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Saúde Pública

Bali extermina cães para controlar epidemia de raiva

por Juliana Bassetti — publicado 01/09/2015 03h26
Defensores dos animais discordam da política adotada e defendem vacinação em massa para conter a doença
Divulgação: BAWA
Agente do governo atira dardo envenenado com estricnina em cão da região de Bangli, Bali

Agente do governo atira dardo envenenado com estricnina em cão da região de Bangli, Bali

A província de Bali, na Indonésia, é famosa por seus históricos templos hindus, praias com ondas perfeitas para a prática do surf e uma agitada vida noturna. Procurada por viajantes de todo o mundo, esse destino turístico enfrenta um sério problema com a superpopulação de cães.

Apesar de não ser um atrativo da região, esses animais fazem parte do dia a dia dos balineses, expatriados e até mesmo dos turistas, já que as matilhas circulam pelas praias e portas de restaurantes.

O governo estima que existam 500 mil Bali dogs, como são chamados pelos locais, o que representa um cão para cada oito habitantes da ilha. Famintos e sem cuidados, muitos animais manifestam doenças contagiosas como a raiva, enfermidade que preocupa a população e as autoridades de saúde. 

O primeiro caso de raiva em Bali foi registrado em 2008. Desde então, 160 pessoas morreram após serem mordidas por cães doentes e os casos seguidos de óbito estão crescendo nos últimos meses. Em 2014, duas pessoas morreram infectadas pelo vírus da raiva. Até agosto desde ano, já foram contabilizados 12 casos com morte. 

Para controlar a zoonose e evitar o avanço da epidemia, o governador de Bali, Made Mangku Pastika, tomou uma medida que chocou defensores dos direitos dos animais em todo o mundo: o extermínio em massa de cães.

Uma equipe oficial ligada ao Departamento de Pecuária e Saúde Animal de Bali foi organizada para envenenar com alimentos e dardos de estricnina todos os cães que estiverem fora de um terreno particular. O programa começou no ano passado e se intensificou a partir de junho deste ano. Em apenas uma dia, a equipe do governo chega a abater mais de 200 animais, podendo eliminar todos os cães de uma vila ou aldeia. 

Fundada em 2007 para promover o bem-estar animal na ilha, a Bali Association Well Animal (BAWA), ONG presidida pela norte-americana Janice Girardi, tem reportado semanalmente em sua página do Facebook casos de pessoas que lamentam a morte de seus companheiros. Muitos deles são vacinados, bem alimentados e saudáveis.

Entretanto, a regra adotada pelo governo é a de que se o cão não está preso, ele é de rua e será abatido. Janice explica que em Bali muitos animais não têm dono, no sentido de propriedade de um indivíduo ou família, como ocorre no Ocidente. "Aqui os cães pertencem a um local, vivem soltos e são cuidados por mais de uma pessoa", destaca.

Outra questão que impulsiona a morte de pessoas infectadas, além do costume da população local de buscar tratamentos alternativos antes do atendimento hospitalar, é a falta de investimentos do governo da província tanto em imunização de animais quanto em vacinas curativas para humanos mordidos por cachorros doentes.

Em janeiro deste ano, o governador de Bali reclamou publicamente dos gastos para combater a raiva e fez um apelo à população: "Nossos recursos se esgotaram apenas na compra de vacinas antirrábica. Por favor, ajude. Se você vir um cão de rua, mate-o, elimine-o. Não permita que eles propaguem doenças. Isso é perigoso e assusta as pessoas".

A presidente da BAWA acredita que essa é uma estratégia equivocada de reduzir os custos do governo local. "Matar cães em vez de vacinar é sem sentido, contraproducente e provavelmente uma tentativa de reduzir a demanda por vacinas, mas a vacinação de animais em massa ainda é a melhor forma de combater a raiva em cães e em humanos. O abate é inútil e cruel, já que a estricnina provoca convulsões e uma morte lenta e dolorosa", avalia Janice.

