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Bergoglio e o testamento de Martini

por Wálter Maierovitch publicado 01/04/2013 12h03, última modificação 06/06/2015 18h56
O “mendigo purpurado”, como era conhecido o cardeal Martini, tem muito a ensinar ao papa
papa

Bergoglio seria capaz Foto: ©afp.com / Andreas Solaro

O saudoso jesuíta Carlo Maria Martini, cardeal emérito de Milão, era conhecido como il mendicante con la porpora (o mendigo com veste púrpura de cardeal). Já em estado terminal, ele concedeu uma longa entrevista, considerada o seu “testamento espiritual”, à jornalista Federica Radice, do jornal Corriere della Sera. Na sua visão, “a Igreja está atrasada dois séculos”. E acrescentou: “A Igreja está cansada, a nossa cultura envelheceu, as nossas igrejas são grandes, as nossas casas religiosas estão vazias, o aparato burocrático cresce e os nossos ritos e os nossos hábitos são pomposos”. Em 2005, o progressista Martini, já com as mãos trêmulas pelo Parkinson, retirou a candidatura papal depois do primeiro escrutínio do conclave que elegeu, na quarta votação, o conservador Ratzinger, considerado o delfim de Wojtyla.

Sempre em dissenso com Bento XVI, o cardeal Martini sugeria uma nova Igreja, que deveria reconhecer os próprios erros e percorrer um caminho de radical mudança, “começando pelo papa e depois pelos cardeais e bispos”. Ele atacou o governo da Igreja, ressaltou o “subdesenvolvimento cultural que a alimenta” e enumerou, por ter imperado o silêncio, as consequências, a longo prazo, dos escândalos de clérigos pedófilos.

O “mendigo purpurado” contou ter preferido Jerusalém a Roma. Trocou o prestígio pelos estudos e pela atividade pastoral, que o colocava junto aos necessitados. Por evidente, levou para a sepultura o injusto carimbo de catto-comunista (católico comunista), em vez de iluminado progressista independente.

No pré-conclave e já com Ratzinger a desfrutar das instalações papais do majestoso Castel Gandolfo, fez-se sentir o “testamento espiritual de Martini”. Não demorou para os cardeais-, votantes e não votantes pela barreira dos 80 anos de idade,  perceberem o exaurimento da obscurantista teologia do pontificado de Ratzinger. Fora o contragosto de Ratzinger haver jogado com o fato consumado. Por exemplo, ele adotou a sabedoria popular lusitana de não dever se passar de cavalo a burro. Assim, ajeitou, via entendimento do Conselho para Textos Legislativos da Santa Sé, sob a presidência do arcebispo Francesco Coccopalmério, o inusitado título de “papa emérito”. Mais ainda, garantiu o tratamento de “Santidade”, sem nada dizer sobre a infalibilidade em questões de fé, conforme admitido pelo Concílio Vaticano I, de 1868.

Também garantiu um “puxadinho” de luxo (convento em fase de reforma) para morar, sem dar bola ao constrangimento da situação de vizinho do Palácio Apostólico, onde ficam os aposentos reservados ao papa titular do trono petrino.

Embora a questão principal do conclave tivesse sido a reforma e a limpeza de uma Cúria protagonista de escândalos, traçou-se, no pré-conclave, um perfil, à Martini, para o novo papa. Ele deveria abandonar o fausto, ser humilde, caridoso e estar próximo às pessoas. Sem um papa com esse perfil, e era voz corrente, a Igreja jamais conseguiria virar recentes e inglórias páginas e, para repetir o historiador e jornalista Corrado Augias, “manter unida a sua missão espiritual e a natureza política de Estado”.

       

Com efeito, escolheu-se o jesuíta Bergoglio. De pronto, ele abdicou do fausto e caiu no gosto de fiéis pela simplicidade e humildade. Ao deixar em segundo plano o título de papa e preferir o de bispo de Roma, conseguiu a inédita e imediata aproximação dos ortodoxos e dos anglicanos. Como se sabe, o bispo de Roma é apenas o da primeira Igreja, ao passo que o papa é o vigário de Cristo na terra, algo que lhe fixa um primado que causa afastamentos e desconfianças.

O nome Francisco, a fazer lembrar o de Assis, não cai bem em um jesuíta. Os jesuítas são os intelectuais da Igreja e Francisco de Assis achava que o conhecimento deveria ser desprezado, pois era manipulado e empregado como forma de dominação pelas elites ditas cultas.

Não se sabe ainda se o papa Francisco romperá o namoro que Ratzinger manteve com os lefebvrianos, apesar da excomunhão de Marcel Lefebvre em 1988 e da exclusão da Fraternidade Santo Pio X. O sucessor do falecido Lefebvre, fundador da fraternidade que conta com 500 sacerdotes, continua a não aceitar as regras do Vaticano II. Para Bernard Fellay, bispo-chefe da fraternidade, os inimigos da Igreja são “os judeus, os maçons e os modernistas”. No encontro de Castel Gandolfo, o emérito Ratzinger entregou ao titular Bergoglio um dossiê de 300 páginas sobre a aproximação com os lefebvrianos.

Enquanto isso, e a cumprir o compromisso com os eleitores, o papa Francisco vai designar, depois da Páscoa, um triunvirato de cardeais para dirigir e limpar a Cúria e o anexo Banco do Vaticano. Outra questão, por pressão dos cardeais alemães, será a reabertura da proposta, indeferida por Ratzinger, do recebimento de comunhão pelos separados e divorciados.  Por enquanto, o papa Bergoglio vem sendo definido pelos italianos como “conservador popular” e “matou” Ratzinger logo que entrou em campo como o novo dono da bola.

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