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Congelados na década de 50

por Gianni Carta publicado 29/11/2010 10h41, última modificação 25/10/2011 11h54
O novo confronto entre as Coreias acontece em um momento delicado. O Norte comunista ensaia a transição de poder de Kim Jong-il para o filho Kim Jong-un, que tenta se impor como líder
Congelados na década de 50

O novo confronto entre as Coreias acontece em um momento delicado. O Norte comunista ensaia a transição de poder de Kim Jong-il para o filho Kim Jong-un, que tenta se impor como líder. Por Gianni Carta. Foto: STR/AFP

As novas ameaças militares da Coreia do Norte contra a vizinha do Sul na quinta-feira 25 revelam um país tomado pelo desespero com o qual é preciso negociar. O motivo-mor para recorrer à diplomacia é o fato de a Coreia do Norte estar mergulhada numa delicada sucessão: Kim Jong-un substituirá o doente pai Kim Jong-il. Assim, como um acuado urso ferido é sempre capaz de desferir uma patada fatal, resta ao Norte comunista uma arma desestabilizadora para quaisquer grupos de inimigos, seu programa nuclear.

A nova e enésima contenda entre Pyong-yang e Seul teve início na terça-feira 23, quando uma troca de disparos de artilharia provocou a morte de quatro pessoas, entre eles dois civis, e deixou mais de 20 feridos na ilha sul-coreana de Yeonp-yeong. Situada no Mar Amarelo, a oeste da Península Coreana e a apenas 12 quilômetros da Coreia do Norte, a ilha encontra-se ao sul do traçado fronteiriço fixado pelas Nações Unidas em 1953. Contudo, o arquipélago está ao norte da linha divisória reivindicada por Pyongyang.  

Segundo a agência estatal de notícias KCNA, Pyongyang acusa Seul pelo início das hostilidades. E enfatiza ter deixado claro o seguinte: qualquer exercício militar por parte de Seul seria visto como uma “ameaça”. Seul admite ter disparado durante exercícios militares. Mas o território de seu vizinho ao norte não teria sido atingido, afirmam as Forças Armadas. O incidente é um dos mais graves entre as duas nações desde a Guerra da Coreia (1950-1953).    

 Para o diário Korea Herald, o ataque perpetrado pelo Norte “foi um óbvio ato de guerra”. E mais, defende o jornal: o presidente sul-coreano, Lee Myung-bak teve razão em retaliar. “Ele ordenou a punição do Norte por uma ação militar, não somente via palavras, alegando ser importante colocar um fim na possibilidade de o regime comunista contemplar adicionais provocações.” 

Talvez o presidente Lee tenha autorizado o ataque contra o Norte porque, em março deste ano, agiu com cautela quando um torpedo afundou o navio de guerra sul-coreano Cheonan – e 46 marinheiros perderam a vida. Apesar da inscrição norte-coreana no torpedo, Pyongyang negou tê-lo disparado. Seul estremeceu as relações diplomáticas com o vizinho. No entanto, até poucas semanas atrás enviou toneladas de arroz ao Norte, onde prevalece a fome.     

Não é certo se o presidente Lee saiu fortificado ao retaliar contra o Norte. Assim como o ato de guerra perpetrado por Kim demonstra o isolamento diplomático e subsequente desespero de Pyongyang, ao revidar com armas Lee parece ter se comportado com a mesma impetuosidade de seu rival. 

Para piorar o quadro, a ausência de uma estratégia diplomática para a disputa entre as Coreias por parte da chamada comunidade internacional tem sido total. Suspensas há dois anos as negociações do Grupo dos Seis (China, Japão, Rússia, Estados Unidos e as duas Coreias), faltou iniciativa por parte de qualquer uma das potências envolvidas. 

Washington mostrou-se solidária à sua aliada Seul. Corre o rumor de que Washington cogitaria reenviar armas nucleares para Seul. Isso, para muitos, seria um simples ato de jogar lenha na fogueira – e fazer estourar uma guerra. Por ora diplomático, Barack Obama foi sucinto: “Há regras internacionais a serem obedecidas pelos norte-coreanos”. 

Nem todos concordam com o posicionamento de Obama ao lado do presidente sul-coreano. Segundo Leon V. Sigal, da Arms Control Association, o presidente dos Estados Unidos deveria entender que “a pior coisa ao negociar com a Coreia do Norte é não negociar com a Coreia do Norte”. Pyongyang tem explorado seu programa nuclear “para convencer Washington a pôr fim em anos de inimizade”. 

Embora um armistício tenha sido assinado em 1953, tecnicamente a Guerra da Coreia não terminou. Pyongyang precisa, e com urgência, assinar um tratado de paz. Boas relações diplomáticas com outros países trariam a tão necessária ajuda econômica. Com setores da indústria e da agricultura devastados pelo coletivismo, a economia sofre desde a queda do comunismo na Europa, em 1989. Nos anos 90, cerca de 2 milhões de norte-coreanos morreram de fome, enquanto seu líder Kim investia milhões de dólares para obter a bomba atômica. 

Sanções por parte de Seul e Washington para o desarmamento de Pyongyang não têm funcionado porque o programa nuclear é a única carta no baralho de Kim. E, após uma visita à Coreia do Norte neste mês, um cientista da Universidade de Stanford mostrou-se surpreso: o programa continua a avançar. Nesse contexto, Obama deveria levar em conta negociações bilaterais. 

Enquanto isso, o Japão,  outrora potência imperial na Ásia, está reduzido a usar os EUA como escudo. A Rússia recorre a sinistros jogos diplomáticos. Por sua vez, a China, aliada e maior parceira comercial do Norte há 57 anos, não condenou os ataques. Mas Pequim, como Washington, não parece ter nenhum interesse na continuidade da dinastia da família Kim. 

Vítima de um derrame em 2008, Kim cercou o filho de mentores.  E o conflito na pequena ilha do Mar Amarelo soa como uma tentativa para lhe conferir maior credibilidade. Aumentar a tensão na Península Coreana seria uma forma para angariar apoio ao futuro líder, promovido a general de quatro estrelas em setembro.     

Poucos veem no jovem Kim (neto do fundador da dinastia) um estadista capaz de trazer estabilidade para um país devassado pela fome e com um PIB per capita de 1.377 euros (ante 20.290 euros per capita na Coreia do Sul). Para os dirigentes em Pequim, a penúria norte-coreana se deve em grande parte à falta de um programa econômico de abertura nos moldes chineses.  

 Mesmo assim, Kim foi recebido duas vezes neste ano com grande pompa pelo presidente chinês, Hu Jintao. Os dirigentes da China são contra a unificação das Coreias por temerem que milhares de soldados americanos (atualmente na Coreia do Sul) se instalem nas suas fronteiras. Além disso, uma unificação provocaria um expressivo influxo de migrantes norte-coreanos para a China.

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