Você está aqui: Página Inicial / Internacional / Cerca de 3,7 milhões de pessoas protestam na França

Internacional

Ataques em Paris

Cerca de 3,7 milhões de pessoas protestam na França

por AFP — publicado 11/01/2015 21h00
Mais de 1 milhão foram às ruas de Paris em manifestação de repúdio aos ataques terroristas ocorridos no país nos últimos dias. Líderes de 50 países estiveram presentes
Patrick Kovarik / AFP
88aabcf8019a01b089877e5c20a0dbdf62c3d614.jpg

O presidente francês François Hollande e líderes mundiais marcham juntos durante manifestação realizada em Paris a favor da liberdade e democracia no dia 11 de janeiro de 2015

Paris (AFP) - Cerca de 3,7 milhões de pessoas em diversas cidades na França participaram neste domingo 11 das manifestações de repúdio aos ataques terroristas ocorridos no país nos últimos dias. Segundo o Ministério do Interior, essa foi a maior mobilização já registrada na história da França. Houve homenagens às vítimas dos jihadistas que mataram 17 pessoas em três dias de ataques.

A manifestação em Paris teve a participação de um milhão de pessoas, entre elas líderes de 50 países. Com expressão grave e de braços dados com o presidente francês, François Hollande, dirigentes mundiais lideraram a marcha, iniciada na Praça da República, pouco antes das 15h30 locais (12h30 de Brasília).

Entre eles, estavam o premiê israelense, Benjamin Netanyahu; o presidente palestino, Mahmud Abbas; a chanceler alemã, Angela Merkel; os reis da Jordânia, Abdullah e Rania; o premiê britânico; David Cameron; e o colega espanhol, Mariano Rajoy.

Foi sentida a ausência do ministro marroquino das Relações Exteriores, Salaheddine Mezouar, que enviou suas condolências à França, mas não compareceu à marcha "em razão da presença de charges blasfematórias" do profeta no evento, segundo comunicado oficial divulgado pela embaixada marroquina.

Os Estados Unidos foram representados pela nova embaixadora americana em Paris, Jane Hartley. O procurador-geral dos EUA, Eric Holder, que viajou a Paris para participar de uma reunião internacional contra o terrorismo, não compareceu à manifestação - confirmou a embaixada.

O secretário de Estado americano, John Kerry expressou solidariedade à França em mensagem enviada da Índia, afirmando que "nenhum ato terrorista deterá o avanço da liberdade".

Ao longo da passeata, alguns dirigentes saudaram os moradores de imóveis próximos e foram aplaudidos pela multidão. Meia hora depois do início da marcha, líderes mundiais e personalidades políticas francesas fizeram um minuto de silêncio em homenagem aos 17 mortos.

Logo depois, os dirigentes começaram a se retirar, enquanto o presidente francês permaneceu no local, entre os manifestantes, saudou e abraçou familiares das vítimas dos terroristas.

"Paris é, hoje, a capital do mundo. Todo o país se erguerá com o melhor que tem", declarou Hollande pouco antes da marcha, falando a seu gabinete.

"Essa manifestação deve demonstrar o poderio e a dignidade do povo francês, que vai gritar seu amor pela liberdade e a tolerância", completou.

Em paralelo, dez mil pessoas se concentraram na pequena cidade francesa de Dammartin-en-Goele, onde os irmãos Said e Chérif Kouachi, autores do ataque contra o Charlie Hebdo, morreram em um confronto com as forças de segurança.

Em Paris, a praça da República, imensa esplanada com capacidade para abrigar milhares de pessoas, já estava lotada horas antes do início da marcha deste domingo, constatou a AFP. Os manifestantes exibiam cartazes com palavras de ordem de resistência, como "Empunhem suas canetas", "Liberdade, igualdade, desenhem e escrevam!" e a já célebre "Eu sou Charlie".

A multidão também tomou ruas vizinhas e a praça da Bastilha.

A "marcha republicana" em Paris começou a se dispersar pouco depois das 21h locais (18h de Brasília), e "nenhum incidente" havia sido registrado até esse momento, informou a polícia à AFP.

Na capital, havia entre 1,2 milhão e 1,6 milhão de pessoas, afirmou o Ministério francês, acrescentando que a multitudinária presença tornou impossível uma contagem precisa. Nas cidades fora de Paris, teria havido mais de 2,5 milhões de manifestantes.

Mais cedo, o ministro francês do Interior, Bernard Cazeneuve, já havia dito que o evento teve uma "amplitude sem precedentes".

Sob um radiante sol de inverno, os manifestantes cantaram "A Marselhesa", o hino nacional francês, e gritaram "Charlie, liberdade!" e "Viva a França!".

Medidas antiterroristas

Cameron, Merkel e Netanyahu, entre outros dirigentes, reuniram-se com Hollande no palácio presidencial do Eliseu, antes de participar da manifestação, e discutiram rapidamente a crise na Ucrânia.