 

A francesa Aghate Menari e abraça a cadela Mia, salva do envenenamento
A francesa Aghate Menari e abraça a cadela Mia, salva do envenenamento

Com medo de não encontrar a vacina caso seja infectada com a raiva, a própria população está matando os animais das comunidades. Foi o que aconteceu com cinco cães da francesa Aghate Menari. Moradora de Bali há cinco anos, ela teve quatro animais de estimação envenenados somente no primeiro semestre de 2015. Apenas a cadela Mia sobreviveu.

Posteriormente, seu vizinho assumiu a autoria do ato. "Precisei mudar de endereço, mas sei que meus outros 15 cães continuam em perigo nessa nova casa porque já fomos ameaçados por vizinhos. Pretendo mudar novamente em dezembro", lamenta.

O indonésio Wayan Yudiana também perdeu o companheiro da família. Com um ano e seis meses, Poppy era como a maioria dos cães domésticos. Passava o dia em casa e, ao anoitecer, partia para um passeio pelas redondezas da charmosa e turística Ubud, distrito localizado na região central de Bali. Wayan conta que, no dia 22 de junho, Poppy voltou para casa fraco e vomitando.

Ele ligou para o veterinário, que receitou água com açúcar. O cachorro acordou melhor na manhã seguinte, mas à noite voltou a vomitar. Wayan telefonou novamente para o veterinário, porém o profissional não estava disponível para uma visita naquele momento. Um turista sugeriu que Wayan ligasse para a BAWA. Quando os veterinários da ONG chegaram, a cova já estava pronta para o enterro de Poppy. Pelos sintomas apresentados pelo animal, Wayan e sua esposa acreditam que o cão tenha sido envenenado.

 

Na primeira semana de julho, a equipe do governo esteve em Nusa Lenbongam, ilha que faz parte da província de Bali e onde não há registro de casos de raiva nos últimos anos. Ali, dezenas de cães foram envenenados em seis dias de ação. A comunidade está revoltada. BAWA colheu relatos de pessoas que acompanharam a agonia de cães com vômitos e convulsões por duas horas até morrerem. Um morador decidiu afogar seus animais para evitar que continuassem sofrendo. 

Na manhã do dia 20 de agosto os agentes do governo entraram novamente em ação, dessa vez na capital de Bali, Denpasar. Em uma das "incursões", eles invadiram uma área privada decididos a abater seis cães que viviam nos fundos de um pequeno restaurante.

Os donos do estabelecimento disseram que os animais eram vacinados e que poderiam mostrar a carteira de vacinação. Mesmo assim, os agentes atiraram dardos envenenados contra os animais. Um dos alvos foi uma cadela com sete filhotes. Três deles foram salvos a tempo pelos filhos do dono do restaurante. Os demais quatro filhotes foram mortos em frente às crianças. 

O Chefe do Departamento de Pecuária e Saúde Animal de Bali, Putu Sumantra, declarou publicamente que as ações são necessárias e vão continuar por conta do grande número de filhotes e cães abandonados e da facilidade com que a doença se dissipa: "A raiva pode facilmente se espalhar entre cães de rua, já que eles costumam morder uns aos outros. Para conter a doença, é essencial controlar a proliferação dos animais por meio do abate", afirma Sumantra. Procurado pela reportagem, o oficial do governo não retornou as ligações nem respondeu às mensagens.

Para tentar sensibilizar as autoridades locais, uma petição online está recolhendo assinaturas no mundo todo pedindo o fim da execução de cães em Bali. 

O Brasil é exemplo no combate eficaz da doença por meio de campanhas de vacinação. Em 1973, o Ministério da Saúde implantou o Programa Nacional de Prevenção da Raiva com vacinação gratuita de animais. Desde então, o número de casos de raiva em animas caiu 95%.

Em 1990, o país contabilizava 50 casos de raiva em humanos após mordidas de cachorro. Já em 2014, não houve registro de casos de raiva em humanos e, este ano, uma ocorrência no Mato Grosso do Sul.