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Cai ou não cai?

por Eduarda Freitas — publicado 23/03/2011 23h16, última modificação 24/03/2011 11h24
Portugal vive dias de indecisão. O governo socialista acaba de cair. Mais uma crônica de Eduarda Freitas em suas "Cartas de Portugal", escrita há alguns dias, antes da renúncia do premiê José Sócrates, definida na noite desta quarta-feira 23.

As quedas em miúda eram motivo de orgulho. Lembro-me que sonhava em cair e partir qualquer coisa que me permitisse andar com a ajuda de canadianas. Se possível, ter uma perna com gesso, espaço perfeito para colegas e melhores amigas deixarem mensagens escritas, como um “adoro-te” ou coisa assim. E talvez na perna dorida se desvendasse um amor de bochechas coradas. Essas quedas, as quedas a sério, seriam consequência de uma revelia, uma aventura que só ficaria bem em qualquer curriculum de criança.
Contra a vontade, nunca fui muito de quedas, dessas grandes. Era tão calma, que ficava onde me deixassem, sem protestar. E nem era preciso que me dissessem para não subir às árvores, porque eu jamais o faria. Encostar a cabeça à sombra do tronco, era o suficiente para voar muito para além dos mais altos ramos.
As minhas quedas resumiam-se a uma ou duas escadas mal contadas, umas meias rotas e um bocadinho de mercúrio, vá lá, a pintar-me as palmas das mãos.
Em jovem quase adulta, atirei os joelhos contra uma rocha enquanto fazia escalada – obrigada por um professor de educação física – e quase conseguia concretizar o meu sonho de menina. Mas nessa altura, já não tinha tranças no cabelo. E os joelhos esfolados foram criteriosamente escondidos em calças de ganga. Essa quase queda presa por um fio – uma corda – encaixava-se na versão “falta de jeito”, que se apodera de nós quando chegamos aos 20 anos, mais coisa ou menos coisa.
Quanto passamos os 30, cair é um desastre.
É uma verdadeira falta de arte. Andar com uma perna engessada, perde a piada de uma folha em branco a pronta a declarações. Dizem.
Nestes dias que correm, com os trinta em passo largo, só ouço falar de quedas: queda do governo porque sim, queda do governo porque mais que sim, porque talvez não seja possível não cair. Porque, porque…
Vai o governo socialista cair? Se este novo PEC – Plano de Estabilidade e Crescimento – não for aprovado, vai Portugal ficar à mercê de eleições antecipadas? Dizem os comentadores que comentam tudo, que sim. Diz o primeiro-ministro que quase sim. Vão acenando os ministros e a oposição, que sim, que sim, que sim. Que assim não há possibilidades de governação.
Nos meus sonhos de menina, cair era ir aos pardais e chegar a casa com as meias rotas e um sorriso nos lábios. Porque as lágrimas tinham sabor a aventura. Porque cair era sinal de querer chegar mais longe. Era o voo de braços abertos para o futuro que ficava tantas vezes no topo de uma árvore ou numa bola presa num telhado cor-de-laranja. Cair era levantar.
Mas os políticos que discutem quedas no meu país, talvez nunca tenham ido aos pardais.

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