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Internacional

Edição 630

Battisti e os outros, terroristas

por Paolo Manzo — publicado 26/01/2011 07h26, última modificação 26/01/2011 11h26
Nando Dalla Chiesa, o filho de quem venceu a eversão sem o apoio de leis especiais, uma das maiores autoridades italianas no assunto máfias, concede entrevista à CartaCapital. A Paolo Manzo

Nando dalla Chiesa, o filho de quem venceu a eversão sem o apoio de leis especiais

Nando dalla Chiesa, 61 anos, é sociólogo, professor na Faculdade de Ciências Políticas de Milão e uma das maiores autoridades italianas no assunto máfias. Foi deputado duas vezes e senador uma. É filho de Carlo Alberto Dalla Chiesa, o general dos carabinieri, espécie de força pública de honrosas e antigas tradições, que comandou a longa luta contra o terrorismo nos anos 70 sem o apoio de qualquer lei de exceção, no constante respeito da Constituição. Depois do êxito contra a eversão de extrema-direita e de extrema-esquerda, foi chamado a assumir a chefia das operações antimáfia na Sicília. Na noite de 4 de setembro de 1982, quando se dirigia de carro para casa juntamente com a mulher, foi atacado por um bando mafioso armado de Kalashnikov e o casal foi assassinado com 50 tiros. Nos anos de chumbo, Nando era um jovem rebelde, filiado ao Partido Comunista e militante de organizações populares que se manifestavam em praça pública a favor de várias reformas. A pressão teve eco no Parlamento e as reformas foram realizadas, conforme esclarece nesta entrevista, onde se enfrenta o tema da eversão, bem como o da criminalidade organizada. Dois anos depois da morte do pai, escreveu um livro, Delito Imperfeito: A verdade sobre o caso Dalla Chiesa, publicado no Brasil em 1986 pela J. Olympio. Já era autor de um estudo profundo sobre a Cosa Nostra, desde a origem até os mais recentes desenvolvimentos. No ano passado lançou La Convergenza, A Convergência, sobre as relações entre Máfia e política no tempo de Berlusconi. Sobre o caso Battisti usa termos duros ao se referir às decisões tomadas pelo governo brasileiro a respeito e faz questão de sublinhar: “Pretendem vitimizar os terroristas, quando os primeiros alvejados pelo terror foram os magistrados”.

CartaCapital: O general Dalla Chiesa, seu pai, antes de ser morto pela Máfia em Palermo, tinha derrotado o terrorismo na Itália. O senhor recorda como ele agia?
Nando Dalla Chiesa
: Através da construção de uma rede de intelligence de diferente extração. Dela faziam parte as forças da ordem das diferentes corporações, Carabineiros, Polícia Civil e Polícia Alfandegária. Era a primeira vez que ­isso acontecia. Além do mais, os magistrados, muitos dos quais jovens e reformistas, usaram os métodos típicos das indagações difíceis e, com muita inteligência conseguiram tornar cientes alguns terroristas da própria derrota do ponto de vista político. Enfim, meu pai conseguiu resultados notáveis também graças aos infiltrados, ou seja, os terroristas que não eram responsáveis por delitos de sangue, que começaram a colaborar com a Justiça. O caso mais evidente e sintomático foi aquele do “Padre Metralha”, aliás, Silvano Girotto, pároco na Amazônia boliviana no início dos anos 70 como Padre Leone. Trata-se do fundador do Movimiento de Izquierda Revolucionaria (MIR) que achou uma metralhadora na estrada e lutou a guerrilha marxista na América Latina. Em primeiro lugar, para combater na Bolívia a sangrenta ditadura do general Hugo Banzer, depois apoiou os Tupamaros. No Chile, quando do golpe de Pinochet salvou-se ao refugiar-se na embaixada italiana e, de regresso à Itália, entrou nas BR. Quando compreendeu, quase de imediato na verdade, que a Itália não era a América Latina, foi contatado, por ordem de meu pai e como infiltrado permitiu a captura em Pinerolo, no Piemonte, dos primeiros chefes históricos das Brigadas Vermelhas, Renato Curcio e Alberto Franceschini. Mas a derrota do terrorismo na Itália foi possível também e principalmente pela adesão dos colaboradores de Justiça, porque, numa estrutura tão organizada em compartimentos, somente com eles foi possível compreender primeiro o seu funcionamento e em seguida desmantelá-lo, no pleno respeito da democracia. O primeiro caso em que meu pai colaborou ativamente com alguns jovens magistrados que hoje Berlusconi considera “togas vermelhas”, entre os quais Giancarlo Caselli, foi o de Patrizio Peci.

