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Contra a austeridade

por Gianni Carta publicado 29/04/2012 10h14, última modificação 29/04/2012 12h34
Os resultados do primeiro turno da eleição revelam que os grandes derrotados são os próprios líderes europeus, Nicolas Sarkozy e Angela Merkel
Sarkozy

Com um discurso ultradireitista, Sarko procura conquistar os votos da própria Marine Le Pen, que, pessoalmente lhe nega apoio

O primeiro turno da presidencial francesa, em 22 de abril, transcendeu um pleito nacional: o povo votou contra a liderança da Zona do Euro. Acrescente-se que isso ocorreu na maior crise econômica já atravessada pela União Europeia (UE). Em miúdos, os cidadãos franceses demonstraram, como seus conterrâneos em outros países da UE, seu desejo de se desfazer do conservador Nicolas Sarkozy e, por tabela, de Angela Merkel, a chanceler alemã parceira do atual presidente francês na formulação da política de austeridade europeia. O vencedor socialista do primeiro turno, François Hollande, acredita que em época de crise é preciso de menos austeridade e, ao mesmo tempo, de um “pacto de crescimento”. E Hollande quer renegociar o “pacto fiscal” firmado entre Alemanha e França com Merkel no início das turbulências há dois anos.

O cômputo final do primeiro turno foi no mínimo desesperador para Merkozy, como é conhecida a dupla de líderes europeus. Sarko, da União por um Movimento Popular (UMP) levou 27,2% dos votos, ante 28,6% do candidato socialista. De acordo com uma pesquisa divulgada na quinta-feira 26 pelo instituto TNS/Sofres, Hollande obterá 55% dos votos, contra 45% para o atual presidente, no segundo turno, dia 6 de maio.

Com pouco mais de 18%, Marine Le Pen, líder da legenda de extrema-direita Frente Nacional, foi, de certa forma, a grande vencedora no primeiro turno. Partidária da saída da França da Zona do Euro, ela dobrou o número de votos do pai no pleito presidencial de 2002, quando o controverso Jean-Marie Le Pen disputou o segundo turno contra o gaullista Jacques Chirac. “A escolha de Marine é em grande parte feita pelos pobres, isto é, operários, camponeses e desempregados, etnicamente de origem europeia, e que se sentem despossuídos de sua cultura e seu modo de vida sobre um território que julgam ser deles”, argumenta o filósofo Robert Redeker, 57 anos, editorialista da revista Les Temps Modernes e pesquisador do Centre Nationale de Recherche Scientifique (CNRS).

Islamofóbica (o novo antissemitismo), Marine quer expulsar do país todos os imigrantes ilegais. Mas ela agrada porque seu discurso é mais sutil que o de Jean-Marie Le Pen e isso a faz mais perigosa, ainda que sua meta, de fato, seja a mesma do pai. “Quero fazer o sistema implodir”, disse em um comício. “Marine é mulher, mãe solteira, boa oradora e tomou distância das ideias do pai, como a de que o Holocausto não existiu”, opina Katia Delcenserie, professora de francês, 37 anos. Segundo Redeker, o voto em Marine só poderá crescer nas eleições parlamentares, em junho próximo. De fato, ela espera formar uma bancada de 15 deputados.

Por sua vez, Jean-Luc Mélenchon, da Frente de Esquerda, aliança a reunir grupos de extrema-esquerda, além de comunistas, obteve 11,1% dos votos, a melhor atuação vermelha desde 1981. Em quinto lugar, o centrista François Bayrou ficou com 9,1%. Os outros cinco candidatos tiveram resultados pouco expressivos.

“A vitória para Sarkozy seria missão quase impossível”, afirma Redeker. Para vencer, Sarko precisaria de mais de 80% dos votos da Frente Nacional de Marine Le Pen, e mais 75% dos eleitores de Bayrou. No entanto, segundo pesquisas de intenção de voto, que neste ano parecem bastante confiáveis (veja as previsões do primeiro turno), 60% dos lepenistas e apenas 30% dos centristas cogitam apoiar Sarkozy.

Se Mélenchon orientou seus eleitores a votar em Hollande, Marine recusa-se a fazer o mesmo por Sarkozy. Segundo ela, o presidente e Hollande trabalham para os ricos. Por sua vez, o presidente diz que não fará pactos com Marine, mas às vésperas de eleições vestiu a camisa de político de extrema-direita, como em 2007, e, entre outras medidas, ameaçou pôr fim à participação da França na Zona Schengen (com o aval de Merkel), a qual possibilita a livre circulação de cidadãos de 26 países europeus. Para agradar ainda mais à extrema-direita, Sarko disse que há muitos estrangeiros ilegais na França a ameaçar “nossa civilização” e “o estilo de vida”. Após o primeiro turno, ele foi firme e, como sempre, esperto: “Não haverá acordo com a FN, nem ministros, mas eu devo levar em consideração o voto dos eleitores que optaram pela candidata da FN, Marine Le Pen”. Em outra entrevista, deixou escapar um lapso: “Le Pen é compatível com a república”. A frase, como legenda da imagem de Sarko, foi capa do diário de centro-esquerda Libération.

