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Oriente Médio

Com o ataque à Síria, Israel acelerou o conflito regional

por José Antonio Lima publicado 07/05/2013 09h46, última modificação 07/05/2013 09h50
Nenhum lado parece desejar uma solução negociada antes de apostar tudo numa guerra em que as fichas são os homens, mulheres e crianças sírias
Agência Sana / AFP
Ataque de Israel à Síria

Imagem divulgada pela Sana, a agência oficial de notícias da Síria, mostra a destruição provocada pelo ataque israelense

Os ataques de Israel a instalações militares sírias ocorridos nas madrugadas de sexta-feira 3 e de domingo 5 devem ampliar as proporções da tragédia que é a guerra civil do país árabe e transformar a natureza do conflito de uma vez por todas.

Hoje, ocorre dentro do território sírio um confronto regional entre os dois eixos de poder do Oriente Médio. De um lado está o regime Bashar al-Assad, o Irã e o grupo xiita libanês Hezbollah. Do outro, os rebeldes sírios, apoiados pelas monarquias árabes comandadas por Arábia Saudita e Catar, a Turquia e, em menor medida por enquanto, as potências ocidentais, nomeadamente Estados Unidos, França e Reino Unido.

A investida israelense provavelmente servirá como catalisadora para uma maior atuação das potências, o que por sua vez deve precipitar um ativismo mais intenso do Hezbollah e do Irã. Logo, Israel também pode se envolver novamente e começar na Síria seu confronto direto com o Irã. Em pouco tempo, a guerra vai transpor as fronteiras sírias e jogar o Oriente Médio todo num buraco cuja saída será marcada por mais sangue e destruição.

Foi mesmo Israel que atacou a Síria? Por quê?

Não há mais dúvidas sobre a autoria da agressão. No sábado 4, após a primeira parte da ofensiva, fontes anônimas do governo israelense confirmaram o bombardeio ao jornal Haaretz. Além disso, as medidas defensivas tomadas por Israel (fechar o espaço aéreo no norte do país e reforçar o Iron Dome na região) indicam preocupação com uma possível retaliação síria.

A lógica da investida para Israel tem duas dimensões. A primeira intenção, imediata, é evitar a entrega de armamento pesado sírio para o Hezbollah. O alvo dos mísseis eram, segundo fontes de Inteligência ocidental, os depósitos dos mísseis Fateh-110 e do combustível sólido usado neles. Os Fateh-110 são fabricados pelo Irã e têm grande precisão. Com eles, o Hezbollah poderia atacar aeroportos e outros pontos estratégicos de Israel, capacidade de que hoje não dispõe.

Além dos Fateh-110, Israel considera inaceitável a obtenção por parte do Hezbollah de outros dois tipos de armamentos (além, é claro, de armas químicas): os mísseis de longo-alcance Yakhont e os antiaéreos SA17, ambos fabricados pela Rússia. Se eles forem movimentados, Israel vai voltar a atacar.

A segunda intenção de Israel é enviar um alerta para o Irã. Seus serviços de Inteligência estão atentos, e seus militares têm condições de acabar com instalações muito bem protegidas. Ainda que uma ofensiva contra o sistema nuclear iraniano seja uma tarefa com grau de dificuldade muito acentuado, Israel pode conseguir realizá-la.

Ofensiva pode acelerar participação mais ativa dos EUA

Uma das repercussões do envolvimento de Israel no conflito pode ser a antecipação da decisão dos Estados Unidos de fornecer armamentos aos rebeldes. Pouquíssimos norte-americanos apoiam o envio de tropas à Síria (5%), a entrega de armas aos rivais de Assad (12%) ou mesmo ataques aéreos contra as forças do regime (16%), mas a pressão para Barack Obama agir está aumentando.

