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Oriente Médio

Barris de gasolina na fogueira

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 03/02/2011 12h40, última modificação 03/02/2011 17h57
Crise econômica, revoltas populares e revelações embaraçosas ameaçam gerar uma reviravolta sem precedentes. Por Antonio Luiz M.C.Costa, na edição 631 de CartaCapital
Barris de gasolina na fogueira

Crise econômica, revoltas populares e revelações embaraçosas ameaçam gerar uma reviravolta sem precentes. Por Antonio Luiz M.C. Costa. Foto: Ahmad Gharabli/ AFP

Crise econômica, revoltas populares e revelações embaraçosas ameaçam gerar uma reviravolta sem precedentes

Se a expectativa parecia ser de que o Oriente Médio saísse pouco a pouco do controle do Ocidente e de seus atuais governantes, nas últimas semanas começou a se concretizar o risco de uma explosão revolucionária em escala comparável à do desmoronamento do bloco soviético a partir de 1989.

As esperanças de progresso minguaram desde o assassinato de Yitzhak Rabin (1995) e o subsequente fracasso dos Acordos de Oslo mediados por Bill  Clinton em 1993 e a situação só piorou desde a virada do milênio, com Bush júnior, Iraque, Afeganistão, a radicalização dos movimentos políticos islâmicos, os ataques de Israel ao Líbano e a Gaza e a eleição de Benjamin Netanyahu.

O governo Barack Obama prometeu justiça no discurso do Cairo de junho de 2009 e pareceu pressionar Tel-Aviv para suspender a construção de assentamentos judeus na Cisjordânia e negociar a sério com os palestinos. Mas isso foi esquecido ante os impasses da política interna. A Casa Branca abriu mão de qualquer iniciativa que desagradasse ao lobby sionista ou aos republicanos e permitiu a Israel fazer o que bem entendesse em relação às suas colônias e aos palestinos, abandonando-os à própria falta de sorte.

À frustração das expectativas, somam-se agora a crise econômica e a alta das commodities facilitada pela “flexibilização quantitativa” do Fed, que fez subir o custo de vida e aumentar a inquietação social nos países árabes. O primeiro elo rompeu-se onde menos se esperava: na Tunísia, país- árabe que não constava da lista das preocupações do Ocidente nas últimas gerações. O exemplo contagiou a Argélia e o Egito, onde o confronto entre regimes laicos autoritários e o fundamentalismo já crescia. Em ambos, não faltou quem se dispusesse a atear fogo a si mesmo, imitando o ato de desespero que desencadeou a revolta em Túnis. Explodem tensões acumuladas por longos períodos de estagnação social, alguns deles identificados por décadas a fio com os mesmos rostos.

Simultaneamente, cai o governo libanês pró-ocidental de Saad Hariri, no preciso momento em que posava para fotos oficiais na Casa Branca com Barack Obama e buscava seu apoio contra o Hezbollah – e este, logo em seguida, consegue apoio parlamentar para formar um novo governo.

Também nos mesmos dias, a rede catarense de mídia Al-Jazira e o jornal britânico Guardian publicaram documentos confidenciais sobre as negociações entre Israel e a Autoridade Nacional Palestina (ANP) que abalaram o prestígio da OLP e do governo de Mahmoud Abbas e, à primeira vista, favoreceram o Hamas. Alguns jornalistas erradamente atribuí-ram o caso ao WikiLeaks, mas os mais de 1,6 mil documentos, apelidados Palestine Papers, foram vazados diretamente à Al-Jazira, provavelmente por funcionários- descontentes da Autoridade Palestina (a menos que, como esta alega, venham de Israel). Um suspeito é Mohammed Dahlan, ex-chefe de segurança que tem sido investigado por Abbas por suspeita de conspiração contra seu governo.

A Al-Jazira teria tomado essa iniciativa sem a anuência do governo do Catar. Seria mais um indicador da extensão do mal-estar árabe com a política dos EUA e Israel para a Palestina e com a ineficácia da ANP, pois o emirado é tido como amigável para com o Ocidente, hostil ao Irã e relativamente “liberal”, apesar de tratar homossexuais com prisão e chibatadas.

A impressão geral é que, nos bastidores, a ANP mostrou-se disposta a ceder quase tudo. Entregaria parte da Cisjordânia, incluindo a maioria das colônias judias e a maior parte de Jerusalém Oriental. Abriria mão do direito de retorno a Israel dos 5 milhões de refugiados palestinos expulsos desde a guerra de 1948 e espalhados por vários países árabes (Condoleeza Rice propôs assentá-los no Chile e na Argentina, mas não se sabe se consultou esses países). Apenas a quantidade insignificante de mil refugiados seria autorizada a retornar por ano. Os documentos também mostram que a ANP colabora com Israel e as potências ocidentais na luta contra o Irã, na repressão ao Hamas e no estrangulamento de Gaza. Um texto detalha um plano da inteligência britânica para capturar os ativistas islâmicos, fechar suas rádios e substituir seus clérigos nas mesquitas, preparado com o conhecimento de Abbas.

