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The Observer

Cineasta chinês revela horrores da Grande Fome de Mao

por The Observer — publicado 18/08/2014 04h09
Os documentários de Hu Jie desafiam a censura para contar a história de estudantes cujas críticas aos excessos maoístas lhes custaram a vida
François / Flickr
Hu Jie

Hu Jie durante festival de cinema independente chinês realizado em Paris, em 2008. Ele desafia o regime

Por Tania Branigan, em Pequim

Para os estudantes chineses modernos não é a Grande Fome, mas os Três Anos de Dificuldades. A catástrofe permanece tão sensível que seus livros de história não documentam quantos morreram de fome, ou por quê. Mais de 50 anos atrás, porém, no auge do desastre, um punhado de seus antecessores publicaram uma revista underground que acusava abertamente os líderes comunistas de causar a devastação. "Os mortos não podiam falar", diz um dos autores, Xiang Chengjian. "Eu decidi me sacrificar... estava disposto a morrer."

A história de Spark (Fagulha), e da ousadia dos estudantes, é a última peça do passado chinês desenterrado pelo cineasta Hu Jie. Seus documentários percorreram os excessos maoístas dos anos 1950, 60 e 70, e os indivíduos extraordinários que nadaram contra a maré. "Quero que as pessoas tenham uma oportunidade de saber a história verdadeira", disse ele.

O ex-soldado barbado, ainda musculoso em seus 50 e tantos anos, foi demitido da agência de notícias estatal Xinhua depois que começou a trabalhar em particular em seu novo filme, intitulado "Procurando a alma de Lin Zhao". Lin foi uma jovem e talentosa dissidente, executada como contrarrevolucionária, que havia escrito cartas desafiadoras com seu próprio sangue na prisão.

Logo depois vieram dois documentários chocantes sobre a revolução cultural. Though I Am Gone registra a morte brutal da professora Bian Zhongyun pelas mãos de seus próprios alunos; My Mother Wang Peiying é sobre a execução de uma mulher que pediu a renúncia de Mao Tsetung.

Os temas que Hu aborda são tão delicados que alguns dos envolvidos não os discutiram sequer com suas famílias. Ele convenceu uma série de testemunhas a aparecer em vídeo; algumas são gratas pela oportunidade de falar após anos de supressão da verdade. "Estou tentando salvar todo esse material. Se essas pessoas morrerem, as memórias desaparecerão", disse Hu.

Mas alguns simplesmente se recusam a falar, e uma das entrevistas em Spark para abruptamente quando o entrevistado recebe um telefonema advertindo-o para não falar. Esses desafios ajudam a explicar por que o filme demorou cinco anos para ser feito.

"Eu não começo com uma pré-concepção desses filmes", disse Hu. "É um processo de descoberta para mim. Sempre soube que havia algo ali, mas não exatamente o que era. No processo de fazer os filmes, eu descobri". "Eu sabia que havia uma publicação, mas não do que se tratava; apenas sabia que pessoas morreram por ela."

A Grande Fome foi causada pela adoção por Mao, em 1958 do Grande Salto à Frente, uma tentativa de fazer a produção industrial e agrícola aumentar por meio da coletivização e do zelo revolucionário.

As autoridades locais, usando a ambição e o medo, exageravam grosseiramente suas colheitas; alimentos muito necessários no interior eram enviados às cidades e até para o exterior. Burocratas assediavam, espancavam, detiam e até matavam os que tentassem alertar as autoridades, roubar comida para sobreviver ou fugir da fome.

Enquanto viam os cadáveres se amontoar, um pequeno grupo de estudantes decidiu agir. As duas edições de Spark – tudo o que eles produziram antes de ser apanhados – diziam que as autoridades tinham transformado os agricultores em escravos e criticavam os graduados que festejavam enquanto o povo passava fome.

"Os intelectuais chineses permaneceram em silêncio. Ninguém ousava criticar o governo", disse Hu. "Só os estudantes ousaram se manifestar, ao custo de suas vidas."

Hu não é o único nesse trabalho; outros chineses tentaram documentar a catástrofe. Yang Jisheng, um ex-repórter da Xinhua, passou 15 anos revirando os arquivos oficiais para produzir seu relato, Tombstone. Outro cineasta, Wu Wenguang, contratou jovens para coletar histórias orais. Mas nada desse trabalho pode ser divulgado na China, e Yang foi atacado recentemente por negadores que se recusam a aceitar que dezenas de milhões de pessoas morreram ou que o Grande Salto à Frente foi responsável.

"Essas pessoas nos documentários estavam morrendo por nós – elas se sacrificaram para nos salvar. Temos uma dívida moral de contar sua história", disse Hu.

Em certa etapa, ele gravou vídeos de casamento para financiar seus documentários; hoje, ele e sua mulher, Jiang Fenfen, contam com suas aposentadorias. Eles trabalham com orçamento apertado, compram passagens de pé nos trens e dormem nos hotéis mais baratos. "Meu sacrifício pessoal não deve ser citado, mas eu admiro a contribuição de minha esposa", disse ele.

Hu está desacelerando com a idade, e dedicando mais tempo a seu antigo amor, a pintura – embora seus trabalhos muitas vezes sejam inspirados por temas ligados aos filmes. Mas ele espera que uma nova geração de documentaristas perceba a importância dessa época e assuma a tarefa que ele iniciou. "Se vocês não registrarem isso, talvez ninguém o faça", advertiu.

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