Segundo o jornal The Washington Post, os conselheiros políticos de Obama recomendam precaução, mas “as equipes de segurança nacional e diplomacia” defendem uma intervenção mais direta no conflito. Esses setores estão ganhando cada vez mais força no debate dentro dos Estados Unidos alegando a necessidade de agir logo para garantir a superioridade de forças aparentemente moderadas, como o Exército Livre da Síria e seu comandante, o general Salim Idriss, no futuro pós-Assad. O temor dos grupos favoráveis à intervenção é a proeminência do Jabhat al-Nusra, braço da Al-Qaeda, ponto fundamental das fileiras rebeldes.

A aposta de Assad

Israel não assumiu a ação militar para não se ver oficialmente envolvido num conflito cujo desfecho aguarda com apreensão. Bashar al-Assad foi nos últimos anos um vizinho estável, característica que o futuro governo sírio certamente não terá após a possível derrubada do ditador – é crescente a impressão de que a Síria caminha para se tornar um novo Iraque.

Israel deseja, assim, continuar neutro na guerra civil síria. Nesta segunda-feira 6, mais dois sinais neste sentido foram emitidos. Tzachi Hanegbi, conselheiro do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, deu entrevista dizendo que qualquer ação de Israel, “se houver”, não é direcionada ao regime. O Yedioth Ahronoth, maior jornal de Israel,  por sua vez, afirma que o governo Netanyahu enviou a Assad uma mensagem por vias diplomáticas garantindo não ter interesse de se meter no conflito interno.

A neutralidade desejada por Israel, entretanto, parece ser mais um devaneio do Estado conhecido por ser incapaz de antever as repercussões de suas ações entre os vizinhos, que o odeiam de forma generalizada. Prontamente, o governo Assad usou o ataque para tentar deslegitimar os rebeldes. Segundo ele, os “terroristas atuam em coordenação com Israel“. Em entrevista à CNN, o vice-ministro do Exterior da Síria, Faisal al Mekdad, disse estar diante de uma “declaração de guerra” enquanto o ministro da Informação, Omran al-Zoubi, afirmou que “todas as possibilidades estão abertas”. Muito provavelmente as ameaças não vão se concretizar, mas servem muito bem ao regime no cenário interno.

É certo que Assad vê uma intervenção maior das potências ocidentais e, principalmente, o ataque israelense, como possível tábua de salvação. No início dos anos 1990, quando o Iraque de Saddam Hussein invadiu o Kuwait dando início à Guerra do Golfo, a opinião pública árabe se indignou com o líder iraquiano. Quando os Estados Unidos entraram no conflito, enviando centenas de milhares de soldados para libertar o Kuwait e proteger a Arábia Saudita, a opinião pública árabe passou para o lado de Saddam. O primeiro mal foi esquecido diante do inimigo comum dos árabes: Israel.

É nesta lógica que Assad aposta para se tornar moralmente superior no conflito. Sinais de intolerância ao envolvimento de Israel surgiram com rapidez. Desde o fim de semana, diversos países árabes condenaram a ofensiva, com destaque para o governo do Egito, o Ennahda (partido governista da Tunísia) e a Liga Árabe, todos defensores ferrenhos dos rebeldes e críticos de Assad.

O Irã, como já havia feito o Hezbollah, atribuiu o bombardeio a uma conspiração entre “os EUA, a entidade sionista e os reacionários árabes” e indicou a possibilidade de retaliação, sem agir concretamente, ao menos por enquanto (no dia 14 de junho, o Irã escolhe seu novo presidente).

É possível evitar o inevitável?

A ampliação da tragédia talvez não ocorra de forma imediata, mas todos os contornos para sua chegada estão postos. Há hoje um equilíbrio entre as forças de Assad e os rebeldes, prestes a ser rompido pela intervenção direta de seus respectivos aliados. Na disputa pela Síria, e pela hegemonia no Oriente Médio, a retaliação não vai tardar. O ataque israelense parece ter criado um turbilhão. Com o passar do tempo, ele vai sugar diversos exércitos para seu interior, todos ansiosos em acertar contas e emergir do conflito mais poderosos. Diante da inexistência de mediadores capacitados ou interessados, nenhum lado parece desejar uma solução negociada antes de apostar tudo numa guerra em que as fichas são os homens, mulheres e crianças sírias. A ampliação da tragédia parece só uma questão de tempo.

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