Pessoas se reúnem na Place de la Republique, em Paris, antes da manifestação pela liberdade e democracia no dia 11 de janeiro de 2015

Também antes da grande passeata, os ministros do Interior de 12 países europeus e o secretário americano da Justiça, Eric Holder, acertaram reforçar a luta contra o terrorismo e marcaram uma reunião com este objetivo para 18 de fevereiro, nos Estados Unidos.

Um rigoroso dispositivo de segurança foi mobilizado, com 5,5 mil policiais e militares instalados na capital e arredores.

Os irmãos Said e Cherif Kouachi - autores do massacre de quarta-feira no jornal satírico Charlie Hebdo, que deixou 12 mortos - morreram na sexta-feira em uma ação das forças de segurança na localidade de Dammartin-en-Goele, a nordeste de Paris.

Quase ao mesmo tempo, Amedy Coulibaly - responsável pelo assassinato de uma policial (guarda) municipal, na última quinta, em Paris - morreu em outra invasão das forças de ordem, na capital, a um mercado de produtos kasher. Nesse estabelecimento, Coulibaly chegou a fazer vários reféns e matou quatro judeus.

Em um vídeo exibido neste domingo, um homem que se parece com Coulibaly reivindicou o ataque de quinta-feira e disse pertencer à organização extremista Estado Islâmico (EI).

Na Alemanha, dois homens lançaram neste domingo um artefato incendiário contra o jornal de Hamburgo "Hamburger Morgenpost", que tinha publicado vinhetas do Charlie Hebdo. Não houve vítimas, e o incêndio foi controlado rapidamente.

Na Bélgica, a redação do jornal "Le Soir", no centro de Bruxelas, foi evacuada este domingo, após um "telefonema anônimo" com uma ameaça de ataque a bomba, anunciou a redação. Toda a rua Royale, onde fica o jornal, foi isolada pelas forças de ordem, acrescentou a agência de notícias Belga.

De acordo com a Procuradoria de Bruxelas, tratou-se de um alarme falso. A revista policial no imóvel não descobriu nada suspeito, confirmou o Ministério Público da capital belga, acrescentando que um indivíduo foi detido, sem dar mais informações.

Em um tuíte, a editorialista Béatrice Delvaux disse que a redação voltou a funcionar à tarde, após a suspensão do alerta e da mudança da equipe para um hotel vizinho.

O autor do telefonema foi identificado como Thierry Caren, ex-gráfico de 53 anos, detido em 1999 por um ataque com bomba, que não causou vítimas, contra o partido separatista flamenco Vlaams Belang.

Hollande na Sinagoga de Paris

Após a manifestação, Hollande e o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, foram ovacionados ao entrarem na Grande Sinagoga de Paris.

Os dois líderes participaram de uma cerimônia em homenagem a "todas as vítimas" dos atentados de Paris, entre elas quatro judeus mortos na sexta-feira, 9 de janeiro, por Amedy Coulibaly, durante a tomada de reféns no um supermercado kasher.

Na sinagoga, alguns dos presentes entoaram "Bibi" - o apelido de Netanyahu - e "Israel viverá, Israel vencerá", agitando a bandeira do Estado hebreu. A cerimônia começou pouco antes das 19h30 locais (16h30, horário de Brasília).

Hollande e Netanyahu se sentaram lado a lado, cercados do primeiro-ministro francês, Manuel Valls, e do presidente do Consistório Israelita Central da França, Joël Mergui.

Em seu discurso, Netanyahu disse apreciar a "posição muito firme" da França e a "determinação" de Hollande contra o "novo antissemitismo" e o "terrorismo". O premiê ressaltou ainda que "nosso inimigo comum é o Islã radical", e "não o Islã normal”.

O primeiro-ministro pronunciou essas palavras após manifestar seu "agradecimento" a Lassana Bathily, um funcionário muçulmano do mercado kasher, onde aconteceu a tomada de reféns. De origem malinesa, o jovem salvou vários clientes desse estabelecimento do leste de Paris.

Dirigindo-se aos judeus, Netanyahu declarou que "têm o direito de viver em segurança, onde escolherem, em particular na França”.

Antes da visita à sinagoga, Hollande visitou a família de Ahmed Merabet, policial francês de origem argelina abatido a sangue-frio pelos irmãos Chérif e Saïd Kouachi.

Os ataques de Paris causaram comoção na França e no mundo e rapidamente a frase "Eu sou Charlie" invadiu o planeta por meio de redes sociais.

As investigações seguem o rastro da companheira de Coulibaly, Hayat Boumeddiene, que saiu da França no começo de janeiro antes dos ataques e, atualmente, estaria na Síria.

Coulibaly, cujos pais eram de origem malinesa, justificou a tomada de reféns pela intervenção militar francesa no Mali e os bombardeios ocidentais na Síria.

A mãe e as irmãs de Coulibaly condenaram os ataques e apresentaram "seus mais profundos pêsames" às famílias das vítimas.

A viúva de Chérif Kouachi, um dos irmãos jihadistas, "condenou os atos de seu marido", segundo seu advogado.