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Terror

Canadá refuta imagem de celeiro de terroristas

por Gabriel Bonis publicado 23/04/2013 15h14, última modificação 25/04/2013 17h12
Meses antes do atentado em Boston, país já discutia polêmica proposta de cassar cidadania de estrangeiros ligados a atos de terrorismo
Skyline de Toronto

Somente em Toronto, metade dos 2,8 milhões de habitantes é estrangeira. Foto: elPadawan’s/Flickr

A repercussão sobre a origem dos suspeitos do atentado que matou três pessoas e feriu mais de 170 na Maratona de Boston, na última semana, deixou parte dos imigrantes nos Estados Unidos temerosos. A susposta ação de Dzhokhar Tsarnaev, de 19 anos, e Tamerlan Tsarnaev, de 26 anos, irmãos de origem chechena que viviam no país legalmente, gerou medo de retrocessos na proposta da reforma imigratória discutida no Congresso.

Meses antes do atentado, o Canadá iniciou uma discussão acalorada que engloba o perfil dos suspeitos do incidente em Boston: estrangeiros com nacionalidade canadense ligados a atos de terrorismo. Famoso pelo multiculturalismo – somente em Toronto metade da população é estrangeira -, o país teme que sua política imigratória esteja sendo usada para abrigar terroristas.

O governo considera desde fevereiro cassar a cidadania canadense de estrangeiros com ligação a atos de terror. Atualmente, isso só é possível se for provado que o documento foi obtido de forma fraudulenta. O caminho legal para que isso ocorra nos EUA também é quase impossível. “A cidadania canadense é baseada na lealdade a esse país, e não posso pensar em um ato mais óbvio de renúncia ao senso de lealdade que cometer atos de terror”, disse Jason Kenney, ministro canadense da Imigração, em fevereiro.

O ministro propôs uma mudança na lei para viabilizar a ideia, mas as reações sobre a proposta dos conservadores, que dominam o Congresso, são divididas. “Se decidirem seguir em frente com o projeto, há pouco a se fazer. O discurso do ministro indica uma clara intenção de mudar a lei”, diz René Provost, especialista em terrorismo da Universidade McGill, a CartaCapital.

Apesar de atrativos para quem defende o afastamento de terroristas do país, os mecanismos para retirar a cidadania são complexos e poderiam inviabilizar a medida, acredita Arne Kislenko, especialista em terrorismo da Universidade de Toronto. “O governo sugeriu a ideia apenas para conseguir apoio da opinião pública.”

O movimento dos conservadores surge em um momento em que ganham destaque casos de estrangeiros com cidadania canadense ligados a ações terroristas no exterior. Em fevereiro, um canadense-libanês foi ligado à explosão de um ônibus em 2012 na Bulgária, que matou cinco turistas israelenses. O governo local culpou o Hezbollah pelo ataque.

O suspeito imigrou para o Canadá com a família aos oito anos. Conseguiu a cidadania e retornou ao Líbano aos 12 anos, onde passou a residir oficialmente.

Também em fevereiro, o primeiro-ministro da Argélia, Abdelmalek Sellal, afirmou que os ataques a um campo de gás em In Amenas, no qual um grupo de terroristas fez centenas de reféns, foram coordenados por um canadense. O exército do país abriu fogo contra os sequestradores, matando ao menos 38 reféns e dezenas de terroristas. “O Canadá é um país feito de imigrantes e continua a receber muitos deles todos os anos. Seria surpreendente se dentro desta população não houvesse nenhum indivíduo simpático ao terrorismo”, acredita Provost.

A proposta, no entanto, tem forte potencial de encontrar a resistência dos dois maiores partidos oposicionistas ao governo, além de enfrentar o dilema de definir exatamente quem é um terrorista. E o Canadá tem no exemplo de Maher Arar a prova de como uma interpretação equivocada deste conceito pode destruir vidas.

Quando voltava de uma visita à família de sua esposa na Tunísia em 2001, o engenheiro sírio-canadense foi detido no aeroporto JFK em Nova York. Ficou preso por 12 dias pelas autoridades dos EUA até ser transferido secretamente à Síria, onde foi torturado por um ano.

Com a pressão de movimentos pelos direitos humanos, Arar foi libertado e pôde voltar ao Canadá. Os EUA haviam confiado em informações infundadas do governo canadense sobre suas “atividades terroristas” nunca encontradas.

Outro empecilho para a aprovação da proposta é o entendimento de que o terrorismo é um crime previsto no código penal canadense, incluindo atos realizados no exterior. “Para os que entendem a lei com esse viés, punir o terrorismo de forma diferente é um movimento puramente político”, afirma Provost.

O Canadá sofre constantes pressões dos EUA para endurecer o combate ao terrorismo. Em 2006, Washington chegou a dizer que o país era um “paraíso” para terroristas devido a leis de imigração falhas. Elas permitiriam que imigrantes planejassem do Canadá atos de terror no exterior e arrecadassem fundos sem serem incomodados.

A fronteira de 6,5 mil quilômetros com os EUA desperta preocupação em Washington. A área tem se tornado mais vigiada com patrulhas de drones, viaturas e postos de checagem, mas um estudo do governo norte-americano divulgado em 2011 indicou que a região é mal monitorada. Seria um acesso fácil para terroristas. “Nossas leis de imigração são frouxas. Definitivamente há organizações terroristas atuando no país pelo potencial de arrecadar recursos, recrutar e ter acesso aos EUA”, acredita Kislenko. “Mas não é um resort terrorista como alegam alguns observadores, particularmente americanos.”

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