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CIA matou banqueiro para jornais argentinos ficarem com Papel Prensa, diz jornalista

por Opera Mundi — publicado 06/09/2010 16h27, última modificação 07/09/2010 09h28
Em 1990, Juan Gasparini lançou livro sobre um dos temas mais controvertidos da história recente da Argentina: a morte do empresário David Graiver

Em 1990, o jornalista argentino Juan Gasparini lançou um livro sobre um dos temas mais controvertidos da história recente da Argentina: a morte do empresário David Graiver, em um acidente de avião com causas nunca esclarecidas e a venda da Papel Prensa, principal empresa responsável pela fabricação e distribuição de papel-jornal para os jornais argentinos, aos grupos Clarín e La Nación, maiores conglomerados de mídia do país. Vinte anos depois, uma acusação feita pelo governo de Cristina Kirchner faz o assunto se tornar o centro da discussão política na Argentina.

Após mais de dois anos de pesquisa, Juan Gasparini escreveu El Crimen de Graiver, reeditado em 2007 sob o título David Graiver: El Banquero de los Montoneros e que agora chega à terceira edição. A nova versão acrescenta um prólogo e um epílogo que atualizam os acontecimentos e começou a chegar às livrarias da Argentina na última sexta-feira (3/9).

Em entrevista ao Opera Mundi, Gasparini fala sobre sua hipótese sobre a morte do banqueiro, sobre a obscura venda das ações da Papel Prensa e sobre o investimento de 17 millhões de dólares que teriam sido doados a Graiver pela guerrilha dos Montoneros, um dos braços armados do peronismo.

A primeira edição do livro foi lançada em 1990, sete anos após o fim do regime militar. Foi difícil encontrar o material para fazer a pesquisa para o livro? Como foi essa busca?
Para fazer uma investigação jornalística, é necessário juntar uma série de circunstâncias e condições. Eu tinha provas materiais e documentos, que já tinha usado na minha tese de doutorado em Genebra sobre a derrota da guerrilha peronista, que deu origem ao meu livro anterior sobre este assunto, Montoneros: final de cuentas, publicado em 1988. Tive também a sorte de conseguir uma parte importante dos autos do processo contra os Graiver que já existia na Justiça civil, após o fim da ditadura militar, em 1983. Pude examinar muita informação em Genebra com Alberto Naón, alto funcionário do grupo Graiver, que morava aqui, onde eu também moro. Consegui bastante material publicado na imprensa dos Estados Unidos e tive a sorte de conhecer um piloto do mesmo tipo de avião em que David Graiver morreu. Analisei as causas do acidente, que me levaram à conclusão de que foi um atentado.

Qual é sua hipótese sobre a morte de Graiver?
O que eu investiguei e defendo no meu livro, sem que ninguém tenha desmentido, é que foi um atentado executado pela CIA. Para mim, é evidente que as políticas dos EUA e da CIA, em particular, estavam totalmente entrelaçadas com as ditaduras. O próprio Senado norte-americano já pediu desculpas por essas intervenções.

Qual era a relação entre Graiver e os Montoneros?
Meu livro explora a hipótese de um investimento de cerca de 17 milhões de dólares dos Montoneros no grupo Graiver. Tratou-se, a meu ver, de uma operação combinada entre os chefes da organização e o próprio David Graiver, operação consentida pela então mulher dele, Lidia Papaleo, e conhecida pelo irmão do banqueiro, Isidoro Graiver, como eu explico no livro.

A relação entre Graiver e os Montoneros pode ser ou é usada pela oposição ou por simpatizantes do regime militar para legitimar a venda da Papel Prensa?
Eu poderia concluir que a operação para aniquilar o grupo Graiver a cargo das forças armadas seguiu um plano de três fases sucessivas e interdependentes. A primeira foi decapitar o grupo, uma multinacional avaliada em 200 milhões de dólares com tentáculos na Argentina, na Bélgica e nos EUA, abatendo seu chefe, David Graiver, num assassinato reconhecido pelo jornal Clarín de 2 de junho de 2010.

A segunda etapa foi executada respeitando as aparências da legalidade, com a assinatura de sua viúva e sua herdeira em liberdade – ainda que, sem dúvida, sob o controle e a pressão do regime militar. A transação deveria parecer limpa, neutralizando eventuais críticas. Tinha de observar as formas de uma transação comum, responsável, para que o projeto monopolizador do "insumo vital" destinado a abastecer jornais e revistas em escala nacional, a “joia da coroa” dos Graiver, mudasse de mãos sem despertar medos nem suspeitas.

A terceira etapa foi a expropriação forçada do muito que restava para os Graiver, para quem parecia dispensável acatar as regras republicanas. Esse saque foi feito com os espoliados já na prisão. E começou um mês depois de quando estiveram presos clandestinamente, passando de imediato a serem condenados a grandes penas de prisão pela Justiça Militar.

Teriam chegado a cometer um assassinato por causa da Papel Prensa?
Essa é também parte da minha hipótese de trabalho. Graiver foi assassinado por ter recebido um investimento de 17 milhões de dólares da guerrilha peronista, dinheiro que ajudou o banqueiro a se instalar no centro mundial das finanças capitalistas em Nova York, comprando dois bancos.

Mas, após sua investigação, é possível concluir que a organização deu algum dinheiro para a empresa?
Isso é a Justiça é que deveria dizer, se avaliasse que há motivo para investigar, mas hoje não é esse o caso na Argentina. Os Montoneros entregaram para Graiver o dinheiro de dois sequestros de empresários, Juan e Jorge Born e Henrich Metz, em setembro e outubro de 1975. Seria preciso averiguar se, entre essas datas e a morte de Graiver, em agosto de 1976, o banqueiro injetou capital na Papel Prensa. Judicialmente, os processos contra os Montoneros foram extintos e nunca se soube a eventual porcentagem de dinheiro da guerrilha na empresa.

Qual foi o impacto do livro quando ele foi lançado pela primeira vez na Argentina? Foi polêmico?

O livro nunca teve muito impacto, nem em 1900, nem em sua reedição em 2007. Vamos a ver agora a terceira edição que vai sair nos próximos dias. Nunca ninguém se queixou do livro, nem houve polêmicas importantes. Agora, sim, há um certo escândalo e me atacam cotidianamente, mas estou feliz por estar na luta, de pé e pela verdade histórica.

Recentemente, em uma entrevista ao jornal Tiempo Argentino, a viúva de Graiver disse que recebeu ligações dos Montoneros. A que ligação ela estava se referindo? Era uma ameaça de morte?
Na declaração de Lidia Papaleo ao governo para ser incorporada ao dossiê apresentado pela presidente Cristina Kirchner, em 24 de agosto de 2010, não existe nenhuma alusão a suspostas ameaças que teriam sido feitas pelos Montoneros à viúva de Graiver. Na entrevista de Lidia Papaleo ao Tiempo Argentino, ela disse: “Também houve um telefonema dos Montoneros”. Estava se referindo a uma ligação que teriam feito a ela no México, pouco depois do assassinato do marido, em 7 de agosto de 1976. A ligação foi feita no dia 9 de agosto de 1976 e os Montoneros a fizeram para dar pêsames, não para ameaçá-la.

Como o senhor avalia essas medidas do governo de Cristina, que têm tido como objetivo acabar com o oligopólio da mídia na Argentina?
Eu moro desde 1980 em Genebra, na Suíça, e só fui à Argentina apenas para viajar. Parece que a nova lei de mídia pelo atual governo é saudável, antimonopólios, favorece a pluralidade e uma melhor administração e acesso da população à informação.

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