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Oriente Médio

Cessar-fogo é vitória do Hamas a curto prazo

por José Antonio Lima publicado 21/11/2012 18h30, última modificação 06/06/2015 19h24
O grupo sai da crise legitimado diplomaticamente e mais forte entre os palestinos. Isso pode ser bom a longo prazo, mas todo ceticismo é recomendável
PALESTINIAN-ISRAEL-CONFLICT-GAZA-TRUCE-EFFECT

Com a bandeira do Egito, que mediou o cessar-fogo, palestinos celebram a trégua na cidade de Gaza, nesta quarta-feira 21. Foto: Mahmud Hams / AFP

O cessar-fogo entre Israel e o Hamas, mediado pelos Estados Unidos e pelo Egito, pode se tornar, a médio prazo, uma vitória importante para o grupo palestino. Ainda não é possível dizer se a trégua iniciada às 17 horas desta quarta-feira 21 será mantida, e nem por quanto tempo, mas caso os itens previstos no documento divulgado pelo governo egípcio sejam cumpridos, o Hamas sairá desta crise menos isolado diplomaticamente e mais forte entre os palestinos, pois será capaz de dizer que rompeu o bloqueio imposto por Israel há cinco anos. A implementação do cessar-fogo, no entanto, é que vai determinar a "vitória" do Hamas.

Pelo acordo firmado, Israel deve cessar todos os ataques por terra, ar e mar contra a Faixa de Gaza, incluindo os "assassinatos cirúrgicos", como o que matou Ahmed Jabari, líder do braço militar do Hamas, na semana passada. Em troca, o Hamas precisa garantir que todos os grupos militantes da Faixa de Gaza parem os ataques na região da fronteira. Não será uma missão fácil. O Hamas e a Jihad Islâmica, segundo grupo mais importante de Gaza, devem parar automaticamente os lançamentos de foguetes, mas o Hamas precisará garantir que outras facções, ainda mais radicais, façam o mesmo. Como muitos desses grupos vinham desafiando o papel do Hamas na "resistência" a Israel (ao realizar ataques contra militares e cidades israelenses), é provável que a liderança exercida pelo grupo nos últimos dias sirva para acalmar esses setores mais radicais.

 

Caso o cessar-fogo seja mantido pelas duas partes, às 17 horas desta quinta-feira 22 devem ter início as negociações a respeito da "abertura das passagens (na fronteira), da facilitação de movimento de pessoas, transferência de mercadorias e restrição de movimento de residentes" na Faixa de Gaza.

Na prática, a implementação dessas medidas significa colocar fim ao bloqueio mantido por Israel contra a Faixa de Gaza desde 2007, quando o Hamas tomou o controle da região. Ao longo do tempo, Israel vem reduzindo as restrições do bloqueio, mas ele continua em vigor. Esse cerco é condenado internacionalmente, até mesmo por aliados de Israel, como os Estados Unidos e o Reino Unido.

Esta posição ficou clara nas palavras de Hillary Clinton, secretária de Estado dos Estados Unidos, ao anunciar o cessar-fogo. Hillary lembrou que, além de garantir a segurança da população de Israel, é preciso "melhorar as condições da população de Gaza". O ministro do Exterior do Reino Unido, William Hague, seguiu na mesma direção de Hillary. "A prioridade agora é lidar com as causas do conflito, incluindo um acesso maior ao comércio para e de Gaza, assim como de assistência humanitária, e um fim ao contrabando de armas", afirmou. A constatação desses países é simples: ao isolar a Faixa de Gaza, Israel fortaleceu o Hamas, radicalizou ainda mais a população local e piorou as condições de vida na Faixa de Gaza. Ainda que a intenção do fim do bloqueio seja enfraquecer o Hamas, o grupo radical poderá apresentar aos palestinos a liberação como uma conquista.