CC: Peci só falou porque foi torturado?
NDC
: Mas, por favor... Peci falou porque percebeu a loucura da luta armada para conquistar o poder na democracia, a sua foi uma decisão exclusivamente política. E a tomou depois que as BR tinham cometido alguns atrozes homicídios. Ficou claro para ele a ferocidade de terroristas, como Cesare Battisti. Por trás deles não havia povo algum, e nem uma décima parte do povo, e sim apenas e tão somente solidão, morte e desespero. Foi uma decisão exclusivamente política. Compreendeu que o Partido Comunista Italiano e todos os movimentos progressistas estavam contra eles.

CC: A Itália dos anos 70 poderia se parecer com o Brasil da ditadura?
NDC
: Na Itália dos anos 70 houve uma série de reformas revolucionárias, civis e sociais como o Estatuto dos Trabalhadores, que introduziu a semana de trabalho limitada a 36 horas. Por meio de referendos populares, foi aprovada a legalização do aborto e do divórcio, a reforma da escola com a participação direta de estudantes e seus pais, a reforma dos manicômios públicos, que foram transformados com a Lei Basaglia, e foi realizada a reforma da magistratura. A lista é longa demais para fornecer a lista completa, mas aquele foi talvez o período de maior progresso social e civil da Itália de sempre. Eu militava no movimento a favor das reformas juntamente com muitos outros jovens habilitados a perceber a diferença e reclamar nas praças por alternativas políticas, e outra coisa é atirar nos semelhantes, a maioria das vezes pelas costas.

CC: Na Itália dos anos 70, vigorava o Estado de Direito. No Brasil, afirma-se que Battisti é uma vítima da Justiça da Itália.
NDC
: Não sei como foi possível chegar à conclusão a que se chegou no caso Battisti. Quem foi chamado a decidir nunca leu um livro de história, ou estão ­envolvidos no caso outros interesses. Por exemplo, ele poderia ter sido informante­ dos serviços secretos franceses no decorrer do seu período parisiense e esses mesmos serviços estariam pressionando para que não fosse extraditado. Mas continuar a dizer besteiras para justificar o injustificável ofende não somente a nossa história e o Estado italiano, mas também põe em dúvida a inteligência de quem se opõe à extradição.

CC: Falemos de máfias. No livro lançado no Brasil por Wálter Fanganiello Maierovitch, o senhor fala da ‘Ndrangheta, que se espalha no norte da Itália, assunto importante também no Brasil, onde a máfia calabresa é sempre mais presente. Podemos dizer que a ‘Ndrangheta parece ter suplantado as outras máfias?
NDC
: Com toda certeza aproveitou-se da grande crise da Cosa Nostra depois das chacinas do 1992-1993. Agiu de forma favorecida por esse cone de sombra e pelo fato de que, em 1991, estabeleceu um plano federativo em seu interior, pelo qual as várias facções decidiram unir as energias ao contrário de guerrear entre si, procurando assim novos mercados. Houve, pois, uma fase de apaziguamento interno, seguida de uma postura de menor concorrência em relação à Cosa Nostra. Naquele mesmo período, além do mais, se desenvolvia o processo das Mãos Limpas, que modificou profundamente a classe política da Itália, pondo fim à Primeira República, para  não falar do fortíssimo impacto emotivo que as chacinas nas quais foram assassinados os juízes Falcone e Borsellino tiveram sobre a população italiana.

CC: Como podemos explicar o fato de que a ‘Ndrangheta tenha conseguido penetrar fortemente na América Latina, sobretudo no Brasil?
NDC
: Acredito que há tempo se registra uma presença importante da ‘Ndrangheta no Brasil e na Colômbia por meio da presença de foragidos, mas também através da ação capilar de homens de negócio, gente que se movimenta também em altos níveis. Cito, por exemplo, um foragido da Calábria nos anos 80 ligado ao clã dos Piromalli de Gioia Tauro, depois interceptado no Egito. Ele negociava com os governos da América Latina, o que é sintomático desse novo trend.

CC: A Convergência, seu último livro, fala das relações entre máfia e política na Itália na Segunda República. Como nasceu essa relação?
NDC
: A relação é antiga. A novidade é que de um lado há as instituições capazes de realizar investigações eficazes, de outro a política se mostra como uma pradaria onde as organizações mafiosas cavalgam e encontram conivência. E quando não se estabelecem as conivências, a máfia tende a criar ligações com políticos de baixa inteligência, ou que não fazem muitas perguntas. O ideal para um mafioso é um político cretino, matéria-prima que, infelizmente, abunda.

CC: O seu livro pode ser muito interessante para o Brasil. Na Itália temos a Máfia, mas temos também a melhor antimáfia. Aqui no Brasil discute-se muito, neste momento, a possibilidade de um endurecimento do sistema prisional para derrotar a grande criminalidade, ou seja, cadeia dura e isolamento, assim como foi feito pela antimáfia para derrotar a Máfia. Quais são seus entendimentos em relação à nossa situação?
NDC
: Trata-se de reduzir os espaços da ilegalidade, principalmente aquela grande, que cresceu com o tempo, de expugnar as casamatas que acabam competindo com o Estado para depois integrar-se a ele. No entanto, o conselho maior é aquele de manter a política o máximo possível longe da criminalidade e então impedir que possam se candidatar, por exemplo, pessoas incriminadas ou condenadas. A criminalidade compra os votos, é necessário nunca esquecê-lo. Na Itália foi assim.