A onda antissarkozysta é fácil de explicar. Como dito anteriormente, o atual presidente francês e sua homóloga alemã acreditam que somente um programa de austeridade poderá salvar o euro. Para piorar o quadro, Merkel e Sarkozy agem como bedéis a puxar a orelha dos “maus alunos”, isto é, da Grécia, de Portugal, Espanha e até da Itália, terceira economia europeia. E o fazem com arrogância, a despeito do fato de também nem sempre respeitarem diretivas da UE como o déficit de 3% do Produto Interno Bruto.

De qualquer forma, parece claro que o programa de austeridade não tem vingado. Devido à crise da dívida nos últimos dois anos caíram governos de esquerda e direita em Portugal, Irlanda, Grécia, Espanha, Eslováquia, Islândia, Reino Unido, Romênia e Itália. Nesta semana, o governo de centro-direita de Mark Rutte, na Holanda, tornou-se a décima vítima da crise da dívida, por falta de um acordo político para aprovar um corte de 16 bilhões de euros.

A provável derrota de Sarko também se deve ao seu péssimo legado. Eleito como reformista, ele traria energia para a economia francesa. Uma reforma, necessária em um continente no qual a expectativa média de vida aumenta a galopes, foi a de ter aumentado a idade mínima de aposentadoria de 60 para 62 anos. A dívida pública subiu, no entanto, para 600 bilhões de euros, a França teve a nota de crédito rebaixada em 1 grau, enquanto o déficit público atingia 70 bilhões de euros.

Também não está claro se Sarko é liberal, no sentido anglo-saxônico, ou protecionista. Ele quer taxar mais os ricos e proteger as indústrias francesas diante da crise global, ou prefere a competividade capitalista? Disse recentemente: “Quero uma Europa que proteja suas empresas e seus cidadãos”. Afinado com Angela Merkel, o presidente francês bate, porém, na tecla “austeridade”.

“Estamos cansados desse termo ‘austeridade’, mas, claro, compreendemos a necessidade de termos de adotar certa disciplina para lidar com a crise do euro”, diz Delcenserie. Ela também indaga: “Será que não é possível mesclar austeridade com doses de incentivos para o povo?” A professora votou em Jean-Luc Mélenchon, o candidato da Frente de Esquerda. Em suma, ela não usufruiu do “voto útil”, no caso em Hollande, para evitar uma divisão entre as esquerdas, como aconteceu na presidencial de 2002, quando não houve candidato da esquerda no segundo turno, e sim o gaullista Chirac contra o extremista Jean-Marie Le Pen.

Por que Delcenserie votou em Mélenchon? “Ele vem do povo, entende o povo e virou um intelectual e político.” No segundo turno, ela votará em Hollande. “Creio que ele será capaz de mesclar disciplina fiscal com seu ‘pacto de crescimento’, e o fato de ele querer renegociar o pacto fiscal para o euro com os alemães também é positivo”, avalia.

Hollande tem o apoio de líderes de peso. Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu, é, por exemplo, favorável ao “pacto de crescimento”. Da mesma forma, a liderança do Partido Social Democrata Alemão (SPD) acha que Hollande poderia desviar a França, e por tabela a Europa, da política de austeridade. Mas quais serão as medidas para gerar crescimento? Isso ainda não é transparente, mas o mais provável é um crescimento turbinado por empréstimos, e consta que Draghi é favorável à medida.

Hollande diz que, uma vez eleito, sua primeira viagem será rumo a Berlim. Lá ele tentará convencer Angela Merkel sobre a importância do “pacto de crescimento”. Caso a chanceler bata o pé, Hollande já avisou que bloqueará a ratificação do tratado fiscal assinado dois anos atrás. Assim Hollande mandará para os ares a velha parceria franco-alemã das últimas três décadas. Ficarão as lembranças de duplas como a de Helmut Kohl e François Mitterrand de mãos dadas, ou, mais recentemente, a de Jacques Chirac e Gerhard Schroeder.

Ao mesmo tempo, Hollande também não poupa o BCE. O banco com sede em Frankfurt, disse ele, deveria ajudar na crise da moeda com empréstimos aos governos da Zona do Euro, em vez de dar créditos baixos para bancos.

E, antes mesmo de pisar em solo alemão como presidente, Hollande já mandou um recado para os germânicos. “Aquele país não pode permanecer uma ilha de prosperidade no meio de um oceano de recessão”, disse Hollande ao diário francês Les Echos. “Imagine se a Alemanha dirigir a Europa sozinha e isolar a França!”

Protégé de François Mitterrand, Hollande adotou os gestos do ex-presidente, mas não a arrogância. Ao contrário de Sarko e seus tiques nervosos, Hollande é calmo e acessível à mídia. Nunca ocupou um ministério, e atualmente é presidente da Corrèze, um pequeno departamento rural. No último ano, perdeu 10 quilos e tornou-se um homem esguio, a trajar agora ternos bem cortados e óculos modernos. Não se trata de um carismático, mas quem o conhece louva seu senso de humor. Os contrastes entre Sarko e Hollande favorecem o provável novo presidente.

Claro, Angela Merkel discorda. Segundo o semanário de centro-esquerda alemão Der Spiegel, “para Merkel essa é uma eleição como poucas, e mais importante do que pleitos estaduais na Alemanha. Quem quer que vença na França terá de agir ao seu lado para direcionar a política econômica europeia. Se o vitorioso for Hollande, as coisas poderão se tornar desconfortáveis para ela, tanto em Bruxelas como em Berlim”.

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