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Eleições na Itália

Bufões ameaçam o futuro da União Europeia

por Gianni Carta publicado 26/02/2013 14h25, última modificação 26/02/2013 14h25
Os populistas Grillo e Berlusconi são os vencedores das legislativas que mergulharam o país na instabilidade

 

Nas legislativas no domingo e segunda-feira venceu o populismo encarnado pelos bufões Beppe Grillo, um ex-comediante transformado em guru digital e líder do Movimento Cinco Estrelas (M5S), e Silvio Berlusconi, chefe da coalizão direitista Povo da Liberdade (PdL), e ex-primeiro-ministro italiano mais longevo do pós-Segunda Guerra Mundial.

Embora Pier Luigi Bersani, secretário-geral do esquerdista Partido Democrata (PD), tenha vencido na Câmara dos Deputados, Berlusconi obteve a maioria no Senado. Por sua vez, a agremiação de Grillo, que propõe um referendo contra o euro, foi a mais votada península afora.

Devido a um sistema político complexo no qual o premier deve obter a maioria na Câmara e no Senado, a formação de um novo governo será no mínimo difícil.

Mario Monti, o atual premier de um governo técnico instalado no final de 2011, continuará no cargo por um período que poderá durar seis meses, quando, caso o atual impasse não seja resolvido, seriam convocadas novas legislativas.

Esses seis meses seriam no mínimo instáveis.

Mais: poderiam postergar as reformas econômicas que deveriam colocar em ordem as finanças na Bota. Por tabela, o ceticismo em relação ao euro ganharia força.

O quadro na terceira economia da Europa, é claro, não seria nada favorável para a reeleição para um terceiro mandato do mais poderoso líder europeu, Angela Merkel, a chanceler alemã. E colocaria em xeque o futuro do euro.

Mario Monti, o tecnocrata e aliado de Pier Luigi Bersani

Mario Monti, prestigiado professor de economia da Universidade Bocconi, em Milão, ex-comissário da União Europeia (UE), tinha as credenciais para implementar (ou seria seguir) um programa de ortodoxia fiscal favorecido por Merkel – e pelos mercados.

Monti deu credibilidade à Itália. No entanto, o aumento de receitas fiscais em 100 bilhões de euros teve como efeito colateral uma recessão. Em 2012, o Produto Interno Bruto (PIB) teve uma contração de 2,4%. Um em cada três jovens adultos, ou 37% da população, está desempregado.

A dívida pública da terceira economia da UE – de 123.5% do PIB –, a maior em valor absoluto do bloco econômico, poderia ter desastrosos efeitos para toda a Zona do Euro. A crise da dívida não poderia ser considerada obra somente de Monti, é claro, mas o programa de austeridade por ele implementado lhe custou caro nas urnas.  

É compreensível que apenas 10% dos italianos tenha votado no atual premier. O “Professore” tentou, é verdade, ser menos professoral. Saboreou, por exemplo, uma cerveja diante das câmeras.

Aceitou uma aliança com Bersani, um ex-comunista comparável ao presidente socialista francês François Hollande.

De fato, Monti flertou com o programa de Hollande, favorável ao crescimento para a criação de mais empregos – e menos austeridade. Assim como Hollande, Bersani, ex-ministro da economia de Romano Prodi, propõe um programa social-democrata rigoroso em termos de contas públicas, mas sempre atento ao impacto da austeridade na população.

Como previu um aliado de Monti: “O pior está por vir”.

Por pior leia mais populismo.

Com sua vasta cabeleira branca, Grillo, um sinistro senhor de 64 anos cuja promessa de um referendo contra o euro parece atrair as multidões, disse alto e claro: “Não farei alianças com outro partido, seja ele de esquerda ou de direita”. Segundo Grillo, o partido político como o conhecíamos morreu.

