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Construtoras de Gaza lideram recuperação econômica com ajuda do mercado negro

por The Observer — publicado 26/01/2012 13h52, última modificação 26/01/2012 20h25
A florescente indústria da construção vence o bloqueio israelense contrabandeando materiais através de túneis
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A florescente indústria da construção vence o bloqueio israelense contrabandeando materiais através de túneis. Foto: Codepinkhq/Flickr

Durante três anos, Wael Arabeed não trabalhou um só dia. Ele mergulhou em sua poupança, formada durante 25 anos de trabalho em projetos de construção na Arábia Saudita, Síria e Egito, para alimentar sua família. Vendeu o carro e começou a acreditar que sua vida ativa havia terminado.

Mas agora o engenheiro civil tem mais trabalho do que pode dar conta. Atirando mais uma proposta sobre a mesa, ele diz: "Eu recebo tantas ofertas que nem consigo olhar. Estou ocupado demais."

 

 

Arabeed se beneficia de um extraordinário surto econômico em Gaza, não apenas na construção, mas também na agricultura, na indústria de hotéis e restaurantes, transportes e manufaturas. Todos os setores cresceram no último ano e o emprego no setor privado aumentou mais de 50%, apesar de partir de uma base muito baixa, segundo a agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados Palestinos, Unrwa.

Mas é na indústria da construção que o mini-boom é mais visível. Depois de ficar privada de materiais durante o bloqueio de três anos de Israel à Faixa de Gaza, hoje o território está salpicado de esqueletos de novos edifícios. Prédios de apartamentos, hospitais, escolas, hotéis e mesquitas brotam por todos os lados. A estrada litorânea esburacada em Gaza City está sendo transformada em um cartão-postal.

Apesar de atenuar o bloqueio em 2010, Israel manteve a proibição à importação de materiais de construção, alegando que poderiam ser usados para montar foguetes ou construir depósitos de armas ou bunkers. Só permite materiais para projetos indicados pela ONU, como escolas.

 

 

Mas brita, concreto e aço importados ilegalmente jorram pelos túneis entre Rafah, no extremo sul de Gaza, e o Egito. Durante o bloqueio, os túneis mantiveram a região abastecida desde chocolate e cigarros a geladeiras, carros, remédios e animais vivos. Hoje os empresários do mercado negro se concentram na demanda por material de construção.

Em setembro, 9,1 toneladas de brita foram legalmente importadas por Gaza através da fronteira controlada pelos israelenses em Kerem Shalom, segundo a Unrwa. Quase dez vezes essa quantidade, cerca de 90 mil toneladas, passaram pelos túneis. Os números de barras de aço mostram um padrão semelhante: 1.418 toneladas por Kerem Shalom; 15 mil toneladas pelos túneis.

Anas Najjar, tirando brita com uma pá do túnel de 15 metros de profundidade e 300 metros de comprimento em que trabalha, disse que os preços dos materiais de construção caíram mais da metade porque o mercado ficou inundado -- boa notícia para as firmas de construção, má notícia para os donos dos túneis.

Uma tonelada de brita hoje alcança 95 shekels (16 libras), comparados com 200 shekels seis meses atrás, disse. "Existem cerca de 300 túneis pelos quais entram cimento, borracha e aço."

Nove homens estavam trabalhando em seu túnel em três turnos, 24 horas por dia, seis dias por semana, tirando 60 toneladas de brita por dia, contou, enquanto caminhões percorriam a distância arenosa junto à fronteira egípcia guardada por seguranças do Hamas, coletando materiais para entrega em obras de Gaza.

Em Teba, local do antigo assentamento israelense de Netzarim, que foi evacuado em 2005, Arabeed supervisionava 25 homens nas obras de salas de aula para estudantes de medicina em um hospital em construção. O local de 35 milhões de dólares foi financiado pela Turquia e as salas de aula de 2 milhões de dólares, por doadores do Golfo.

"A indústria está muito ativa por dois motivos", apontou. "A disponibilidade de materiais de construção e a enorme demanda depois do sítio." Muitos prédios foram destruídos durante a guerra de Israel com Gaza três anos atrás.

Os materiais para a obra do engenheiro estavam sendo fornecidos por meio dos túneis. Segundo ele, os preços caíram nos últimos meses, mas ainda estão cerca de 60% mais altos que antes do bloqueio. Sua principal dor de cabeça é a terrível escassez de mão-de-obra qualificada: "Todos os trabalhadores da construção estão contratados, mas precisamos do dobro. Estamos enfrentando uma crise para encontrar as capacidades certas."

Em todos os outros lugares, trabalhadores qualificados podem ser importados -- gesseiros poloneses em Londres, assentadores de tijolos indianos em Dubai. Mas em Gaza isso era impossível. A escassez havia causado uma explosão nos salários: "Houve um aumento de 40% nos últimos seis meses. Um homem qualificado hoje pode ganhar 120 shekles [20 libras] por dia. É um salário muito bom em Gaza."

Segundo a Unrwa, a renda diária média em todos os setores aumentou 7,4% no primeiro semestre de 2011, em comparação ao mesmo período de 2010. O efeito da ascensão econômica em Gaza é palpável. A atmosfera está menos tensa que um ou dois anos atrás, ajudada pelo relaxamento na fronteira com o Egito, permitindo que os moradores saiam e voltem com maior facilidade.

A ascensão, porém, não é compartilhada por todos. O desemprego em Gaza caiu, mas uma em cada três pessoas no potencial mercado de trabalho continua desempregada e a pobreza é generalizada nos lotados campos de refugiados.

"Apesar de ganhos importantes, o desemprego em Gaza, assim como a pobreza, continua entre os mais graves do mundo", disse Salem Ajluni, um economista que compilou um relatório sobre o mercado de trabalho na região para a Unrwa.

Além disso, é improvável que esse mini-boom se sustente. Israel ainda proíbe quase todas as exportações, a não ser alguns carregamentos de morangos e flores. Indústrias como as de têxteis e móveis, que já foram pilares da economia de Gaza, lutam para se recuperar sem a possibilidade de comércio com o exterior.

As exportações estão em cerca de 3% dos níveis anteriores ao bloqueio, destacou Ajluni. E completou: "Em última instância, é a capacidade de exportação que vai sustentar o crescimento em longo prazo."

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