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Otan

Bandeira branca

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 31/05/2012 16h54, última modificação 06/06/2015 18h14
A organização abandona, na prática, a esperança de vencer a guerra no Afeganistão
Cabul

Obama duplicou as tropas dos EUA em Cabul para tentar dobrar o Taleban e falhou. Agora busca uma saída honrosa. Foto: Shah Marai/AFP

Em meio a cenas de protesto e de dura repressão por parte da polícia de Chicago, as nações da Otan e suas aliadas tiveram sua primeira reunião desde a cúpula de Lisboa em 2010. Naquela ocasião, tratou-se de redefinir e ampliar seu “Conceito Estratégico” para além do Atlântico Norte como forma de garantir o fornecimento de energia, atuando na Ásia Central e outras regiões vitais.?

Desta vez, ao contrário, o ponto principal da pauta é um recuo. Barack Obama quer mostrar a eleitores e aliados uma “luz no fim do túnel” no Afeganistão, uma conclusão honrosa para uma guerra que já consumiu 12 anos e 1 trilhão de dólares.

É urgente salvar as aparências, antes que a retirada comece a parecer uma debandada. O Canadá abandonou os combates em 2011, François Hollande avisou que a antecipação da retirada da França para o fim deste ano é “inegociável”, a Austrália marcou sua retirada para 2013, a Polônia para 2014 e o Reino Unido para 2015. Washington manobra para que o quadro às vésperas das eleições de novembro pareça o melhor possível.

Segundo o acordado, a Otan transferirá a responsabilidade pela segurança ao governo de Cabul em meados de 2013, o que supostamente significará o fim das repetidas cenas de barbárie protagonizadas por soldados dos EUA contra inimigos derrotados e até civis indefesos, que horrorizam o Ocidente e predispõem os afegãos a apoiar o Taleban contra os estrangeiros. São cada vez mais frequentes os casos de soldados e funcionários ocidentais mortos a tiros por policiais ou soldados com os uniformes do governo de Hamid Karzai.

A retirada das forças aliadas se completaria até o fim de 2014. Obama, ao mesmo tempo, pressiona Karzai a retomar com urgência os entendimentos com o Taleban e chegar a uma “solução política”. Com a queixa de “falta de clareza” de Washington, os fundamentalistas suspenderam em 15 de março a negociação no Catar iniciada em fevereiro, mas as retomaram no fim de abril, visando a troca de cinco líderes talebans presos em Guantánamo por um soldado estadunidense capturado em 2009.

Isso sugere que os EUA estão dispostos a ceder mais em troca de um pacto até novembro, mesmo se as circunstâncias sugerem que esse arranjo seria tão precário quanto os Acordos de Paris de 1973, que serviram de desculpa para encerrar a participação dos EUA na Guerra do Vietnã e abriram caminho à vitória definitiva do vietcongue em 1975. O desenlace pode ser ainda mais constrangedor, já que a base de poder independente de Karzai é mínima, mais frágil que aquela do governo de Saigon, em 1974. Suas tropas resultam de uma aliança, forçada por Bush júnior, de caudilhos tribais que podem trair uns aos outros e a Karzai assim que virem os marines pelas costas.

A aposta inicial de Obama era que o reforço que duplicou as forças dos EUA no Afeganistão em 2009 seria suficiente para enfraquecer o Taleban e obrigá-lo a negociar. Obviamente, não foi assim: os fundamentalistas não recuaram e se tornaram mais ousados, a ponto de realizar ataques inéditos na própria capital.

Além disso, a intensificação dos ataques com drones (aviões sem piloto) contra supostos fundamentalistas na fronteira e no próprio território do vizinho Paquistão, bem como a execução de Bin Laden perto da academia militar desse país, esgotaram a escassa disposição desse governo a colaborar. Condenou a 33 anos de prisão, por traição, o médico paquistanês que ajudou os EUA a localizá-lo e fechou há seis meses as vias de abastecimento da Otan desde que um ataque aéreo dos EUA matou 24 soldados paquistaneses, obrigando-a a recorrer à Rússia e Ásia Central.

Obama disse ingenuamente que a morte de Bin Laden “foi o dia mais importante do mandato”, mas também a pretensão de ter enfraquecido seriamente a Al-Qaeda merece dúvidas. Suas ações no Iraque e Iêmen nunca cessaram. Nesse último país, a organização controla uma província inteira desde março de 2011 e em 21 de maio um de seus homens-bomba, recrutado no exército iemenita, explodiu no meio de uma parada militar: matou 100 soldados e feriu 300. Nos últimos meses, a Primavera Árabe abriu espaços à Al-Qaeda na Líbia, onde sua bandeira tremula sobre edifícios públicos, na Síria, onde cometeu vários atentados com carros-bomba contra o regime de Bashar al-Assad e talvez em outros países do Oriente Médio e África.

Os EUA também parecem apostar em um acordo com o Irã, mesmo se sanções continuem a ser aplicadas. O Congresso de Washington está prestes a votar um projeto de lei para autorizar uma guerra com o país e o Pentágono se diz pronto para essa eventualidade, mas, para o aparente desgosto de Tel-Aviv, o chefe da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Yukiya Amano, visitou Teerã na segunda-feira 21, dois dias antes da retomada das negociações do Conselho de Segurança com o Irã em Bagdá, e disse estar muito próximo de um acordo para retomar as inspeções nas instalações nucleares iranianas.

Ao que parece, tanto as potências quanto Teerã podem aceitar um arranjo que permita ao Irã continuar a enriquecer urânio a 3,5% para seus reatores nucleares (o que o Brasil e o Japão, por exemplo, também fazem), desde que suspenda o enriquecimento a 20% e abra suas instalações o suficiente para dar garantias convincentes de não estar construindo armas nucleares. Os diplomatas consideraram substanciais o avanços em Bagdá e marcaram outra reunião para meados de junho em Genebra. Israel continua a exigir oficialmente o desmantelamento total do programa nuclear iraniano, mas Netanyahu deve saber muito bem que, sem o respaldo de Washington, suas ameaças serão vazias.

Segundo o jornal israelense Haaretz, o ministro da Defesa Ehud Barak informou a Obama a disposição de flexibilizar sua posição. A adesão à base governista do partido Kadima facilita ao governo, se quiser, enquadrar a ultradireita. Ao mesmo tempo, a derrota do Mahmoud Ahmadinejad para os partidários do aiatolá Ali Khamenei nas eleições parlamentares permite alguma flexibilização do Irã. Embora mais aferrados que o presidente ao fundamentalismo e, talvez mais autoritários, os ultraconservadores parecem mais pragmáticos quando se trata de política externa.

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