O guru digital Beppe Grillo

Com mais de uma centena de cadeiras, a internet e milhões nas ruas, diz o ex-comediante, o M5S fará um enorme estrago. Resta saber como, já que se ele não formar alianças com os dois outros blocos ficará marginalizado no tablado político.

Ademais, alguns “grillini” eleitos já se mostraram interessados em pular a cerca para o PD, visto que a vasta maioria dos simpatizantes do M5S têm inclinações esquerdistas. Se esse cenário se concretizar, Bersani poderia, com o apoio também de centristas de Monti, formar um governo.

Grillo atrai a esquerda porque é contra o neoliberalismo, aos programas de austeridade impostos pela UE, que dominaria a Itália, como, aliás, o fariam também os Estados Unidos. Ele chama Israel de uma “ditadura militar que prepara a Terceira Guerra Mundial”. Formado em Ciências Contáveis, Grillo detecta vários casos de corrupção antes de jornalistas.

No início dos anos 1990 o ainda comediante foi marginalizado pela televisão, onde dava o ar da graça com frequência e tinha um programa. Trocou a tevê pela internet, onde criou um dos blogs mais lidos do mundo.

Grillo não participa de debates televisivos, algo que alguns de seus partidários desaprovam. Mas ele rebate: a internet é o melhor meio de comunicação.

E, como nos velhos tempos, ele continua a organizar comícios. Neles se refere a Berlusconi como “anão”, e a Monti como “vampiro”.

A UE é o monstro que provocou os males da Itália. E falta “coragem” (não é bem a palavra usada por ele) aos governantes para lidar com os atuais problemas. Seu discurso, como dizem os acadêmicos Elizabetta Gualmini e Piergiorgio Corbetta, remete aos movimentos de extrema-direita, hoje repletos de ex-esquerdistas.

Berlusconi e Grillo: almas gêmeas

Na verdade, Beppe Grillo e Berlusconi têm muito em comum. Ambos são carismáticos, demagogos e anti-establishment. Se Berlusconi usou a tevê para se eleger, Grillo usou a internet.

Nenhum dos dois jamais teve um verdadeiro programa para governar, mas oferecem uma série de promessas impossíveis de serem cumpridas e uma batelada de frases feitas.

Ambos se dizem diferentes dos políticos corruptos.

Quando Berlusconi chegou pela primeira vez ao poder, em 1994, ele era um empresário sorridente, não um político sisudo. Não falava “politichese” (a língua dos políticos). E fazia piadas, tidas como gafes por alguns e como, bem, piadas, pela vasta maioria.

O que ele propunha para os italianos?

Uma vida divertida como eram seus programas nas suas tevês, a monopolizar, juntamente com a imprensa e editoras de livros, a mídia. E dinheiro, visto que ele era a favor do mercado livre e numerosos italianos poderiam ter a mesma ascensão social e econômica do premier.

Detalhe: Berlusconi é a pessoa mais rica da Itália.

Nesta sua sexta campanha, ele voltou a surpreender. Como? De saída, usou, como sempre, a mídia. Importante era aparecer na tevê e na primeira página dos jornais. Gafes, como sempre, funcionaram. Quando veio à tona mais uma versão da história de que ele saia com menores de idade, ele rebateu: “Pelo menos ninguém poderá me acusar de ser gay”.

Em 27 de janeiro, durante uma cerimônia sobre o Holocausto, Berlusconi julgou apropriado dizer que Benito Mussolini fez muitas coisas boas e não foi um líder tão ruim. Numerosos italianos, para variar, o apoiaram.

Berlusconi fez mais: em meados de janeiro prometeu restituir o IMU (ou 8 bilhões de euros em dois anos), um imposto sobre a residência principal introduzido por Monti para lidar com as finanças públicas.

Felizmente, desta feita há facções a disputar a liderança do PdL. E a aliança do PdL com a Liga Norte, o movimento separatista, não é sólida como em outros tempos. Por sua vez, Grillo, como dito acima, poderia perder vários “grillini” para o Partido Democrata de Bersani.

 

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