CC: O que pode dizer em relação ao caso Andreotti?
NDC
: Fui o primeiro a denunciá-lo, revelando a liderança desse homem político à testa da corrente política do Partido Democrata-Cristão, que mantinha relações com a Cosa Nostra. A primeira coisa a ser sempre observada é a qualidade ética das pessoas, e não a utilidade. É necessário que esse conceito seja bem claro.

CC: Aqui no Brasil está se discutindo uma lei para impedir a candidatura de quem tem pendências judiciárias ou sofreu condenações. Chama-se Ficha Limpa. O que o senhor pensa sobre isso?
NDC
: Parece uma lei decisiva para a sorte do País, há uma exigência de tutela  dos cidadãos que deve ser colocada à frente do indivíduo. Na Itália, não se consegue aprovar uma lei similar, mas o direito da transparência é o primeiro de cada cidadão de bem.

CC: Falemos agora de Tano Badalamenti,­ grande boss da máfia, que viveu no Brasil e cujo filho, no ano passado, justamente aqui no Brasil, foi preso por uma fraude de 1 milhão de dólares. Quem foi Tano Badalamenti?
NDC
: Foi um dos bosses supremos da Cosa Nostra nos anos 70, ligação-chave entre a Itália e os Estados Unidos. Um dos símbolos da Máfia e um dos maiores traficantes de heroína da Cosa Nostra. De 1975 a 1984, foi um dos protagonistas de uma operação de narcotráfico no valor de 1,65 bilhão de dólares, conhecida como Pizza Connection. Esse “business” mafioso importava heroína do Oriente Médio e utilizava como centros de venda muitas pizzarias dos EUA.

CC: Há uma hipótese que liga uma visita do juiz Falcone aos Estados Unidos, rea­lizada em grande segredo, para tentar  fazer falar Badalamenti, que lá estava preso, com a ajuda de Tommaso Buscetta. Por causa disso Falcone teria sido assassinado. Em outras palavras, Badalamenti estaria ligado a Andreotti e ao homicídio de Falcone.
NDC
: Conheço essa hipótese, mas não posso demonstrá-la. Creio que Falcone foi assassinado quando a Cosa Nostra compreendeu que a Corte di Cassazione (equivalente ao STF) não podia ser manipulada. Os colaboradores de Justiça acreditam que Falcone, naquele momento, foi condenado à morte. CC: Quais são os riscos maiores quando não se combate a criminalidade organizada, principalmente nas suas ligações com a política, subestimando os perigos das máfias? NDC: Penso que o exemplo mais direto seja aquele do México. Quando esses paí­ses com alta taxa de criminalidade crescem nesse sentido, o risco é que possam se tornar narco-Estados. Também a Itália por pouco não correu esse risco.

CC: E Berlusconi? As suas ligações através do senador Marcello Dell’Utri com a Máfia?
NDC
: Há uma sentença de um recurso que acusa Dell’Utri de ter sido usado como  intermediário entre os clãs mafiosos e Berlusconi. Enfim, Berlusconi deu emprego a Mangano, homem da Cosa Nostra, como palafreneiro na residência de Arcore. O mesmo Mangano, já falecido, que Dell’Utri qualificou como herói. O premier faz aquilo que é bom para a Máfia, ou seja, desrespeita o Estado, ataca a magistratura e a própria Corte Constitucional. No livro, sustento a ideia de que, de 1996 a 2001, o centro-esquerda no poder fez leis que serviam à Máfia. Em seguida, chegou o centro-direita, que prestou um favor maior, ou seja, demoliu o sentido do Estado. Se, em determinado momento, Buscetta falou com Falcone, foi, pelo contrário, porque existia a imagem de um Estado sério, forte e crível. Por sorte, uma parte da magistratura e das forças da ordem continua, ainda hoje, a cumprir seu dever, já que os foragidos ainda são capturados, apesar do clima político. Temos de levar em consideração que já houve uma comissão antimáfia que se preocupou em proclamar a inocência de Andreotti contra as sentenças que de qualquer forma se extinguiam na prescrição.

CC: Quanto ao assassínio de seu pai, qual é a sua ideia a respeito?
NDC
: É a mesma que tiveram os magistrados, eles indagaram a respeito dos mandantes da Cosa Nostra, e infelizmente não chegaram a conclusões, embora estivessem convencidos de que havia mandantes além da cúpula mafiosa. Mandantes políticos. Andreotti? Não posso provar. Mas, com certeza, a primeira vez que ouvi usar a palavra “convergências” foi naquele processo.

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