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Bento 16, entre a tradição e a modernidade

por Deutsche Welle publicado 01/03/2013 12h48, última modificação 06/06/2015 18h23
Papado de Joseph Ratzinger foi marcado por escândalos e crises dentro da cúpula do Vaticano, mas também por uma relação tensa com outras religiões e de diálogo com o moderno

 

"Os senhores cardeais me escolheram. Um simples e humilde trabalhador das vinhas do Senhor." Com essas palavras, ditas em 19 de abril de 2005, dia em que apareceu na sacada da Basílica de São Pedro em Roma, o cardeal Joseph Ratzinger ganhou a simpatia dos fiéis. Depois de um conclave que durou apenas dois dias, a fumaça branca anunciou que os cardeais haviam escolhido o alemão de 78 anos para liderar a Igreja Católica.

Bento 16 foi o primeiro papa alemão em quase 500 anos. Um papa vindo da Alemanha – 60 anos depois do assassinato dos judeus pelos nazistas. Um papa também da terra da Reforma Protestante. A renúncia, anunciada no dia 11 de fevereiro de 2013 e oficializada nesta quinta-feira (28/02), não é menos excepcional: é a primeira de um pontífice em cerca de 700 anos e apenas a segunda na História.

Conservador e presente

Com Bento 16, o mundo conheceu um papa conservador e atuante, que ocasionalmente surpreendeu a todos. Ele foi capaz de combinar a profunda devoção a suas origens com a ternura de um professor, em vez de apenas seguir as posições rigorosas do cardeal Joseph Ratzinger.

Com raízes profundas no tradicionalismo, Bento 16 procurou o diálogo com a modernidade. Seu pontificado foi marcado por escândalos e por um clima geral de crise na Igreja Católica – uma situação que lhe deve ter afetado pessoalmente.

A eleição para o papado foi o ápice de uma vida que começou em 16 de abril de 1927 na pequena Marktl am Inn, vilarejo no interior do conservador e católico estado alemão da Baviera. Seu pai era policial, e a família, extremamente devota. Aos 17 anos, no final de 1944, foi convocado para a Wehrmacht, as Forças Armadas da Alemanha nazista. Logo após a Segunda Guerra, ele e seu irmão estudaram teologia. Ambos se tornaram padres. A única irmã permaneceu solteira.

"Nós somos papa"

No fim dos anos 50, Ratzinger era professor de teologia, ganhando rapidamente prestígio. Em 1963, assistiu o cardeal de Colônia Joseph Frings no Segundo Concílio do Vaticano (1962-1965). Em 1977, já era bispo, logo depois arcebispo de Munique e Freising e cardeal. Quatro anos depois, foi levado a Roma por João Paulo 2ª e apontado como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Em questões doutrinárias ou relacionadas a reformas em temas como o papel da mulher ou ecumenismo, Ratzinger sempre teve uma postura estritamente conservadora.

A eleição de Bento 16 como papa foi recebida com alegria e orgulho na Alemanha. "Nós somos Papa", dizia o jornal Bild, em manchete que ficou famosa no país. Mas também houve críticas. O 256º Papa era, aos 78 anos, muito velho e seria assim apenas um pontífice de transição, incapaz de fazer qualquer reforma.

Fé e razão

Do ponto de vista político, os oito anos de pontificado de Bento 16 foram de fato um período de transição. Mas o Papa logo abandonou esse papel. Ele deixou sua marca, nomeando mais da metade dos cardeais, que agora, vão escolher seu sucessor.

Bento 16 defendeu um constante diálogo entre a razão e a fé, entre a religião e a modernidade. Ele fez isso concedendo a primeira entrevista na História de um papa para a televisão, divulgando mensagens no Twitter, publicando livros e principalmente em seus discursos. Uma concepção positivista da razão e do direito, disse, não basta: "Deus não é algo absurdo, que seria o contrário da razão".

Bento 16 usou as duas dezenas de viagens ao exterior para falar. Mas não apenas fora do Vaticano: um de seus discursos mais importantes aconteceu no Parlamento alemão, em 2011, onde ele se posicionou sobre a política europeia.

"Onde Deus está, também está o futuro"

O Papa também surpreendeu como pastor, como no Dia Mundial da Juventude. Pregando, em seus discursos semanais no Vaticano, ele se concentrou na interpretação das escrituras: "Quem crê, nunca está sozinho – nem na vida nem na morte", disse então.

Em sua última visita à Alemanha, em 2011, afirmou: "Onde Deus está, também está o futuro – onde deixamos o amor de Deus agir em nossas vidas, há uma abertura para o céu". Seu engajamento como escritor, e como papa, ficou evidente nessas declarações. O Pontífice enfatizou o papel da igreja e clamou sua unicidade, o que enfureceu os protestantes.

Seu apoio aos tradicionalistas da Fraternidade São Pio 10 e a paciência com rixas nos círculos eclesiásticos foram extremamente criticados. Mas, por medo de uma divisão permanente, Ratzinger tentou integrar os tradicionalistas. Ele criticou os anglicanos, dizendo que reformas como a ordenação de mulheres haviam ido longe demais, e cultivou contato com os ortodoxos.

A relação do Papa com outras religiões foi tensa. Em 2006, em discurso em Rogensburg, causou revolta no mundo árabe com uma citação mal interpretada sobre o profeta Maomé. No entanto, apesar das polêmicas, o diálogo teológico entre cristãos e muçulmanos ganhou uma dimensão sem precedentes em seu papado.

Ofuscado por escândalos

Os escândalos envolvendo décadas de abusos sexuais velados contra crianças por padres católicos ofuscaram o mandato do Papa – em Irlanda, Estados Unidos, Austrália, Bélgica e Alemanha. Críticos se queixaram por a Igreja, segundo eles, não estar agindo de forma suficientemente decisiva, simplesmente transferindo os acusados e mantendo o assunto em segredo ao invés de prosseguir com processos civis.

No entanto, o Papa se esforçou para lidar com os abusos amparando as vítimas. Ele encontrou com as vitimas em diversas de suas viagens, mas sempre a portas fechadas. Declarou estar abalado com os abusos, referindo-se a eles como "flagelos" que causaram "grande sofrimento". E tornou mais rígidos os requisitos para a formação de jovens sacerdotes.

O escândalo conhecido como Vatileaks foi o último grande desafio de seu papado. Documentos confidenciais foram roubados do Papa e divulgados – e o responsável foi seu mordomo, Paolo Gabriele. Depois de uma curta pena de prisão, ele foi perdoado por Bento 16.

Analistas dizem que o Vaticano está desmoralizado por brigas e intrigas. Mas a reforma da Cúria Romana agora é trabalho do sucessor de Bento 16.

Autor: Christoph Strack (mas)
Revisão: Rafael Plaisant Roldão
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