Este feito, se concretizado, será particularmente importante pois aumentará a legitimidade do Hamas entre os palestinos, não apenas em Gaza, mas também na Cisjordânia, controlada pelo Fatah, grupo secular opositor do Hamas. O Fatah ficou isolado durante os últimos dias e pouco participou das negociações para o cessar-fogo, perdendo espaço para o Hamas como líder da causa palestina. No fim do mês, o líder do Fatah, Mahmoud Abbas, deve apresentar na ONU um pedido de reconhecimento da Palestina como Estado não-membro, mas é grande a pressão para que ele desista.

Para celebrar a vitória, o Hamas terá um grande desafio durante a implementação do acordo. Hoje, grande parte dos armamentos do grupo palestino são oriundos do Irã e chegam por meio da Península do Sinai, uma região do Egito que faz fronteira com a Faixa de Gaza e com o sul de Israel, sobre a qual o governo egípcio tem pouquíssimo controle. O cessar-fogo exige, como contrapartida ao fim do bloqueio, que o contrabando de armamentos pela região seja combatido. Estados Unidos e Egito devem trabalhar juntos neste aspecto, mas ainda não se sabe como e se o fim do tráfico será efetivo. O Hamas pode encarar o enfraquecimento de seu arsenal como um avanço ruim, mas precisará escolher o que deseja. Israel não vai reduzir o bloqueio e manter abertas as portas do contrabando de armas.

Para o governo de Israel, apresentar a promessa de combater o tráfico de armas para Gaza como uma vitória após oito dias de conflito é uma tarefa difícil. A desconfiança a respeito do Hamas é enorme na sociedade israelense. Uma pesquisa do Canal 2 de Israel levada ao ar após o anúncio da trégua apontou que 70% da população era contra o cessar-fogo. Dois ministros de Netanyahu, Yuval Steinitz (Finanças) e Eli Yishai (Interior), eram contra o cessar-fogo, assim como líderes opositores, como Shaul Mofaz e Tzipi Livni, ambos do centrista Kadima.

Por isso, as três principais autoridades de Israel, o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, e seus ministros Ehud Barak (Defesa) e Avigdor Lieberman (Exterior), tentaram retratar a operação dos últimos dias como um sucesso militar. Em pronunciamento, eles disseram que a infraestrutura do Hamas foi destruída e trataram como triunfo a morte de Ahmed Jabari. "Sei que há cidadãos esperando uma operação militar mais intensa, mas agora a coisa certa para o Estado de Israel é aproveitar a oportunidade de um cessar-fogo duradouro", disse Netanyahu. O primeiro-ministro pode ter razão. Netanyahu fomentou o confronto com o Hamas para se aproveitar do sentimento de união da sociedade israelense tendo em vista as eleições de janeiro. Sua imagem de líder duro saiu fortalecida e, caso o cessar-fogo tenha efeito, ele fará questão de lembrar que a trégua garantiu a segurança da população do sul de Israel, alvo dos foguetes palestinos. Caso contrário, Netanyahu estará pronto para retomar a ofensiva com uma fúria ainda maior.

Todos esses ganhos de curto e médio prazo para o Hamas podem assustar quem teme o grupo. Eles não necessariamente significam uma avanço positivo para a paz entre israelenses e palestinos, mas podem ser o início de um processo de longo prazo. O Hamas está menos isolado e mais influenciado por líderes regionais moderados, como Egito e Turquia, mas continua a ser um grupo antissemita, que rejeita a existência de Israel e todos os acordos para a paz assinados até hoje. Esta postura é um entrave muito grande para a retomada do processo de paz e, caso persista, continuará a dar razão ao governo de Israel, que rejeita negociações diretas com o grupo palestino. Nos próximos dias, o Egito, com apoio dos Estados Unidos, vai intermediar o diálogo entre Israel e Hamas. Os desafios são enormes. Além de tentar moderar o Hamas, rompendo a , será preciso sustentar os esforços para a paz por um bom tempo e manter o ímpeto dos negociadores. Em tempos normais, já seria complicado. Diante do pedido de reconhecimento na ONU, das eleições em Israel, da instabilidade interna do Egito, da crise na Síria e mesmo da situação precária da economia mundial, o desafio será maior ainda. Por isso, todo o ceticismo é recomendável.