataque terrorista, inicialmente apresentado pelo governo como um ato de violência não-terrorista. Fuzileiros navais, no entanto, somente são estacionados em embaixadas, jamais em consulados. À acusação, Biden lembrou que o deputado liderou, em seu afã conservador fiscal, o corte de 300 milhões de dólares ao que Washington pedia para seguranças de suas embaixadas no exterior. E ainda lembrou que Romney convocou uma coletiva de imprensa sobre o tema imediatamente, “usando o fato politicamente, algo nada presidencial”.

A discussão passou pelo Oriente Médio, com Ryan criticando a posição de Washington na Síria e no Irã e Biden, olhando-os nos olhos, perguntando: “O que vocês querem? Uma guerra?”. Ryan se esquivou dizendo que só colocaria soldados americanos em um país estrangeiro se ‘a segurança nacional e os interesses do país’ o levassem a tanto.

Os candidatos trataram ainda do direito ao aborto, desemprego, política industrial, reforma da saúde pública, previdência social, reforma fiscal, tamanho do aparato militar ianque e Afeganistão, com Biden afirmando, peremptoriamente: “Já pegamos Bin Laden, já contemos o Talibã. A guerra acabou. Sairemos de lá no ano que vem, ponto final”. Ryan disse que o objetivo é deixar a Ásia Central em 2014 mas que a saída precisa se dar de forma cautelosa.

Ao fim da noite os republicanos pareciam contentes com um candidato a vice-presidente que se mostrou ‘presidencial’ ao não perder a calma e manter a fleuma em meio a uma saraivada de ataques de Biden e os democratas energizados com a aparição de uma figura pública que cumprira o que prometera antes de iniciar o debate: lutar pelos seus correligionários.

O estrategista democrata Paul Begala, na rede CNN, dizia que na primeira hora após o debate recebera dezenas de mensagens de líderes sindicais e comunitários animados a voltar às ruas para defender a candidatura Obama, deixando para trás o desânimo gerado pela atuação apática do presidente no debate de Denver.

Em uma pesquisa com eleitores não-alinhados com os dois partidos, feita pela rede CBS após o fim do debate, metade considerou Biden o vitorioso da noite, contra 31 para Ryan e 19% apontando para um empate. A CNN, por sua vez, apontou Ryan com 48% dos eleitores como o vencedor da noite e 44% preferiram Biden. O próximo round acontece na terça-feira em Long Island, no estado de Nova York, e com os protagonistas da corrida presidencial, Barack Obama e Mitt Romney, mais uma vez frente à frente, desta vez em um formato de um ‘town meeting’, com cidadãos ainda indecisos em quem votar perguntando aos candidatos questões sobre política externa e temas caros aos americanos, como a economia, a saúde pública e a segurança nacional.