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"Comunidade internacional desperdiça chance de tirar Haiti da pobreza", diz ONG

por Opera Mundi — publicado 12/01/2011 17h06, última modificação 12/01/2011 17h21
Um ano depois de o mais forte terremoto da história atingir Porto Príncipe e as áreas vizinhas ainda carregam as cicatrizes provocadas pelo sismo.

Por Lamia Oualalou, de Paris*

Em 12 de janeiro de 2010, um terremoto de 7,3 graus na escala Richter atingiu o Haiti deixando um saldo de mais de 250 mil mortos, 300 mil feridos e 1,3 milhão de desabrigados. Um ano depois, Porto Príncipe e as áreas vizinhas ainda carregam as cicatrizes provocadas pelo sismo. Pilhas de entulho ao longo das estradas, casa destruídas e os campos de desabrigados espalhados pela cidade ainda tornam a vida de milhares de haitianos muito difícil.

Pierre Salignon, diretor-geral da Médecins du Monde (Médicos do Mundo), uma das principais ONGs em atuação no Haiti, avaliou em entrevista ao Opera Mundi o aniversário de um ano do terremoto e o que foi feito pelas organizações humanitárias, importantes personagens no alívio do caos instalado após a tragédia natural. De acordo com ele, as consideráveis doações prometidas por governos de diversos países não chegaram ao Haiti e fazem muita falta. "Ao continuar a dar apenas respostas pontuais, a comunidade internacional está desperdiçando a chance de tirar o Haiti da pobreza", disse.

Qual é a situação no Haiti, um ano após o terremoto?
É um triste aniversário. Desde 12 de janeiro de 2010 os haitianos, que sempre viveram em uma situação de extrema pobreza, sobrevivem quase exclusivamente da ajuda internacional proporcionada por ONGs e pela ONU (Organização das Nações Unidas). A população está extremamente frágil. Estamos falando de 1,3 milhão de desabrigados, mas a realidade é muito mais grave. Mesmo aqueles que moram em espaços similares a casas, em “bairros”, vivem em condições extremamente difíceis. Mesmo que isso não seja politicamente correto dizer, a realidade é que a maior parte de Porto Príncipe já parecia uma favela. O terremoto piorou ainda mais o cenário.

Além das dificuldades enfrentadas pela destruição provocada pelo terremoto, há a cólera. Mais de três mil pessoas morreram desde o ano passado. A epidemia está controlada?
É preciso prudência para avaliar. Desde o final de outubro foram registrados por volta de 157 mil casos, 3,5 mil mortes e 80 mil internações. Esses dados são especialmente chocantes quando lembramos que a doença estava erradicada há décadas. Felizmente, o pior cenário, um surto nos campos de refugiados, não aconteceu. No entanto, a epidemia está longe de ser contida. Lutamos contra a falta de higiene e informação, o analfabetismo e a dificuldade de acesso a hospitais nas áreas rurais. O terremoto e a cólera têm agravado a situação sanitária anterior, que já era ruim. Por causa de hospitais sobrecarregados e os altos custos das clínicas privadas, metade da população não tinha acesso a um sistema de saúde básico. A presença de ONGs médicas melhorou a situação neste contexto de emergência.

Este trabalho é feito em colaboração com as autoridades sanitárias?
Sim, embora seja muito complicado. O Ministério da Saúde haitiano elaborou um plano provisório para a reconstrução, mas avança muito devagar. No caso da cólera, são principalmente as ONGs que administram a crise. Com cada nova iniciativa, porém, procuramos integrar as autoridades, tentando imaginar como as atividades de longo prazo serão retomadas pelo Estado haitiano. Mas não é fácil, por causa da falta de planejamento e recursos do Estado.

O senhor se refere aos recursos financeiros ou humanos?
Ambos. O Estado ainda espera doações prometidas pela comunidade internacional. Quanto aos recursos humanos, eles têm sempre falhado, mas a situação piorou. Muitas pessoas qualificadas deixaram o país.

Quantas doações realmente chegaram ao Haiti?
É difícil avaliar. Podemos dizer que quase 6,6 bilhões de reais, entregues principalmente por doadores privados, financiam as operações humanitárias maciças, que começaram depois do terremoto e continuam até hoje. O trabalho é feito em sua maioria pelas grandes ONGs internacionais, assim como muitas igrejas evangélicas norte-americanas, que aumentaram a dimensão religiosa já muito forte no país, com uma cultura de resignação. Temos também que ressaltar o trabalho dos médicos cubanos, que é muito eficiente. No entanto, a ajuda prometida por diversos países ainda não chegou. Dos 10 bilhões de dólares prometidos em março de 2010 durante uma conferência em Nova York feita por doadores internacionais, apenas algumas centenas de milhões foram desembolsadas. Muitos países mantêm uma retórica generosa cuja realização não consta.

A crise econômica internacional pode ser uma explicação para esse atraso?
A situação econômica tem obviamente um papel importante. Em julho passado, assisti em Nova York à uma reunião sobre a reconstrução de Haiti.O ex-presidente norte-americano Bill Clinton falou imediatamente das dificuldades causadas pela crise econômica, para incentivar novos financiamentos. Em todos os países ricos, quando os orçamentos sociais são cortados, a ajuda é automaticamente reduzida. Fica apenas a emergencial, porque é interessante para a imagem. O outro argumento dos doadores é dizer que a fragilidade do governo haitiano torna impossível qualquer programa de reconstrução, que não haveria estrutura para gerenciar o dinheiro. É um círculo vicioso: sem a ajuda da comunidade internacional, o governo não pode se recuperar. E agora, com a indecisão política das eleições, é ainda pior.

As ONGs dariam conta da reconstrução do país?
As ONGs proporcionam um trabalho fundamental na resposta de emergência, que tem salvo muitas vidas, mesmo que nossa atuação provoque críticas. É verdade que há pessoas cheias de boas intenções, mas ineficientes, e podemos lamentar a falta de uma boa coordenação. No entanto, o problema real é que as ONGs não conseguem encarar uma tarefa que está além das suas verdadeiras responsabilidades e capacidades em termos de reconstrução e luta contra a pobreza. Os países devem se envolver mais e parar de ajudar o Haiti somente por meio de programas de emergência. Ainda há tempo para cumprir essa promessa. Não escondo, porém, que o pessimismo no país é cada vez mais forte. Ao continuar a dar apenas respostas pontuais, a comunidade internacional está desperdiçando a chance de tirar o Haiti da pobreza. O terremoto de 12 de janeiro seria apenas mais uma tragédia na história do país.

*Matéria publicada originalmente no Opera Mundi

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