Para The Economist, a reação contra a OLP não é justificada: segundo os editores britânicos, os Palestine Papers mostram a ANP defendendo corretamente o seu lado. Mais embaraçado deveria estar Israel, pois os documentos contradizem a narrativa israelense de que os palestinos rejeitaram suas ofertas generosas: pelo contrário, mostram os palestinos tomando iniciativas que Israel bloqueia sistematicamente, sem oferecer contrapropostas.

Mas é o ponto de vista de um observador distante das realidades locais, informado apenas pela mídia ocidental. Longe de parecer embaraçado, o governo Netanyahu usou o vazamento para mostrar a seus eleitores que os palestinos já abriram mão na prática de questões pelas quais ainda alegam lutar, sua resistência é simbólica e podem ser forçados a ceder ainda mais. Analistas pró-Israel escreveram que a revelação pode facilitar o processo de paz ao “preparar” os palestinos para concessões inevitáveis e convencer os israelenses de que os negociadores de Abbas aceitarão um acordo.

Houve em Ramallah simpatizantes da OLP dispostos a invadir o escritório local da Al-Jazira e ovacionar Abbas e seu -negociador-chefe Saeb Erekat, mas a reação mais geral do mundo árabe é negativa. Muitos observadores, sem estarem ligados a fundamentalistas, sentem-se indignados ou traídos pela liderança da ANP, justamente quando sua busca de reconhecimento dava frutos, com o apoio do Brasil, da Rússia e de muitos outros países europeus e latino-americanos.

O editorial do Guardian chamou a liderança palestina de “covarde”. Para Robert Fisk, correspondente do britânico The Independent, “os representantes dos palestinos estão prontos para destruir qualquer esperança de que os refugiados voltem para casa. Os palestinos se sentirão – e se sentem – ultrajados ao descobrir como lhes viraram as costas. As mentiras acabaram”. O historiador marxista Tariq Ali, paquistanês, escreveu: “Capitulação total. Os Palestine Papers confirmam o que muitos palestinos já suspeitavam: que seus líderes têm colaborado com Israel e os EUA da maneira mais vergonhosa”. Karma Nabulsin, professora de ciências políticas de Oxford e colaboradora do Guardian que já representou a OLP no Ocidente, foi ainda mais dura: “Esse jogo feio e sem fim do processo de paz está encerrado, é uma vergonha. Os palestinos devem rejeitar seus líderes e reconstruir seu movimento. A postura fraca e incompetente das lideranças palestinas é o posto de uma representação digna e honrada, e prova sua inutilidade descartável”.

Isso diz respeito também às lideranças dos países árabes que apoiaram os esforços dos EUA e de Israel, inclusive a da Jordânia, mas principalmente a do Egito, o mais populoso dos países árabes, chave da região. Tanto a revolução de Nasser, em 1952, quanto o acordo de paz de Anuar Sadat com Israel, em 1979, marcaram profundamente a região – e uma nova revolução está na ordem do dia. Afirma-se que o exército egípcio é mais poderoso que o da Tunísia e está ao lado do regime, mas mais poderosos e leais eram, supostamente, os do xá do Irã e da União Soviética. Diz-se também que há menos participação da classe média nos protestos, mas se isso for verdade, pode significar apenas que a reviravolta, se vier, será mais drástica e violenta.

Na terça-feira 25 de janeiro, foi o “dia da Ira” difundido boca a boca e pelo Twitter até o governo o bloquear. Dezenas de milhares saíram às ruas do Cairo, Alexandria, Assuã, Assiut e Suez aos gritos de “fora Hosni Mubarak!” e “Tunísia!” e exigiram novas eleições parlamentares, visto que as de dezembro foram claramente manipuladas e fraudadas. Rasgaram retratos de Hosni e seu filho e potencial sucessor Gamal, jogaram pedras, viraram carros da polícia. A fundamentalista Fraternidade Islâmica tem forte participação, mas as fotos também mostram egípcios laicos, inclusive jovens mulheres de jeans.

As manifestações foram proibidas, mas prosseguiram na quarta-feira com mais força. Em Suez, coquetéis Molotov foram lançados em um prédio do governo e no escritório do partido governista. O balanço dos enfrentamentos indicou pelo menos seis mortos, 70 feridos e 860 presos. Circulou a informação de que Gamal Mubarak fugiu para Londres com a família e cem peças de bagagem, não confirmada ou desmentida pela chancelaria britânica.

A mídia ocidental cobre os protestos no Cairo com muito menos entusiasmo do que, digamos, os de Teerã em 2009: protestos só interessam quando são pró-ocidentais e a democracia só convém quando a preferência dos eleitores coincide com a de Washington. Se Obama, no discurso sobre o estado da União, disse que os EUA estão ao lado dos manifestantes que derrubaram Ben Ali – agora que sua queda é fato consumado –, Hillary Clinton, no mesmo dia, insistiu em que “o governo egípcio é estável e pro-cura soluções para as necessidades do povo”. Mesmo que soubesse evitar a repetição de seus erros, faltam à Casa Branca outras opções no país ou na região.

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