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Massacre

Banho de Sangue na Síria Mobiliza a ONU

por Gianni Carta publicado 02/08/2011 15h17, última modificação 06/06/2015 18h16
Assad e suas ‘’forças de segurança’’ não estão interessados em diálogos construtivos, como propõe o Brasil. Parecem determinados a continuar na linha da violência. Por Gianni Carta.

O silêncio da chamada comunidade internacional diante da chacina perpetrada pelas ‘’forças de segurança’’ do raís Bashar el-Assad contra os manifestantes sírios tem sido atroz. Mas por conta da última onda de massacres, integrantes do Conselho de Segurança das Nações Unidas se reuniram às pressas na noite de segunda-feira 1. Objetivo: aprovar uma resolução a condenar a violência do regime de Damasco. .

Enquanto isso, a União Europeia, mais unida do que o Conselho em termos de represálias contra a Síria, voltou a abrir o leque de sanções contra integrantes do regime de Assad. Os bens de cinco comandantes do exército serão congelados. A UE também impôs um embargo sobre a venda de armas. Nas três rodadas de sanções anteriores, 35 pessoas, incluindo Assad, já haviam sido punidas pela Europa.

Contudo, da reunião de emergência no Conselho, a portas fechadas, sabe-se pouco. Nesta terça 2, os 15 membros do Conselho voltarão a se reunir para votar pela adoção de um texto. Tendo em conta a reinante cacofonia entre os 15 do Conselho, é difícil, porém, imaginar o conteúdo do documento.

De um lado, Brasil, Índia e África do Sul, e mais China e Rússia, são contrários a uma resolução. Para esses países, uma resolução abriria o caminho para uma intervenção militar, como aconteceu na Líbia. A saída seria uma missão à Damasco, da qual participará o Brasil. O objetivo é dialogar com Assad.

Do outro lado, a União Europeia e os Estados Unidos são favoráveis a uma resolução para conter os massacres por parte das ‘’forças de segurança’’, às quais se agregam os mercenários de Assad. Durante a reunião de emergência, a secretária de Estados dos EUA, Hillary Clinton, pediu aos integrantes do Conselho contrários a ações mais límpidas para conter a chacina para ‘’reconsiderarem suas posições’’. Clinton voltou a martelar: ‘’O regime de Assad perdeu a legitimidade’’.

Outros recorrem às costumeiras herméticas declarações diplomáticas. O atual presidente do Conselho, o embaixador indiano Hardeep Singh Puri, disse, por exemplo, ter ‘’observado uma certa convergência’’ de ideias. Segundo o diplomata, os presentes manifestaram a mesma ‘’preocupação’’ diante da escalada da violência na Síria. Preocupação? Desde o início dos protestos, em meados de março, 2 mil pessoas perderam a vida, entre elas mais de 1.600 civis, segundo o Observatoire Syrien des Droits de l’Homme (OSDH).

Implacável, o alauíta Assad e seus seguidores, em sua maior parte da mesma seita muçulmana representada por 10% da população de 23 milhões, diz ser necessário combater as ‘’gangues de criminosos armados sob o comando de estrangeiros’’. A nova onda de massacres é simples de explicar. Assad teme que as manifestações ganhem ímpeto no mês do Ramadã, o nono do calendário islâmico.

Neste mês, a vasta maioria do povo irá diariamente às mesquitas, foco de protestos. A jejuar e paginar com maior assiduidade o Alcorão num período de renovação da fé, a ira a mover os manifestantes sunitas contra a minoria alauíta só tenderá a crescer.

A sangrenta contenda tem, portanto, potencial para deflagrar um conflito intestino entre seitas no plano nacional, similar àqueles no Líbano e no Iraque. Para piorar o quadro para Assad, significativa fatia das populações de cristãos e curdos, cada qual a representar 10% da população e outrora partidários dos alauítas, agora participa dos protestos contra o regime.

Os brutais ataques têm sido perpetrados contra sírios em todo o país a protestar por uma democracia, e pelo fim de um regime nepotista e corrupto. Hama, ao norte de Damasco, é, contudo, o epicentro do conflito. Em 1982, Hafez el-Assad, pai de Bashar falecido em 2000, após 30 anos no poder, enfrentou uma revolta em Hama com extrema brutalidade. Cerca de 30 mil civis foram mortos em três semanas. A chacina a tornou a cidade dos mártires, e disseminou país afora um clima de paranoia em relação à dinastia Assad, há quatro décadas no poder.

Bashar el-Assad parecia um bom rapaz, com intenções reformistas, ao assumir o cargo, em 2000. Não fosse a inesperada morte do irmão mais velho, educado para tomar posse, teria seguido carreira pacata na área de oftalmologia. No entanto, Assad agora mostra ter os mesmos pendores do pai.

Como explicar essa posição de aparente onipotência por parte do raís? De saída, o Irã, como o qual mantém boas relações, quer manter Assad no poder a qualquer custo. Israel prefere lidar com o previsível Assad que com um governo, em Damasco, com elos, quem sabe, com a Al-Qaeda. Quanto aos Estados Unidos, estão com as mãos atadas em outros conflitos.

Claro é o seguinte: Assad e suas ‘’forças de segurança’’ não estão interessados em diálogos construtivos, como propõe o Brasil. Parecem determinados, e os últimos massacres deixam isso transparente, a continuar na linha da violência. Para o Partido Baath, as burocracias, os serviços secretos e o exército, Assad representa estabilidade. Mas até quando Assad terá o apoio desses privilegiados diante do maciço protesto de massa?

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